assim de quem vai, 5 coisas que eu sei e 5 coisas que não consigo perceber

5 coisas que eu sei

1. eu sei que pessoas interessam-se por pessoas.

2. eu sei que é possível uma pessoa só achar piada a olhos escuros e, às tantas, dar por si completamente rendida a um par de olhos azuis e achá-los implacavelmente desarmantes. (eu sei que é mesmo assim, porque aconteceu tal e qual… a uma amiga minha.)

3. eu sei que, se, um dia destes, eu achar piada a uns olhos que calhem de pertencer a um kit com cromossomas XX, vou continuar a gostar de chocolate, de música aos berros, de conversas parvas, de Saramago, de matrecos e de gente que me desconstrói. (não, de ti não; tu irritas-me. de ti sim, sempre.)

4. eu sei que, se alguém tratar a minha cria como cidadão de segunda porque ele é pitosga, porque gosta de se rir como se fosse um vilão de desenhos animados, porque é exagerada ou desconfortavelmente magnífico ou por qualquer outra qualidade que lhe seja igualmente intrínseca, vai haver crânios partidos (e dor assinalável na região sacrococcígea).

5. eu sei que é mais fácil achar desconfortável usar tacões do que usar sabrinas. (sei que é assim, mas rai’s me partam se percebo porquê!)

5 coisas que não consigo perceber

1. eu não consigo perceber porque é que ficas tão incomodado porque pessoas que não te interessam se interessam por outras pessoas que também não te interessam. (está confuso? eu depois faço um macaco. no word.)

2. eu não consigo perceber porque é que me dizes que, se eu usar tacões e maquilhagem, estou a contribuir para a objetificação de… mmm… (de quem era mesmo? minha, tua ou de quem nos apanhar?)

3. eu não consigo perceber porque é que, se eu defender que o dia 17 de março devia celebrar todo e qualquer ser humano, vais achar que estou a deixar ficar mal as sufragistas.

4. eu não consigo perceber porque é que para perceberes quem tu és tens que decidir, primeiro, quem é que eu não posso ser.

5. eu não consigo perceber como é que não te sentes claustrofóbico a viver num mundo binário, em que as pessoas têm forçosamente que entrar na caixa a ou na caixa b, em que só há azul e cor de rosa, em que tudo é nós-versus-os-outros.

5′. eu não consigo perceber como é que uma camisa de forças pode ser mais confortável do que os pés descalços.

de modos que é assim…

– o que me vale é que tenho facilidade em ver padrões.

– não, o que tu fazes não é ver padrões. isso fazem os maluquinhos. tu vês sistemas. para onde quer quer olhes, tu vês sistemas.

mais uma vez, meti aquela ao bolso para mastigar mais tarde. não foi muito mais tarde, porque não é preciso muito tempo para ver que, no nosso sistema, é ele que sistematicamente vê coisas destas.

dizem que somos a média das 5 pessoas com quem passamos mais tempo…

diz o povo (a.k.a., a internet) que foi o xor Jim Rohn que se lembrou disto. “ai e tal, se nos rodearmos de gente fantástica, podemos ser réplicas da sua fantasticice”. (bem, talvez não tenha usado estas palavras, mas a coisa não anda longe disto.)

é uma ideia interessante, sim, senhor, e foi até pregada aos quatro ventos pelos Tim Ferris e os Tony Robbins desta vida. “ai e tal, se nos livrarmos dos amigos fatelas e ficarmos só com os fantásticos, podemos ser cada vez menos fatelas e cada vez mais fantásticos”. (neste caso, as palavras não terão sido assim muito diferentes destas.)

o pessoal da psicologia não acha piada nenhuma à ideia: é fria e calculista, e o ser humano precisa de pessoas fofinhas e de… bege. “ai e tal, se convivermos só com pessoas que são mais fantásticas que nós, acabamos por ser nós os fatelas e arriscamo-nos a que sejam os fantásticos a livrarem-se de nós.” (isto em palavreado tipo-assim-a-dar-para-o-técnico-mas-não-demasiado-se-não-ninguém-partilha-isto-no-facebook.)

não sei como é com os outros — e gostos não se discutem — mas eu cá gosto de gente que me puxa para cima. gosto de gente que acha que posso ser, querer e fazer sempre mais. gente que não tem pruridos e me chateia para eu não ser chata.

pode parecer fatela, mas gosto de gente que me é útil.
pode parecer pouco fantástico, mas gosto de quem investe em mim.

gosto de ter por perto gente que cobra os meus bluffs e me força a reconhecer quando não sigo os conselhos de autopreservação que dou aos outros.

gosto de me rodear de gente que me ameaça atirar-me com a minha própria bigorna quando estou a ser um calhau.

gosto de ter por perto gente que é capaz de, numa discussão em que concorda comigo, defender o contrário só para me levar a pensar e repensar os meus argumentos.

gosto de ter à mão quem me diz “gosto muito da tua ideia para a história para miúdos mas quando a escreveres não te percas e não te deixes esquecer que o teu modelo de miúdo não é um miúdo comum”.

gosto de investir o meu tempo em gente que investe em mim, que me diz “não existo para te facilitar a vida”, que me lembra “se o que queres é uma palmada nas costas, não venhas ter comigo porque eu não sirvo para isso”.

eu cá gosto de gente que me puxa para cima. de gente que se dá ao trabalho de me puxar para cima. que nem considera outra hipótese se não puxar-me para cima.

mas, como dizia o meu professor de psicologia, “cada um é como cada qual e ninguém é como evidentemente”. e gostos não se discutem.

afinal que raio é uma família…?

mas que raio é uma família se não um conjunto de gente que, vista de fora, é esquisita?

mas de que raio é feita uma família se não de garra(s) e de sangue?

mas que raio mais pode ser uma família se não uma mochila recheada de adn e braços que esquecem as suas dores para carregar quem precisa de descansar?

e o que é que se chama ao que nos leva a olhar para eles e pensar “tu és como eu mas tens que ser mais do que eu. eu preciso que sejas mais do que eu”?

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that’s real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything
(…)
I wear this crown of thorns
Upon my liar’s chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

não tenho palavras para ti, mãe de ninjas

não tenho palavras.
pelos visto, era suposto ter palavras. para ti. para te aquecer.
palavras para te abraçar. para te dizer que estou aqui, que sou tua fã, que acho que o universo passou das marcas.
para te dizer que nada disto faz sentido porque nada disto é para fazer sentido. que é despropositado, atroz e incomensuravelmente cruel.

não tenho (e, como deves imaginar, não quero ter) forma de te dizer que compreendo como te sentes, o que se passa dentro de ti, o que deves ver no horizonte.

as palavras que tenho são egoístas.
podem falar da vontade que tenho de ir a correr ter contigo e abraçar-te, mas não podem fazer-te sentir abraçada. podem dizer-te que podes contar comigo, mas não podem fazer nada por ti.
as minhas palavras egoístas só podem, confusa e atabalhoadamente, falar por mim, de mim. e eu estou cá fora. e tu estás no meio de… tanto…



entretanto, querida mãe de ninjas, deixo a chave debaixo do tapete da entrada. a casa é tua. quando quiseres, terei chá e uma manta quentinha. e serei silêncio ou conversa.
conforme preferires.

Nós, os Dragões

Nós, os dragões, somos como as pessoas: não há dois dragões iguais. Há dragões grandes e dragões pequenos. Uns têm belas plumas coloridas, outros têm o corpo coberto por escamas baças e cinzentas.

Tal como as pessoas são importantes para as pessoas, os dragões são importantes para as pessoas. Um pouco por todo o lado, há histórias sobre dragões, mitos, lendas ou contos infantis.
Para umas pessoas, somos forças destruidoras; para outras, existimos para explicar o princípio do mundo, o princípio de tudo. Para uns, os dragões queimam casas e matam tudo o que se atravessa no seu caminho; para outros, os dragões ajudam a manter a lareira acesa e a casa quentinha.

Acreditem: nós, os dragões, somos como as pessoas.
Se alguém pensar que conhecendo um dragão conhece todos os dragões, está enganado.
Tal como as pessoas, podemos ser maus mas também podemos ser amigos. Tal como as pessoas, há dragões que cospem fogo e dragões que cospem bolas de gelo.
Sim, há dragões de fogo e dragões de gelo. E há dragões que abrem as asas e provocam tsunamis e outros que fazem surgir montanhas debaixo dos nossos pés. No entanto, também há dragões que fazem chover em dias de sol só para que surja um arco-íris e há dragões que fazem crescer relva verde e dentes-de-leão voadores.

Pois, nós, os dragões, somos como as pessoas: temos naturezas diferentes mas são as nossas atitudes e as nossas intenções que fazem com que sejamos bons ou maus.
E, tal como acontece com algumas pessoas, às vezes, temos saudades de outros dragões.

Dragão


Nós, os dragões, somos como as pessoas: não há dois dragões iguais. Há dragões grandes e dragões pequenos. Uns têm belas plumas coloridas, outros têm o corpo coberto por escamas baças e cinzentas.

Tal como as pessoas são importantes para as pessoas, os dragões são importantes para as pessoas. Um pouco por todo o lado, há histórias sobre dragões, mitos, lendas ou contos infantis.
Para umas pessoas, somos forças destruidoras; para outras, existimos para explicar o princípio do mundo, o princípio de tudo. Para uns, os dragões queimam casas e matam tudo o que se atravessa no seu caminho; para outros, os dragões ajudam a manter a lareira acesa e a casa quentinha.

Acreditem: nós, os dragões, somos como as pessoas.
Se alguém pensar que conhecendo um dragão conhece todos os dragões, está enganado.
Tal como as pessoas, podemos ser maus mas também podemos ser amigos. Tal como as pessoas, há dragões que cospem fogo e dragões que cospem bolas de gelo.
Sim, há dragões de fogo e dragões de gelo. E há dragões que abrem as asas e provocam tsunamis e outros que fazem surgir montanhas debaixo dos nossos pés. No entanto, também há dragões que fazem chover em dias de sol só para que surja um arco-íris e há dragões que fazem crescer relva verde e dentes-de-leão voadores.

Pois, nós, os dragões, somos como as pessoas: temos naturezas diferentes mas são as nossas atitudes e as nossas intenções que fazem com que sejamos bons ou maus.
E, tal como acontece com algumas pessoas, às vezes, temos saudades de outros dragões.

“ainda escreves? pensei que te tinhas deixado disso…”

não, não me deixei disso. não tenho razão para me deixar disso. acho até que não me posso dar ao luxo de me deixar disso. com blog, sem blog (com capota, sem capota), escrever é coisa antiga, talvez anterior à adolescência. para organizar ideias. porque é uma forma de me forçar a ter um diálogo com princípio, meio e fim comigo própria. porque passar as ideias, as nuvens de pensamento, o fluxo de consciência para palavras é essencial para desatar nós. pode é dar-se o caso de parte dessas palavras não servirem, não requererem ou não admitirem ser partilhadas. e há que respeitar a vontade das palavras. principalmente daquelas que generosamente ajudaram a desatar nós.

detesto que me digam o que (não) devo vestir

detesto que me digam o que não devo vestir, seja o paternal “vais sair assim? onde está o resto da saia?” ou o venenoso “ela não usa saias, usa cintos” (ambos omnipresentes nos anos da faculdade).

detesto o que está por detrás de um “aqui toda a gente se veste como funcionários públicos e depois… depois apareces tu” (pela voz de alguém que também passara a fazer parte da família institucional mas que me conhecia de antes).

detesto o sentencioso “não sei como é que consegues andar com esses tacões todos os dias”. detesto ainda mais ter que reprimir o automatismo da réplica sarcástica “porque me fazem sofrer e eu nasci para sofrer” e substituí-la pelo sorriso politicamente correto a enquadrar “porque me dá prazer”.

detesto quando me exigem que tenha uma conversa séria com uma colega (“porque és superior hierárquica dela”) sobre a forma como se veste porque “não é suficientemente feminina”. detesto que, presa na cúmulo-nimbo de adversativas que se formou na minha cabeça, eu tenha pactuado.

detesto que me digam o que devo ou não devo vestir. ou calçar.
detesto que me digam qual é a cor de batom mais adequada para o meu tom de pele.
detesto que me digam o que devo pensar. ou não pensar.
detesto que me digam como devo rir. ou deixar que me faça sorrir.

detesto que me digam que música tenho que ouvir.
ou que música é um desperdício de tempo. do meu tempo.
detesto que me digam o que devo partilhar. e como devo partilhar.
detesto que me digam como devo sonhar.
com o que devo sonhar.
que sonhos são mais adequados para o meu tom de pele.
ou para alguém que usa tacões.

detesto que me digam quem devo ser.
ou quem devo parecer ser.
ou querer ser.

e, mesmo profundamente agnóstica, dou por mim acidentalmente cristã não querendo para os outros aquilo que não quero para mim (por muito que… ver alguém a usar sabrinas todos os dias me provoque dores de costas… by proxy)

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e eu nas nuvens…

na segunda de manhã, deixei-te na escola.
como se tornou hábito, despedes-te de mim junto ao carro e de costas para a escola (para não haver “público”) com o mesmo beijo nos lábios que me dás desde que aprendeste a dar beijos (na altura só davas beijos nos lábios, mas, agora que já aprendeste a lidar com o desconforto de quem não sabe o que fazer com os teus beijos mais puros, só eu é que ainda tenho direito a eles).

na segunda de manhã, deixei-te na escola.
“tem um bom dia!”, “diverte-te!”, “não dês cabo da cabeça à professora!”, “come o lanche antes de ires a correr para o recreio!”, “adoro-te, totó ranhoso!”

na quarta à noite, voltas.
as novidades sobre os discos voadores dos angry birds são mais urgentes do que o beijo e o xi. entras a debitar as novidades e passas por mim para pousar a mochila e ver se há algo se interessante na sala e na cozinha. voltas à porta para o triunvirato beijo + xi + “adoro-te”. e vais para o teu quarto buscar a bola para treinares os triplos usando o espaço entre a porta da sala e a parede como cesto.

na quarta à noite, voltas.
abro a porta e os teus caracóis estão mais perto dos meus olhos. no meu cérebro, a palavra “altura” funde-se com “altitude”. não sei como é que cresces tanto em três dias. só sei que é um facto: cresces muito em três dias. cresces muito em três dias sem nos vermos.

na segunda de manhã, deixei-te na escola.
na quarta à noite, voltas.
em três dias, os teus caracóis ficam mais próximos dos meus, os teus olhos mais próximos dos meus. ainda te esticas para me dar um beijo nos lábios, mas isso é só porque eu estou nas nuvens.