se fosses capaz…

aproximas-te e vês melhor. contudo, só por 1 segundo. logo a seguir fica tudo desfocado. afinal, a proximidade não traz clareza. bem pelo contrário: à medida que te aproximas, crias sombra e, claro, vês pior.
a seguir, afastas-te. queres eliminar a sombra. não há nada a fazer. a sombra permanece. esperas mais um pouco. “pode ser que seja uma questão de habituação.” mas não. não há nada a fazer. desistes. “preciso de marcar oftalmologista.”
e, assim, arrumas o assunto. e, assim, colocas de parte a questão. e, assim, pões um carimbo no assunto, na questão, na tua incapacidade. essa incapacidade de ajustar a focagem ao que está à tua frente. a tua incapacidade de perceber que para ver é preciso ver-ver. mas já tens o carimbo, é oficial que não tens responsabilidade. e desistes.

se não desistisses,…
se fosses capaz de querer mais,…
se fosses capaz de assumir que és responsável por querer ver-ver,…
se não tivesses medo de ajustar a focagem,…
se não tivesses medo do que verias se efetivamente fosses capaz de ver-ver,…

… talvez (mas só talvez!) fosses capaz de ver a formiga a passar e perceber que também ela tem aonde ir.
… talvez fosses capaz de ver que o sol se reflete nas superfícies mais incríveis.
… talvez fosses capaz de ver a cor da brisa.
… talvez fosses capaz de ver o padrão de cumplicidade de quem se senta à volta da mesma mesa de café.
… talvez fosses capaz de ver que as meninas vestidas de cor de rosa ficam lindas com botas de biqueiras de aço.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 3 anos que vira costas enquanto outros ouvem uma história acha que os livros só são inteiros quando os temos nas mãos.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 5 anos dá a mão à mãe para a proteger e não para que ela o proteja.
… talvez fosses capaz de ver que as crianças que crescem a fazer muitas perguntas vão ser adultos e vão continuar a fazer muitas perguntas e, à medida que essas perguntas vão, cada vez mais, sendo dirigidas a si próprios, também vão, cada vez mais, obter mais respostas… das quais vão surgir novas perguntas. cada vez mais.
… talvez fosses capaz de ver que, por detrás de cada ponto de interrogação, há 3 pontos de exclamação de olhos arregalados e sorriso de esperança.
… talvez fosses capaz de ver que os sorrisos de esperança são como asas de inseto, finas e transparentes.
… talvez fosses capaz de ver que asas finas e transparentes são imensas e poderosas.
… talvez fosses capaz de ver a transparência das asas… e não ter medo da transparência de quem tem a capacidade de voar.
… talvez fosses capaz de ver que a transparência alarga horizontes e que horizontes amplos tornam o nosso mundo maior e o dia mais claro.
… talvez fosses capaz de ver as cores do infinito.
… talvez fosses capaz de ver-ver. simplesmente ver-ver.

se fosses capaz de ver-ver, talvez… não, “talvez” não: de certeza que ias ser capaz de sentir. o infinito, a transparência, a esperança que acompanha os sorrisos arregalados, o colorido da essência das crianças, o amarelo quente do sol.

sim, se fosses capaz de ver-ver, ias ser capaz de sentir-sentir.

se fosses capaz…

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