algo(s) que não me sacode(m)

(antes de mais, adoro momentos de “gramática, mas tu mandas em quê?”. é que “eu formo os plurais que me apetecer formar e a menina mete-se na sua vidinha”.)

coisas que não me sacodem:
futebol.
vermelho e verde.
marmanjos de calções a jogarem à bola.
marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.
o meu feed do facebook carregadinho de odes aos marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.
a ideia de que o vermelho e o verde justificam os marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.

(sim, prefiro ter conversas com a gramática sobre os pontapés que decido aplicar à senhora.
será que, se me vestir de vermelho e verde – calções, claro – e argumentar que a gramática é redonda, consigo que alguém me pague balúrdios?)

um castelo

– constrói-me um castelo.
– sim.
– tem que ser sólido e resistente.
– sim. será sólido e resistente.
– e com muralhas altas e fortes que nos protejam em tempo de guerra.
– sim. ficaremos protegidos, será o nosso porto de abrigo.
– estou a contar contigo.
– eu sei.

… … …

– o que é isto?
– é o teu castelo.
– não, este não é o castelo que eu te mandei construir.
– não é sólido e resistente?
– é. mas eu perco-me nos corredores e tem muitas salas que eu não sei para que servem e outras que eu simplesmente desconheço.
– as muralhas não são suficientemente altas e fortes para nos protegerem?
– são. no entanto, as pessoas que cá vivem fazem-me vénias mas é para ti que sorriem. este castelo é teu, e não foi isso que eu te disse para fazeres. eu disse-te para construíres o meu castelo.

o castelo foi destruído.

– ainda tens as muralhas. são altas e fortes. e as pessoas que lá vivem podem ajudar-te a construir o castelo que tu queres.

as muralhas foram destruídas.

ficaram as árvores que tinham sido plantadas dentro das muralhas e a envolver o castelo. eram altas e fortes e protegiam os pássaros na guerra contra o vento frio do inverno.

se fosses capaz…

aproximas-te e vês melhor. contudo, só por 1 segundo. logo a seguir fica tudo desfocado. afinal, a proximidade não traz clareza. bem pelo contrário: à medida que te aproximas, crias sombra e, claro, vês pior.
a seguir, afastas-te. queres eliminar a sombra. não há nada a fazer. a sombra permanece. esperas mais um pouco. “pode ser que seja uma questão de habituação.” mas não. não há nada a fazer. desistes. “preciso de marcar oftalmologista.”
e, assim, arrumas o assunto. e, assim, colocas de parte a questão. e, assim, pões um carimbo no assunto, na questão, na tua incapacidade. essa incapacidade de ajustar a focagem ao que está à tua frente. a tua incapacidade de perceber que para ver é preciso ver-ver. mas já tens o carimbo, é oficial que não tens responsabilidade. e desistes.

se não desistisses,…
se fosses capaz de querer mais,…
se fosses capaz de assumir que és responsável por querer ver-ver,…
se não tivesses medo de ajustar a focagem,…
se não tivesses medo do que verias se efetivamente fosses capaz de ver-ver,…

… talvez (mas só talvez!) fosses capaz de ver a formiga a passar e perceber que também ela tem aonde ir.
… talvez fosses capaz de ver que o sol se reflete nas superfícies mais incríveis.
… talvez fosses capaz de ver a cor da brisa.
… talvez fosses capaz de ver o padrão de cumplicidade de quem se senta à volta da mesma mesa de café.
… talvez fosses capaz de ver que as meninas vestidas de cor de rosa ficam lindas com botas de biqueiras de aço.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 3 anos que vira costas enquanto outros ouvem uma história acha que os livros só são inteiros quando os temos nas mãos.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 5 anos dá a mão à mãe para a proteger e não para que ela o proteja.
… talvez fosses capaz de ver que as crianças que crescem a fazer muitas perguntas vão ser adultos e vão continuar a fazer muitas perguntas e, à medida que essas perguntas vão, cada vez mais, sendo dirigidas a si próprios, também vão, cada vez mais, obter mais respostas… das quais vão surgir novas perguntas. cada vez mais.
… talvez fosses capaz de ver que, por detrás de cada ponto de interrogação, há 3 pontos de exclamação de olhos arregalados e sorriso de esperança.
… talvez fosses capaz de ver que os sorrisos de esperança são como asas de inseto, finas e transparentes.
… talvez fosses capaz de ver que asas finas e transparentes são imensas e poderosas.
… talvez fosses capaz de ver a transparência das asas… e não ter medo da transparência de quem tem a capacidade de voar.
… talvez fosses capaz de ver que a transparência alarga horizontes e que horizontes amplos tornam o nosso mundo maior e o dia mais claro.
… talvez fosses capaz de ver as cores do infinito.
… talvez fosses capaz de ver-ver. simplesmente ver-ver.

se fosses capaz de ver-ver, talvez… não, “talvez” não: de certeza que ias ser capaz de sentir. o infinito, a transparência, a esperança que acompanha os sorrisos arregalados, o colorido da essência das crianças, o amarelo quente do sol.

sim, se fosses capaz de ver-ver, ias ser capaz de sentir-sentir.

se fosses capaz…

inquietude e a agitação de lugares inquietos

antes, havia sorrisos e vida naquele cantinho tranquilo que não era morada de ninguém.

todos tinham sido chamados para a guerra. e foram.

foram confiantes.

confiantes de que, à noite, do cimo das suas torres celestes, o olhar morno das estrelas cuidaria das flores, as tais flores entre as quais os sol abrasador se espraiava o dia todo.

agora, quem quer que por lá passe salienta a inquietude desse lugar melancólico.

já nada é tranquilo. exceto o ar. esse ar pesaroso que não se consegue esquecer da magia de um lugar remoto.

não, não é o vento que agita aquelas árvores que pulsam como águas geladas que cercam ilhas de nevoeiro.

não, não é o vento que empurra aquelas nuvens que, em reboliço, percorrem céus agitados. sem descanso. de manhã à noite.

sobrevoando as violetas e os seus tapetes de padrões incontáveis mas perfeitamente distintos.

sobrevoando os lírios que acenam e choram sobre campas anónimas.

acenam: da origem do seu perfume brotam gotas de orvalho eterno.

choram: do suporte da sua fragilidade deslizam lágrimas perenes.

* * * * *
resultado de um diálogo com o google sobre inquietude e posterior obsessão por “the valley of unrest” de edgar allan poe. resultado de inquietude. e também de inquietação. resultado de prosódia que fica em loop. resultado de um misto de coragem e inconsciência e de um “que se lixe!” quase pré-adolescente.
aqui, áudio. e o original nas notas.

four-letter word

luto.
ninguém decide fazer luto.
faz-se. e pronto.
consciente ou inconscientemente faz-se.
ninguém decide fazer luto, mas face a circunstâncias negras e se a coisa correr pelo melhor, um dia damos por nós a fazer luto.
se a coisa não correr pelo melhor (face à tal negritude)… sei lá… recusa-se o luto? foge-se do luto? rebatiza-se o luto com um eufemismo lírico qualquer?
se calhar, não há volta a dar e, quando há circunstâncias para luto, faz-se luto e pronto. faz-se.

a wikipedia diz que são 5 fases:

1. negação — consciente ou inconscientemente, entramos em modo de auto-defesa. nada nos afeta, nada nos toca. claro que não: estas coisas só acontecem aos outros. por isso, é simples: não se passa nada, está tudo impéc.

2. raiva — afinal está a acontecer. está mesmo a acontecer. e a mim. mas porquê a mim? não é justo. alguém me tramou. isto não se faz! meteram-se com a pessoa errada. isto não fica assim. ai, não fica, não!

3. negociação — não, não pode ser, eu faço o que for preciso. se isto se resolver rapidamente, garanto que entro na linha. eu sei que as coisas podiam ter sido diferentes, mas, se correr tudo bem, agora é que vai ser, eu prometo que…

4. depressão — nunca estive tão infeliz. acabou-se. não vale a pena fazer nada. aliás, não há nada a fazer. deixem-me no meu canto. deixem-me definhar. deixem-me. e deixem-me chorar. deixem-me para aqui…

5. aceitação — pois, não há nada a fazer. mas tenho que aprender alguma coisa, não posso ficar a pensar no que poderia ter sido diferente. está mesmo a acontecer. já aconteceu. e a mim. não estou nada bem, mas vou ficar. e um dia vou poder dizer “estou bem” e sentir que é verdade verdadinha.

não sei se é obrigatório passar pelas fases todas.
também não sei se é um caminho de sentido único ou se há retrocessos ou iterações. não sei se é possível voltar a fazer uma determinada fase para tentar obter melhoria de nota.
sei que é um processo. e sei que, se não o negarmos quando dermos por nós no túnel escuro, vamos ter em mente que os túneis têm um entrada e uma saída. e que, se nos mantivermos de costas para a entrada, havemos de ir dar à saída. não se sabe em que estado, mas havemos de ir dar à saída.

e cá fora… bem… cá fora, há a continuação da estrada, há outras estradas, há avenidas, ruas, ruelas e becos sem saída. há vias só para peões e há auto-estradas. há cruzamentos, rotundas, viadutos, passagens de nível (umas com, outras sem guarda).
e certamente existirão outros túneis e podem ser mais ou menos longos, mais ou menos escuros, mais ou menos assustadores. no entanto, se nos mantivermos de costas para a entrada e continuarmos a caminhar, a saída vai aparecer.

e cá fora… bem… cá fora, há sol e nuvens e chuva e neve. há pássaros e borboletas e gatos e lagartixas. há amigos que nunca largaram a nossa mão. e há amigos que não conseguiram manter a mão dada mas que se mantiveram atentos o caminho todo e nos esperavam à saída de braços abertos. e há gente que não conhecemos e vamos gostar de conhecer. e há novos desafios e coisas para aprender e ideias brilhantes para ter no banho ou a conduzir. e há crianças sorridentes, quer tenham 5 ou 65 anos. e há luz. a dos outros e a nossa.

e cá fora…bem… cá fora…
mmm… cá fora…

estudo de mercado

situação A

entra na loja. quer um livro ou um dvd. não sabe qual. não interessa qual. quer comprar qualquer coisa. preferencialmente algo que lhe fique bem. não com a roupa ou com o look da semana. algo que lhe fique bem nas conversas na esplanada. dirige-se aos topos. e aos tops. ah, ok, este que está em primeiro lugar. já vi este nome em qualquer lado. se calhar, foi no top da semana passada…

ficou pseudo-negligentemente pousado no móvel da entrada durante 3 meses.

situação B

entra na loja. tem tempo livre: e se fosse comprar um livro ou um dvd? no outro dia estavam a falar de um livro novo sobre gestão de mudança; era qualquer coisa com animais, mas parece que este é melhor que os outros. também parece que saiu qualquer coisa dos coldplay. ou seria dos killlers? quais é que deram aquele concerto no outro dia? toda a gente tinha posts no facebook… raios! devia ter apontado… não faz mal, pergunto ao funcionário; eles sabem estas coisas.

andou coladinho ao tablet durante 1 semana (sempre a jeito para pousar na mesa do café), mas depois foi morrer para… mmm… onde é que aquilo andará?

situação C

entra na loja. já procurou por todo o lado e há mais de 2 meses que não procura naquela loja. “boa tarde. queria Poemas de Deus e do Diabo / ’68 Comeback Special Edition. sim, eu sei que não têm há muito tempo, mas podem encomendar?”

está na mesinha de cabeceira. e não sai de lá tão cedo.

e quem diz livros e dvds diz pessoas.

ou há uma compulsão para aumentar a coleção e quantidade é que conta…

ou há uma necessidade de preencher um vazio com algo que respeite uma qualquer norma…

ou há uma fome indescritível de algo pessoal e intransmissível… e, aí, não fazemos por menos.

tsunami

e eis que o epicentro e o hipocentro se confundem e, entre coração e estômago, as ondas sísmicas vão e vêm, cruzam-se, entrelaçam-se, sobrepõem-se, exponenciam-se. é um crescendo tão súbito que parece que sempre esteve lá e nós é que estávamos distraídos. e tudo é tsunami. e é devastador (ou não seria um tsunami). e a água salgada descontrolada e controladora a misturar-se com a base e a ceder à força implacável da gravidade.

ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo.

“não se pode ter muitos amigos”

“não se pode ter muitos amigos.”, diz o inspirador MEC.

assumindo que se trata de um “poder” de capacidade e não de possibilidade, não podia estar mais de acordo.

neste contexto, o da amizade, o de deixar que entrem na nossa vida e sejam criadores intelectuais de estados de espírito e de emoções, o poder-capacidade é mais um superpoder, enquanto que o poder-possibilidade procura estabelecer um equilíbrio (ou desequilíbrio) de poderes.

os superpoderes são supercapacidades que permitem fazer coisas. ou capacidades que permitem fazer supercoisas. e a capacidade de deixar que alguém entre na nossa vida — deixar mesmo, no sentido de dar o flanco; e entrar mesmo, no sentido de passar a ocupar parte do espaço interior — é uma supercapacidade, é um superpoder.

quando, para além disso, existe ainda a capacidade de dar a chave (ou o cartão, ou o código — isto porque somos modernos e tecnológicos) para que a outra pessoa entre e saia consoante a sua vontade ou necessidade, aí já estamos a falar de ter uma supercapacidade de fazer uma supercoisa. um superpoder ao quadrado. é mesmo coisa para super-heróis.

mas, como o universo é dado a essa coisa da procura do equilíbrio, da simbiose de opostos e da simetria de forças e números, para cada super-herói existe um arqui-inimigo, um super-vilão. se bem que, por alguma razão, os vilões raramente sejam apelidados de super, não deixam de ter superpoderes, supercapacidades para destruir o que foi construído por outros ou, pior ainda, ter capacidades para transformar uma coisa boa numa coisa super-má ou numa supercoisa má.

e, na amizade, o poder-possibilidade, o que procura estabelecer um determinado equilíbrio de poderes, é artificial. não constrói, mascara. não cria laços, cria dependências. não dá liberdade, define áreas de ação e funções a desempenhar.

na amizade, o poder-capacidade de criar laços é um superpoder ao quadrado. o seu arqui-inimigo é o poder-possibilidade de criar dependências que estabelecem relações de poder.

de facto, não se pode ter muitos amigos. não se pode, não se consegue: até os superpoderes — mesmo que ao quadrado — têm limites. temos que saber aplicá-los com cuidado. temos que assegurar que somos supercapazes de sermos os nossos próprios super-heróis e não nos tornarmos os nossos próprios arqui-inimigos, daqueles que soltam uma gargalhada sempre que usam o seu poder-possibilidade para criar uma nova dependência da rede de poder.