o meu coração não é azul bebé

é um facto: dá-me algum gozo passar por expressões de emoção e clarividência do tipo “o meu coração é azul bebé” ou “a minha princesa não só é cor-de-rosa como também é linda”.
(também acho piada aos “um mais um é igual a um elevado à potência da felicidade suprema”, mas esses ficam para… um dia… quando eu for crescida. talvez.)

não é coisa em que invista muito tempo (nem pouco, na verdade), volta e meia tropeço neles e… pronto… quer seja no aconchego do meu nexus ou numa mesa de café com companhia adequada, o meu alter ego viperino faz uma rave e o gene do sarcasmo põe uma bandolete com luzinhas e vai dançar para cima das colunas. (sim, dançar em cima das colunas é coisa dos 90s, mas eu já sou um bocado antiga.)

hoje, o meu fofinho fez 1 mês. acordou e sorriu como só sorri para mim, como se me quisesse dizer “és melhor mãe do mundo”. o meu coração transborda de felicidade.

hoje, é um dia especial. o meu fofinho faz 3 meses e 9 dias. acordou e sorriu como só sorri para mim, como se me quisesse dizer “és a melhor mãe do mundo”. o meu coração transborda de alegria… e de felicidade.

nem consigo descrever a alegria, a felicidade e o orgulho que inundam o meu coração. o meu fofinho lindo faz 1 ano. é uma criança tão especial… só 1 aninho e já quase que fala, quase que anda (às vezes até me parece que quase que corre) e quase que come sozinho. e sorri para mim como se quisesse dizer “és a melhor mãe do mundo”. nunca vi uma criança assim.

dias como hoje nunca esquecemos. o meu fofinho fez 16 anos. é uma criança tão especial… só é pena ter aquela galdéria dos tops curtos sempre atrás dele e a obrigá-lo a gastar a mesada em menos de uma semana. mas continua o mesmo: ainda na semana passada, quando enfiou o meu carro contra a porta da garagem, voltou a olhar para mim com aquele sorriso que diz “és a melhor mãe do mundo”.

tão viperina!

texto que parece ser sobre o meu filho mas, na verdade, é sobre mim

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

esta semana a minha criança apanhou porque foi ter com crianças mais velhas e disse-lhes que queria jogar futebol. na escola há uma regra: cada ano tem um dia da semana em que pode jogar futebol. e a minha criança foi dizer às outras crianças que queria jogar futebol porque era a vez dele (desde o início do ano ainda não tinha conseguido que lhe deixassem “exercer” o direito de jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele tinha o direito de usufruir do campo de futebol do recreio). resultado: apanhou. a criança corre que se farta, mas nem os ideais de justiça (nitidamente ambiciosos) nem o facto de ser “a pessoa mais veloz do mundo” o livraram de ser apanhado por três crianças. e utilizando a palavra “apanhado” estou a tentar afastar da minha cabeça a imagem do príncipe do caos de 6 anos (que nada tem de frágil) a ser segurado por dois miúdos e a levar um pontapé na barriga de um terceiro (ou uma, talvez).

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira. pelo menos, fisicamente. também não fez grande alarido em relação ao assunto e responde às nossas perguntas num tom que facilmente encaixaria na categoria de “normal”.
mas não faço ideia do que irá fazer ou, melhor, ter coragem de fazer quando voltar a ser segunda feira e ele voltar a querer jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele pode jogar futebol.
não faço ideia se a minha criança vai continuar a achar que faz sentido lutar por aquilo a que tem direito.
não faço ideia se a minha criança vai manter o seu sentido de justiça.

mais: não faço ideia se, mantendo o seu sentido de justiça e coragem para lutar por aquilo a que tem direito, vai chegar ao final do dia fisicamente incólume.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

voltei a dizer-lhe que não deve bater a ninguém e que, se assistir a alguma injustiça, deve pedir a intervenção de adultos.
perguntei-lhe se também bateu aos outros meninos. disse que tentou correr muito mas quando o apanharam tentou lutar.
pela primeira vez em seis anos e meio, engoli em seco e as palavras “se te baterem, bate também” saíram-me e em tom imperativo. “defende-te” era muito pouco.

falei-lhe novamente dos bullies. disse-lhe que há bullies de todas as idades. disse-lhe que também tenho bullies na minha vida. disse-lhe que os bullies, independentemente da idade, são pessoas que não sabem lidar com as suas próprias emoções, são pessoas tristes e infelizes. disse-lhe que, quando já são crescidos, os bullies até fazem coisas que doem mais do que bater. disse-lhe que não devemos sentir ódio nem raiva pelos bullies. só pena. são tristes, sozinhos, infelizes.
e disse-lhe que vai encontrar bullies pela vida fora. tal como eu.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.
a vontade de esmagar crânios contra paredes já passou.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo que o meu filho seja vencido pelo cansaço. ou pela porrada.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo de não ser capaz de ajudar o meu filho a crescer sem deixar que os bullies lhe destruam o espírito.

a vontade de chorar ainda não passou porque a frase “o meu filho não tem culpa de ter a mãe que tem” está a dar luta e recusa-se a sair da minha cabeça.

o manifesto é a forma mais sincera de elogio

eu quero um farol na praia
onde eu possa ouvir-me pensar
e tenha somente a certeza
das ondas, o rugir e o embalar

eu quero um farol na praia
onde eu possa aninhar-me com os intemporais
e tenha somente a certeza
dos xis verdadeiros e nada mais

eu quero música e livros
risos, histórias velhas e novas
eu quero desenhos na areia moldável
“eu quero a esperança de óculos
o meu filho de cuca legal”
eu quero ensinar e aprender
que o mundo não é feito
apenas de bem e de mal

eu quero um farol na praia
colorido, inteiro, altivo, singular
onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

……………….
porque as rainhas me inspiram (a elis é apenas uma delas)
porque respirar é, cada vez mais, um luxo
porque lata é coisa que não me falta
porque sim – a melhor razão de todas

“e continua a escrever!”

está complicado.
normalmente, escrever ajuda-me a organizar as ideias, a defini-las.
normalmente, escrever permite-me pegar em ideias soltas (ou em pseudo-ideias) e obrigá-las a passar pelo crivo subjetivo da relevância.
está complicado.

está complicado pegar no emaranhado de fios e começar a construir alguma coisa. preciso de rendas-de-bilros. e nem uma mísera pega de cozinha no mais básico ponto de croché…

pode ser que escrever sobre não conseguir escrever permita encontrar um fiozinho que seja…
pode ser que faça estalar qualquer coisa e provoque as frinchas que, segundo o xor cohen, são necessárias para passar a luz.

e eu com tanto para não fazer…

irrita-me ter que ocupar o tempo com coisas que não têm propósito.
irrita-me.
mexe-me com os nervos.

irrita-me ainda mais ocupar o tempo com coisas com pseudo-propósito, catalogadas como “assim a dar para o incontornável”, com carimbo “tipo relevante”, publicitadas como “finalmente, aquilo por que tanto esperava mas que não tem qualquer tipo de utilidade”.
irrita-me.
mexe-me com o estômago.

e o despropósito instala-se, aconchega-se, trata de se colocar despropositada porém apropriadamente confortável.
e o despropósito instala-se, desaloja propósitos, intenções, objetivos e, claro, sonhos.

já construí castelos destinados a serem destruídos.
já investi em apelos a olhos que se recusam a ver-ver com medo de ter de ver-sentir e, consequentemente, sentir-sentir.
já acreditei que valia a pena ter fé.
já me queixei do lodo e atirei-me de braços abertos para o que me assusta.

mas a ausência de propósito, a ausência de intenção, o vazio de… de tudo o que conta…
mexe-me com os nervos.
mexe-me com o estômago.
e é um punhal no coração.

e eu com tanto para não fazer…
e eu com tanto para fazer…

já não se trata de virar costas.
é tempo de desistir.

Don’t spend time beating on a wall, hoping to transform it into a door.
(Coco Chanel)

oh captain, my captain!

o dia acordou cinzento, a teimar na possibilidade de chuva. eu acordei com sol no coração, mas logo absorvi nuvens mais escuras e densas que as do céu.
e chovi. e chovi. e voltei a chover.
reação aquosa imprevista mas não imprevisível. incontornável perante nuvens carregadas de um coração triste e também ele carregado.

hoje perdi (sim, primeira pessoal do singular. estou a falar de mim) uma das pessoas mais inspiradoras que me é possível conceber. as gargalhadas, claro. mas mais do que isso. muito mais do que isso. o espírito livre, indomável e sedento de verdade inconveniente. o gozo de ter o poder chocar apenas com a arrogância da transparência do discurso, das intenções.

e perdi-o de uma forma que não tem como cicatrizar. perdi alguém que era combustível para a minha nave espacial. alguém que, mesmo sem partilhar o meu espaço, me fez sentir abraçada e “normal” tantas e tantas vezes.

e perdi-o porque, de certo modo, ele estava perdido de si próprio, da sua grandiosidade e até da sua humanidade. perdi-o porque estava mergulhado numa tristeza que não tenho a presunção de achar que consigo compreender.

e não tem retorno. e volto a chover. e só consigo pensar nos xis que teria para lhe dar. e chovo.
resta-me partilhá-lo com o príncipe do caos. e chover. pelo que consigo colocar em palavras. e chover. pelo que apenas tem forma de nuvem negra dentro de mim.

obrigada.

gosto de coisas fáceis

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gosto do calor do sol na minha pele
gosto da areia debaixo da toalha a moldar-se aos meus movimentos
de protetor solar com brilho e dos óculos de sol cor de rosa
da playlist ‘sun of a beach’

gosto de parcerias sem hora marcada e que se alimentam de cumplicidade
de espaços onde não é permitida a conversa de circunstância
do silêncio com capacidade de abraçar
gosto do silêncio que preenche os intervalos com gelado de chocolate e caramelo

gosto de conversas divergentes, de diálogos anarcas
de trocas de cromos sem filtros e nem protocolos
gosto de axiomas pessoais e intransmissíveis
e de movimentos de sobrancelhas que substituem palavras

gosto de dentes-de-leão efémeros e de nuvens impacientes
gosto da dose de realidade e história por detrás de uma tatuagem
gosto de quem gosta de beijos no cachaço
gosto de xis, de gargalhadas livres, de mau feitio militante

gosto de coisas fáceis e de gente sem tretas

renda de bilros e technicolor

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há pessoas que passam por nós, quase não param e logo seguem o seu caminho.
há pessoas que passam, seguem e, mais tarde ou mais cedo, regressam. podem voltar a passar de raspão, ficar embora temporariamente ou contribuir de alguma forma para o ninho.
há pessoas que chegam, dão duas de letra, mantêm alguma distância, entretêm-se com questões terceiras mas nunca mais querem partir.

há pessoas que, fruto das circunstâncias, acabam por fazer parte do nosso dia a dia, partilhar momentos doces e momentos agrestes e entrelaçar o seu caminho no nosso. dessas, umas continuam aparentemente por perto mas na realidade são estranhos, outras seguem por estradas paralelas mas abraçam-nos com carinho quando nos cruzamos nas pontes que ligam essas estradas. outras, ainda, ajudam-nos a manter o ninho construído com fibras elásticas e magicamente entrelaçadas.

ao longo do caminho, também aparecem pessoas que se perderam dos seus próprios caminhos. umas convencidas de que, consciente e voluntariamente, iniciaram um caminho alternativo, mais rico e mais promissor, embora estejam simplesmente perdidos. outras que reconhecem que estão perdidas mas decidem aproveitar o momento para conhecer novas paisagens. outras, ainda, que amuam e se sentam na beira da estrada a rogar pragas ao universo enquanto lhe exigem o envio de uma estrela-guia.
entre essas pessoas, as que calham de se cruzar no nosso caminho porque se perderam do seu, há espantalhos com coragem, homens de lata com cérebro e leões com coração.

há caminhos que se entrelaçam como as madeixas que desenham uma trança.
há caminhos que se cruzam obedecendo a uma coreografia como a das marcas deixadas pelas lâminas da patinagem no gelo.
há caminhos que se cruzam em emaranhados de algodão doce.
há caminhos que se cruzam de forma delicada e resistente e criam impressionantes rendas de bilros.

eu gosto de rendas de bilros.
os melhores ninhos são construídos com rendas de bilros.
as melhores rendas de bilros são as que nos mostram que a estrada pode ter muitas cores.
e os melhores ninhos são os que nos dão a segurança de não precisarmos da magia de terceiros, a consciência de que o segredo para voltar ao ninho está nos nossos próprios pés.

um punhal no coração e o superpoder dos xis

hoje senti um punhal a entrar-me pelo coração adentro. não foi nada de intencional. foi uma circunstância. foi um efeito secundário. foi uma circunstância da treta. foi um efeito secundário do lodo.
desabei. ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo.

hoje desabei porque senti parte de mim negada, rejeitada, violentamente obliterada. é provável que esse sentimento tenha resultado dos hematomas e das cicatrizes, vestígios históricos da constante batalha para evitar que o lodo entre na corrente sanguínea e para eliminar a treta das metáforas diárias. é bem provável.

mas também é certo que sou das que desabam quando os castelos são destruídos, quando sonhos que não sabia que existiam se evaporam, quando potenciais sorrisos se transformam em ficção.
hoje desabei porque, mais uma vez, senti a minha essência a ser rejeitada. apeteceu-me virar costas, fugir, desaparecer. ainda bem que não o fiz.

no entanto…
paradoxalmente…
paradoxalmente, hoje recebi xis que celebram os meus xis. hoje recebi xis que celebram quem eu sou. hoje recebi xis que me fizeram pensar “ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo”. hoje recebi xis que me fizeram sentir que seria uma cretina se virasse costas, se fugisse, se tentasse desaparecer.

hoje adorei receber xis dos que têm o superpoder de me lembrar porque é que sou das que desabam quando os castelos são destruídos, quando sonhos que não sabia que existiam se evaporam, quando potenciais sorrisos se transformam em ficção.

hoje o efeito boomerang dos xis ajudou-me a recordar que também sou das que não têm medo de partir unhas a carregar pedras para construir castelos, das que acreditam que o sonho comanda a vida, das que riem com gargalhadas sonoras e assertivas quando dão por si no meio de um sketch monty python.

hoje foi importante ser das que sabem porque é que não usar rímel nas pestanas de baixo é essencial.