o meu coração não é azul bebé

é um facto: dá-me algum gozo passar por expressões de emoção e clarividência do tipo “o meu coração é azul bebé” ou “a minha princesa não só é cor-de-rosa como também é linda”.
(também acho piada aos “um mais um é igual a um elevado à potência da felicidade suprema”, mas esses ficam para… um dia… quando eu for crescida. talvez.)

não é coisa em que invista muito tempo (nem pouco, na verdade), volta e meia tropeço neles e… pronto… quer seja no aconchego do meu nexus ou numa mesa de café com companhia adequada, o meu alter ego viperino faz uma rave e o gene do sarcasmo põe uma bandolete com luzinhas e vai dançar para cima das colunas. (sim, dançar em cima das colunas é coisa dos 90s, mas eu já sou um bocado antiga.)

hoje, o meu fofinho fez 1 mês. acordou e sorriu como só sorri para mim, como se me quisesse dizer “és melhor mãe do mundo”. o meu coração transborda de felicidade.

hoje, é um dia especial. o meu fofinho faz 3 meses e 9 dias. acordou e sorriu como só sorri para mim, como se me quisesse dizer “és a melhor mãe do mundo”. o meu coração transborda de alegria… e de felicidade.

nem consigo descrever a alegria, a felicidade e o orgulho que inundam o meu coração. o meu fofinho lindo faz 1 ano. é uma criança tão especial… só 1 aninho e já quase que fala, quase que anda (às vezes até me parece que quase que corre) e quase que come sozinho. e sorri para mim como se quisesse dizer “és a melhor mãe do mundo”. nunca vi uma criança assim.

dias como hoje nunca esquecemos. o meu fofinho fez 16 anos. é uma criança tão especial… só é pena ter aquela galdéria dos tops curtos sempre atrás dele e a obrigá-lo a gastar a mesada em menos de uma semana. mas continua o mesmo: ainda na semana passada, quando enfiou o meu carro contra a porta da garagem, voltou a olhar para mim com aquele sorriso que diz “és a melhor mãe do mundo”.

tão viperina!

tenho sorte por estar rodeada por pessoas que me inspiram

criatividade. coragem. lealdade. coração.

espírito indomável. necessidade de deixar a sua marca no que fazem. impulso para dar a mão. vontade de aprender. sede de ser mais.

gente sem tretas. gente que não se deixa intimidar por verdades diferentes da sua. gente que insiste em devolver abraços em vez de só os receber.

cabeças arejadas. raciocínio divergente. sistemas anarcas. pensamento musical.

pessoas arejadas.
pessoas musicais.

o post de schrödinger

uma experiência teórica.
uma construção mental.
um paradoxo?

“não é fácil gozar o espetáculo de um planetário quando o universo está lá fora à nossa espera…”, disseste-me.

ficar ou ir.
ficar quando já não há razões senão para ir.
ir quando o potencial de ficar ainda não se concretizou.
ir. ficar.

ficar e ir.
ficar, assim, é apenas não ir.
não ir, assim, não é nada.
não ir, assim, é ausência de tudo o que significou ficar.
não ir, assim, é rejeitar tudo o que havia para concretizar quando a única coisa a considerar era ficar.
ir. não ficar.

ficar, assim, é só não ir.

o planetário já não passa de um edifício de betão onde fazem números de ilusionismo. o universo, esse, está lá fora à nossa espera.

(fica em dívida a epanadiplose)

texto que parece ser sobre o meu filho mas, na verdade, é sobre mim

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

esta semana a minha criança apanhou porque foi ter com crianças mais velhas e disse-lhes que queria jogar futebol. na escola há uma regra: cada ano tem um dia da semana em que pode jogar futebol. e a minha criança foi dizer às outras crianças que queria jogar futebol porque era a vez dele (desde o início do ano ainda não tinha conseguido que lhe deixassem “exercer” o direito de jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele tinha o direito de usufruir do campo de futebol do recreio). resultado: apanhou. a criança corre que se farta, mas nem os ideais de justiça (nitidamente ambiciosos) nem o facto de ser “a pessoa mais veloz do mundo” o livraram de ser apanhado por três crianças. e utilizando a palavra “apanhado” estou a tentar afastar da minha cabeça a imagem do príncipe do caos de 6 anos (que nada tem de frágil) a ser segurado por dois miúdos e a levar um pontapé na barriga de um terceiro (ou uma, talvez).

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira. pelo menos, fisicamente. também não fez grande alarido em relação ao assunto e responde às nossas perguntas num tom que facilmente encaixaria na categoria de “normal”.
mas não faço ideia do que irá fazer ou, melhor, ter coragem de fazer quando voltar a ser segunda feira e ele voltar a querer jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele pode jogar futebol.
não faço ideia se a minha criança vai continuar a achar que faz sentido lutar por aquilo a que tem direito.
não faço ideia se a minha criança vai manter o seu sentido de justiça.

mais: não faço ideia se, mantendo o seu sentido de justiça e coragem para lutar por aquilo a que tem direito, vai chegar ao final do dia fisicamente incólume.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

voltei a dizer-lhe que não deve bater a ninguém e que, se assistir a alguma injustiça, deve pedir a intervenção de adultos.
perguntei-lhe se também bateu aos outros meninos. disse que tentou correr muito mas quando o apanharam tentou lutar.
pela primeira vez em seis anos e meio, engoli em seco e as palavras “se te baterem, bate também” saíram-me e em tom imperativo. “defende-te” era muito pouco.

falei-lhe novamente dos bullies. disse-lhe que há bullies de todas as idades. disse-lhe que também tenho bullies na minha vida. disse-lhe que os bullies, independentemente da idade, são pessoas que não sabem lidar com as suas próprias emoções, são pessoas tristes e infelizes. disse-lhe que, quando já são crescidos, os bullies até fazem coisas que doem mais do que bater. disse-lhe que não devemos sentir ódio nem raiva pelos bullies. só pena. são tristes, sozinhos, infelizes.
e disse-lhe que vai encontrar bullies pela vida fora. tal como eu.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.
a vontade de esmagar crânios contra paredes já passou.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo que o meu filho seja vencido pelo cansaço. ou pela porrada.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo de não ser capaz de ajudar o meu filho a crescer sem deixar que os bullies lhe destruam o espírito.

a vontade de chorar ainda não passou porque a frase “o meu filho não tem culpa de ter a mãe que tem” está a dar luta e recusa-se a sair da minha cabeça.

o manifesto é a forma mais sincera de elogio

eu quero um farol na praia
onde eu possa ouvir-me pensar
e tenha somente a certeza
das ondas, o rugir e o embalar

eu quero um farol na praia
onde eu possa aninhar-me com os intemporais
e tenha somente a certeza
dos xis verdadeiros e nada mais

eu quero música e livros
risos, histórias velhas e novas
eu quero desenhos na areia moldável
“eu quero a esperança de óculos
o meu filho de cuca legal”
eu quero ensinar e aprender
que o mundo não é feito
apenas de bem e de mal

eu quero um farol na praia
colorido, inteiro, altivo, singular
onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

……………….
porque as rainhas me inspiram (a elis é apenas uma delas)
porque respirar é, cada vez mais, um luxo
porque lata é coisa que não me falta
porque sim – a melhor razão de todas

formigas, formigueiro e papa-formigas

formigas. formiguinhas e mais formiguinhas.
em fila. apressadas. ávidas. pequeninas.
cada uma segue a que está à sua frente. sempre sem se perguntar para onde vai.
apressada. ávida. pequenina.
cada uma. uma peça na engrenagem. apressada.
cada uma. sem conhecer a engrenagem. ávida.
cada uma. sem perceber o que é esse todo a que pertence. pequenina.

o formigueiro. o todo. a grande máquina. em piloto automático.
uma formiga é apenas uma formiga.
dez formigas são apenas formigas.
cem formigas não passam de formigas.

o formigueiro dá-me formigueiro.
como um membro parado e esquecido numa posição pouco saudável.
como um membro que, por momentos, parece que não pertence ao corpo.
como uma peça que, por momentos, parece que não pertence à engrenagem. que não pertence ao todo.

“como é que se chamam aqueles bichinhos que o papa-formigas come?”

“e continua a escrever!”

está complicado.
normalmente, escrever ajuda-me a organizar as ideias, a defini-las.
normalmente, escrever permite-me pegar em ideias soltas (ou em pseudo-ideias) e obrigá-las a passar pelo crivo subjetivo da relevância.
está complicado.

está complicado pegar no emaranhado de fios e começar a construir alguma coisa. preciso de rendas-de-bilros. e nem uma mísera pega de cozinha no mais básico ponto de croché…

pode ser que escrever sobre não conseguir escrever permita encontrar um fiozinho que seja…
pode ser que faça estalar qualquer coisa e provoque as frinchas que, segundo o xor cohen, são necessárias para passar a luz.

quero uma gaveta só para mim

podes por-me na gaveta das que se riem alto e com vogais abertas
podes por-me na gaveta das que falam mais do que devem e que acabam por dizer o que não é socialmente adequado
na das que ainda não acabaram de pensar e já disseram
na das que não dizem coisas que não sentem

podes por-me na gaveta das que leem as expressões dos olhos e não os movimentos dos lábios
na das que percebem como te sentes antes de seres capaz de o colocar em palavras
na das que te dão a mão enquanto procuras as palavras certas ou combates as lágrimas
na das que te abraçam para que percebas que não precisas de dizer nem mais uma palavra

podes por-me na gaveta das que gostam de palavras cruas cantadas por vozes roucas
na das que cultivam guilty pleasures com tiaras e falsetes
na das que dançam como se estivessem na lama de woodstock ao som de andróginos decadentes
na das que são capazes de alimentar a alma durante dias apenas com um verso que ficou na cabeça em rodapé

podes por-me na gaveta das que se sentem em casa dentro de bibliotecas de ironia
na das que usam o sarcasmo como rímel e trocadilhos maliciosos como batom
na das que se apaixonam por tacões mais facilmente do que por pessoas apaixonantes
na das que investem na “embalagem” pelo gozo que a futilidade do processo lhes dá

podes por-me na gaveta das que têm um lado lunar à flor da pele
na das que sonham com caveiras e com veludo gótico coçado e renda preta impertinente
na das que rugem e mostram as unhas quando o ninho é ameaçado
na das que têm gozo em espezinhar quem se entende como legítimo dono de terceiros

podes por-me na gaveta que quiseres.
mesmo
a sério
não faz diferença
só faz diferença se perceberes que precisas de uma gaveta só para mim
só faz diferença se fores capaz de perceber que queres uma gaveta só para mim
só faz diferença se fores capaz de perceber que só faz diferença se, para ti, for óbvio que eu quero uma gaveta só para mim

e eu com tanto para não fazer…

irrita-me ter que ocupar o tempo com coisas que não têm propósito.
irrita-me.
mexe-me com os nervos.

irrita-me ainda mais ocupar o tempo com coisas com pseudo-propósito, catalogadas como “assim a dar para o incontornável”, com carimbo “tipo relevante”, publicitadas como “finalmente, aquilo por que tanto esperava mas que não tem qualquer tipo de utilidade”.
irrita-me.
mexe-me com o estômago.

e o despropósito instala-se, aconchega-se, trata de se colocar despropositada porém apropriadamente confortável.
e o despropósito instala-se, desaloja propósitos, intenções, objetivos e, claro, sonhos.

já construí castelos destinados a serem destruídos.
já investi em apelos a olhos que se recusam a ver-ver com medo de ter de ver-sentir e, consequentemente, sentir-sentir.
já acreditei que valia a pena ter fé.
já me queixei do lodo e atirei-me de braços abertos para o que me assusta.

mas a ausência de propósito, a ausência de intenção, o vazio de… de tudo o que conta…
mexe-me com os nervos.
mexe-me com o estômago.
e é um punhal no coração.

e eu com tanto para não fazer…
e eu com tanto para fazer…

já não se trata de virar costas.
é tempo de desistir.

Don’t spend time beating on a wall, hoping to transform it into a door.
(Coco Chanel)

oh captain, my captain!

o dia acordou cinzento, a teimar na possibilidade de chuva. eu acordei com sol no coração, mas logo absorvi nuvens mais escuras e densas que as do céu.
e chovi. e chovi. e voltei a chover.
reação aquosa imprevista mas não imprevisível. incontornável perante nuvens carregadas de um coração triste e também ele carregado.

hoje perdi (sim, primeira pessoal do singular. estou a falar de mim) uma das pessoas mais inspiradoras que me é possível conceber. as gargalhadas, claro. mas mais do que isso. muito mais do que isso. o espírito livre, indomável e sedento de verdade inconveniente. o gozo de ter o poder chocar apenas com a arrogância da transparência do discurso, das intenções.

e perdi-o de uma forma que não tem como cicatrizar. perdi alguém que era combustível para a minha nave espacial. alguém que, mesmo sem partilhar o meu espaço, me fez sentir abraçada e “normal” tantas e tantas vezes.

e perdi-o porque, de certo modo, ele estava perdido de si próprio, da sua grandiosidade e até da sua humanidade. perdi-o porque estava mergulhado numa tristeza que não tenho a presunção de achar que consigo compreender.

e não tem retorno. e volto a chover. e só consigo pensar nos xis que teria para lhe dar. e chovo.
resta-me partilhá-lo com o príncipe do caos. e chover. pelo que consigo colocar em palavras. e chover. pelo que apenas tem forma de nuvem negra dentro de mim.

obrigada.