romeiro, romeiro, quem és tu?

vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, pergunto. “não.”, respondes.
mas ficas. e ficas para me lembrar que estás desse lado e eu estou deste. e para me lembrar de que a culpa é minha. e eu aceito. sei que não é verdade, mas aceito.
e exiges-me que vá ter contigo, que atravesse e vá ter contigo.
exiges-me que vá ter contigo embora saibas que não tenho como.
és a minha cathy, do outro lado da janela mas deitada ao meu lado.
“i can not live without my life! i can not live without my soul!”
eu fiquei com a vida. tu levaste-me a alma.

adormeço para um sonho.
acordo para um pesadelo. de garras em riste.
sempre de garras em riste.
sem ti. e de garras em riste. as mesmas que te levaram para o outro lado da janela. as mesmas com que te atirei para os vendavais.
elas lembram-me da culpa.

viro costas às garras. viro costas ao animal. viro costas a tudo o que me lembra a culpa que aceito como minha. viro costas à humanidade com minúscula, a minha. viro costas à humanidade com maiúscula, a que olha para mim e só vê o animal.

fujo. de mim. e do animal.
mas não interessa aonde a minha peregrinação me leva: adormeço sempre para um sonho e acordo para um pesadelo.
por muito que fuja do animal e das humanidades, lá estão elas: as garras, em riste.
espadas poderosas, extensões letais de um esqueleto à prova de tudo.

espadas de um guerreiro. de um guerreiro sem horizonte, sem propósito. de um samurai sem amo, sem razão de ser.
preso ao animal. preso ao infinito do animal.
preso ao infinito que me mantém deste lado da janela e que me obriga a aceitar a culpa que dizes que é minha.
preso à ausência de horizonte. preso ao animal de esqueleto indestrutível.



vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, desta vez és tu que perguntas. “não.”, respondo.
não posso ficar e não posso ir ter contigo. não é suposto ir ter contigo.
a culpa não é minha. a culpa é tua.
o coração do animal de esqueleto indestrutível acordou em riste quando viu que a tua humanidade tinha perdido o propósito. que estavas presa ao teu próprio monstro interior. e que já não eras um sonho. e as garras, em riste, estiveram à altura como um samurai cujo amo é a sua humanidade com minúscula.
a culpa não é minha. a culpa não é das garras. a culpa não é do animal.



– romeiro, romeiro, quem és tu?
– i am the wolverine.

2 thoughts on “romeiro, romeiro, quem és tu?

  1. só começamos a viver quando aceitamos a nossa verdadeira natureza … e vemos que as acções que outros exigiram de nós não são as nossas … acho que a verdadeira liberdade vem no momento em que ao sacar das garras dizemos ‘somos isto … para o bem e para o mal … mas somos *isto!*’ …. há beleza na segurança do ser, na confiança da alma … renegar-nos … stop running, face it all, lay it all bare, let it all go, embrace the self and become the wolverine … ❤ this!!!

  2. faltou o final de um pensamento ‘renegar-nos destrói todo o nosso ser’ … pode demorar tempo, mas destrói porque não há nada mais destruidor do ‘eu’ que não estarmos a ser o nosso authentic self …

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