Tarântula Gigante, estrela de cinema

Eu sei que as tarântulas não estão na moda. Os filmes de terror estão sempre na moda, mas, agora, só querem ver zombies, vampiros e outros mortos-vivos. Mas eu já fui uma grande estrela de cinema, aliás uma estrela de cinema gigante.
Os filmes ainda eram a preto e branco e não havia efeitos especiais criados por computadores. Era tudo a sério. E eu, com o meu pelo negro e brilhante, era especialista em entradas dramáticas: umas vezes, aparecia lentamente, ao longe, no cimo de um monte, outras vezes, saltava para cima de um arranha-céus.
Nas salas de cinema, o público saltava nas cadeiras e, no final do filme, não havia ninguém com os pés no chão, pois a minha representação era tão intensa e realista que ficavam com a sensação de que, a qualquer momento, uma tarântula lhes ia subir pelas pernas acima.
Eu sempre fiz questão de ter uma atitude profissional e os críticos de cinema adoravam-me e respeitavam o meu trabalho – ao contrário do que acontecia com aquele macaco ridículo que subia edifícios de cartão e lutava contra avionetas miniatura.
Outros tempos… Agora, só me chamam para pequenos papeis em filmes de ficção científica e telefilmes de má qualidade. Parece que as pessoas deixaram de acreditar nas tarântulas gigantes.
No entanto, eu recuso-me a desistir do meu sonho de representar e contar histórias e estou a pensar aplicar a minha experiência a um novo projeto: vou criar uma escola para jovens animais gigantescos que queiram iniciar uma carreira no cinema ou na televisão.

Abominável Homem das Neves

O meu nome é Abominável Homem das Neves, também conhecido por Yeti, e vivo nos Himalaias, nas belas neves eternas dos Himalaias.
Pertenço a uma grande família de criaturas assustadoras. Provavelmente, conhecem o meu irmão: chama-se Pé-Grande (os amigos tratam-no por Sasquatch) e vive na América. Também tenho um primo brasileiro, o Mapinguari, e outro africano, o Quibungo. Tenho familiares espalhados por todo o mundo e temos muitas características em comum. Acho que é por isso que nos confundem com frequência. Por vezes, até nos confundem com animais pré-históricos como o gigantopithecus! (Não percebo como; só se for por causa do cheiro…)
Eu sei que “abominável” significa “assustador, medonho, horrível”, mas eu não me considero um monstro. É certo que tenho a força bruta de um elefante, o faro apurado de um cão, a visão noturna de uma coruja e sou rápido e ágil como uma gazela – no entanto, isso não faz de mim um monstro.
Sou uma criatura com uma vida normalíssima, com mulher e filhos e, claro, um emprego que me permite pagar a renda de casa e a escola dos miúdos.

Um Vampiro no centro de saúde

Boa tarde. Acho que chamaram o B-314, e é a minha senha. Eu vinha levantar uma receita. O meu nome é Vladimir dos Cárpatos e sou reformado (há uns bons 750 anos!). A minha médica é a Doutora Ludmila e foi ela que me telefonou a avisar que podia vir buscar a receita.

É que, com a idade, tornei-me intolerante a sangue humano. É terrível, fico com a pele rosada e com um ar saudável muito estranho. E fico tão bem disposto que nem sequer me atrevo a sair à rua. Já experimentei de tudo. Cheguei a fazer um tratamento que estava a ter excelentes resultados com vários tipos de mortos-vivos; era com injeções de sangue O negativo, sangue de doador universal. Consultei vários especialistas e todos me diziam que era adequado para mim. Mas, não sei porquê, não resultou, pois eu acordava cheio de energia e com vontade de apanhar sol. Nem me quero lembrar, foram tempos difíceis.

Entretanto, a minha vizinha do 3.º esquerdo sugeriu-me uma consulta de medicina alternativa. Eu estava tão desesperado que fui. Foi uma desgraça, espetaram-me uma série de agulhas e, como estou morto, a minha pele não cicatriza e fiquei todo picotado.

Mas, pronto, agora ando a tomar estas ampolas de sangue artificial. É prático porque tomo só uma por dia dissolvida em água. Incomoda-me o agradável sabor a morango, contudo não me posso queixar, porque voltei ao normal. Agora acordo sempre muito pálido e ando o dia todo a arrastar-me por lugares sombrios. Só espero que não tenha efeitos secundários: não me dava jeito nenhum que o sangue artificial me curasse a úlcera.

Xenomorfo impaciente

Já atravessei o universo, conheço centenas de galáxias e milhares de planetas. Cruzei-me com as criaturas mais diversas, encontrei as formas de vida mais estranhas e deparei-me com os sistemas mais improváveis. Observei o nascimento de novas sociedades, assisti à evolução de grandes populações e analisei a ruína de imensas civilizações.

Já participei em inúmeras expedições para fundar novas colónias, ocupar novos mundos e conquistar novos territórios. Tenho ordens para cumprir e obedeço à nossa magnífica e inteligentíssima rainha, mas tenho um espírito curioso. Por isso, sempre tentei perceber a vida, a organização e até os sonhos dos seres que se tornariam então nossos escravos (por muito inferiores que sejam).

Nunca conheci nada que se comparasse com os seres humanos, o homo sapiens sapiens. Que criaturas estranhas, irritantes e tão pouco inteligentes!

Assim que nos veem, gritam de susto e de terror e correm de um lado para o outro, o que é uma reacção normal, pois somos, de facto, assustadores e terríficos. No entanto, logo a seguir, têm a insolência de pegar nos seus telemóveis para nos tirarem fotografias – dizem que é para para mostrar aos amigos e colocar nas suas páginas da internet. Mal eles sabem o que os espera… Humanos ridículos!

A mãe pássaro Roca

Parecia que ia ser um dia normal. Estava sol e quase não havia vento. Era verão mas não estava demasiado quente.

Eu já tinha dado o pequeno-almoço aos meus filhotes. Ainda passavam a maior parte do tempo no ninho mas já começavam a tentar voar. Eu, emocionada, observava-os enquanto brincavam com dois ou três arbustos que tinham arrancado (tinham nascido apenas há uns dias e já eram do tamanho de vacas; os miúdos agora crescem tão depressa…).

A certa altura, ouvi o som de um motor. Era um barco – minúsculo – que se aproximava da praia. Dele saíram dois humanos – ainda mais minúsculos – e começaram a caminhar na minha direção. Eu não estava com paciência para aturar desconhecidos e, para além disso, estava entretidíssima com as minhas crianças (tão fofas!).

– Desculpe. Nós estamos à procura de um pássaro Roca. Sabe dizer-nos onde podemos encontrar um pássaro Roca? – disse uma voz fraquinha e aguda. Apeteceu-me fazer de conta que não tinha ouvido, mas os meus filhos estavam a ver e não era esse o exemplo que lhes queria dar. Por outro lado, apetecia-me brincar com a situação: até o meu mais novo olhou para mim com ar de “Mas nós somos pássaros Roca…”.

– Bom dia. Estão à procura de um pássaro quê?

– De um pássaro Roca. É uma criatura fantástica, segundo dizem. É tão grande que até consegue transportar vacas com as suas garras.

Os meus filhos riram-se e aproximaram-se daqueles seres pequeninos. Os seres pequeninos assustaram-se, pois os meus filhotes eram maiores do que eles. Pensei “Sim, são grandes, grandes como filhotes de pássaro Roca.”.

– Já ouvi falar desses pássaros. De facto, dizem que são magníficos. E inteligentes. Mais inteligentes do que os seres humanos.

– Ai sim? Sabe onde podemos encontrá-los?

– Não, não faço a mínima ideia.

Estava sol e parecia que ia ser um dia normal.

Um Ogre é um ogre

Um ogre não é um gigante, um ogre não é um ciclope.
Um ogre é grande mas não é do tamanho de uma casa e tem dois olhos.

Um ogre não é um orc. Um ogre não foge de ninguém mas não gosta de guerras e batalhas.
Um ogre não é um morto-vivo, muito menos um fantasma. Um ogre tem sangue nas veias (é verde, mas não deixa de ser sangue) e não consegue atravessar paredes (a não ser que as destrua primeiro).
Um ogre tem pele verde ou amarelada, mas não tem escamas nem o corpo coberto de pelos.
Um ogre pode não ser a criatura mais inteligente do mundo mas não é estúpido. Eu não sou estúpido.

Um ogre é um ogre e só quer que o deixem em paz. Eu só quero que me deixem em paz. Quero ver televisão o dia todo, comer e jogar videojogos.
Um ogre é preguiçoso e desmazelado. Eu sou um ogre e não quero me digam para arrumar o quarto nem que me perguntem se tomei banho.
É por isso que vou fugir de casa. Mas, por favor, não digam à minha mãe.

A Nessie, de Loch Ness

Querido diário:

Voltou a acontecer. E estou triste. Foi no final da manhã. O sol brilhava e estava um dia muito bonito. Eu decidi ir fazer algum exercício e respirar ar fresco.

Num momento em que passava mais perto da margem, junto àquela clareira tão bonita (ai, e tão romântica!) lá na margem sul do lago, vi-os. Eram quatro e acho que se preparavam para fazer um piquenique. Fiquei logo com o coração a bater mais depressa. “Será que é desta vez que vou fazer amigos?”, pensei. “Estes não parecem ser medrosos nem assustadiços…” E, feliz, nadei na direção deles.

À medida que me aproximava, comecei a ouvir as suas vozes e as suas gargalhadas. “Vai correr bem, Nessie, vais ver que, desta vez, vai correr bem.”, tentei convencer-me. No entanto, assim que me viram, as gargalhadas transformaram-se em gritos e desataram a correr. Um deles ainda ficou parado a olhar para mim durante uns segundos e pegou na máquina fotográfica. Eu fiquei contente e, querendo ser simpática, fiz pose e sorri para a câmara. Acho que ficou ainda mais assustado, quase deixou cair a máquina fotográfica e fugiu.

E eu fiquei novamente sozinha. Não sei o que faço de errado. Só queria dizer-lhes olá e que fico muito contente por virem visitar a minha casa, mas o resultado é sempre o mesmo: fogem. Gritam e fogem.

Aposto que amanhã a internet vai estar inundada de fotografias desfocadas e relatos de mais um grupo de pessoas que viram o “monstro” de Loch Ness. Monstro, eu? Eu não sou um monstro, eu sou a Nessie, e até sorri para a fotografia… Os humanos são muito estranhos.

Kraken e os seus tentáculos musicais

Está tudo calmo e a água começa a borbulhar.

“O que é aquilo?” perguntam.
Pequenas ondas nascem num remoinho e transformam-se em grandes ondas.
“Será que é…?”
E eu levanto um tentáculo. Dois tentáculos.
Três, cinco, dez tentáculos. Vinte tentáculos.
E começam a entoar “Kra-ken! Kra-ken! Kra-ken!”

Faço uma pausa dramática e volto a mergulhar.
E, aí, ecoa um “ooooh” desapontado.
A minha cabeça começa a ficar à tona e mantenho-me a boiar assim durante um ou dois minutos, só para dar tempo para aumentar o burburinho.
A emoção e o entusiasmo continuam a crescer e eles voltam a entoar “Kra-ken! Kra-ken! Kra-ken!”

De uma só vez, ergo vinte tentáculos e inicio uma coreografia ao ritmo do coro de vozes. Num movimento teatral e quase excessivo, exibo os meus cem tentáculos.
“Kra-ken! Kra-ken! Kra-ken!”
Mergulho de repente e volto à superfície num salto digno de um golfinho.
Começa a bateria, a seguir o baixo e, depois, a guitarra.
“KRA-KEN! KRA-KEN! KRA-KEN!”

A baía é enorme, mas sentimo-nos tão próximos como se estivéssemos numa pequena sala para concertos intimistas.
Cumprimento-os: “Boa noiteeeeeee! Quero ouvir-vooooos!”
Batem palmas, gritam e uivam. Acho que até há alguns desmaios.
“Estão preparadoooooos? Não estou a ouvir! Estão preparadoooos? Então, vamos lá. Um, dois. Um, dois, três, quatro!”

A magia do Unicórnio

“Vem comigo!”, dizem-me com ternura.
Estendem-me os braços, acariciam-me a crina e dizem-me “Vem comigo!”
Eu olho-os, olhos nos olhos: os meus, vermelhos; os deles, humanos.

Não quero ir. Elogiam o meu pelo preto e brilhante. Dizem que sou mágico e que o meu chifre traz sorte e felicidade.
Dizem-me “Vem comigo!” com doçura, aproximam-se e tentam controlar-me com rédeas e freio.

Não quero ir. Se vim ao mundo, foi para ser livre, para galopar pelos campos, para correr e respirar bem fundo.
Não quero ir. Não quero afetos falsos e ocos. Se acreditam que sou mágico, se acreditam que a espiral do meu chifre traz sorrisos, não me digam “Vem comigo”. Não há magia com rédeas, não há magia quando somos prisioneiros.

Não quero ir. Quero ser livre, quero correr e respirar.
Se é magia que procuram, então, sou eu que vos digo “Pousem o freio, larguem as rédeas e venham comigo!”.