essa coisa gestáltica

essa coisa gestáltica de achar que o todo é mais amplo e mais complexo que a soma das suas partes.

essa coisa gestáltica de achar que uma sequência de eventos é mais do que uma sequência de eventos e que o contexto faz parte do conjunto, criando mais uma camada de significado ou até alterando o significado de cada um dos eventos e, com isso, definindo a própria sequência de eventos e distanciando-a de sequências terceiras.

essa coisa gestáltica de achar que um ser humano é um organismo porque é feito de células de diferentes naturezas e variadíssimas funções mas só é um ser humano porque também é feito de luz do sol e das sombras onde habitam os lobisomens.

essa coisa gestáltica de achar que o crescimento de uma criança é feito de momentos-chave vividos em fases-padrão mas só adquire consistência quando sublinhado por momentos de desvio à regra e que são estes últimos que definem a cor da personalidade, o sabor da alma e o chilrear do potencial.

essa coisa gestáltica de achar que uma pessoa se define e ganha existência por tudo o que faz e diz, batidos em castelo e delicadamente misturados com tudo o que decide não fazer nem dizer, sempre com o cuidado de adequar a temperatura à natureza da receita.

essa coisa gestáltica de achar que um conjunto de textos é um tipo de diário de bordo mas só porque encerra em si também todas as relações que existem por detrás das sensações da ortografia, das extrapolações das alegorias e da orgânica da linha de pensamento.

essa coisa gestáltica de achar que um conjunto de textos só pode ser uma unidade orgânica e com alma quando é vista à luz de cada par de olhos que por lá passam.

hoje faz anos uma das minhas pessoas preferidas

andei com ela ao colo, mas hoje ela é perfeitamente capaz de ser um apoio forte e sólido sempre que eu precisar.

já chorou no meu ombro, mas hoje é ela quem anda atenta à possibilidade de eu precisar do ombro dela.

numa família em que já ficou mais do que provado (e demasiadas vezes) que os laços de sangue só por si não valem nada, ela mostra-me que os laços de sangue podem, de facto, resultar em relações verdadeiras e inoxidáveis.

é generosa, forte, carinhosa, equilibrada, honesta.
de caráter forte e sangue quente.

e tudo isto é visível num sorriso assertivo e transparente.
e tudo isto faz com que seja alguém que quero que o meu filho veja como exemplo.

e, pronto, sou fã. uma fã orgulhosa, muito orgulhosa.

eu tenho um sonho

eu tenho um sonho.
no meu sonho, o meu filho cresce e torna-se adulto numa sociedade em que não é importante ser grande ou pequeno, porque todos têm a mesma oportunidade de desenhar o seu próprio horizonte.

no meu sonho, ninguém julga ninguém por questões de genética, preferências nem aparência. e já se esqueceram que, em tempos, havia quem se julgasse no direito de julgar os outros por questões de genética, preferências e aparência.

no meu sonho, as mulheres são rainhas e não princesas e nenhuma delas está à espera de um príncipe que a salve, que assuma a responsabilidade pela felicidade dela nem que, com a sua chegada montado num cavalo branco, anuncie o início da sua vida.

no meu sonho, os homens não se esquecem que as mulheres são mães, irmãs e filhas de alguém. mas, acima de tudo, não se esquecem de tudo o resto que elas são capazes de ser, muito menos da capacidade que têm de os ajudar a ser mais e melhores.

no meu sonho, as pessoas ficam inseguras quando suspeitam que alguém não foi totalmente honesto com elas. as pessoas ficam confiantes quando estão rodeadas de pessoas honestas, francas e transparentes, mesmo sabendo que vão ouvir, saber, ver coisas que não lhes vão agradar.

no meu sonho, as pessoas querem evoluir em vez de parecerem evoluídas. querem ter sorrisos honestos e não apenas dentes brancos e alinhados. querem aprender, aprender sempre, aprender com tudo e com todos.

no meu sonho, o meu filho pode ser quem quiser, gostar livremente, querer com o coração, brincar até morrer.

a-do-ro!

adoro quando pões as tuas pernas em cima das minhas quando estamos a ver televisão (porque eu faço parte do teu território e porque partilhar coisas havendo contacto físico é bem melhor).

adoro quando te digo que estás a ser ranhoso (porque és) e me respondes “achas?” (porque sabes que és e sabes que és ranhoso como eu sou ranhosa).

adoro quando adormeço na tua cama (porque, agora, eu é que preciso de, de vez em quando, adormecer de mão dada contigo) e acordo com dores por todo o lado (porque… enfim… a cama é tua e devia ser só para ti).

adoro quando perguntas “posso dizer uma coisa?” (porque queres portar-te bem) e não esperas por resposta para começar a falar (porque dizer coisas é mais importante do que assegurar que os outros as querem ouvir).

adoro quando só me deixas ler a minha história preferida quando eu não te peço para escolheres essa (porque és ranhoso e gostas de mandar).

adoro quando danças com ar compenetrado e como se fosse a coisa mais séria do mundo (porque és “profissional” e porque sabes que eu sei que, por dentro, só tens sorrisos).

adoro quando lês, à primeira, palavras que eu não sei que tu sabes (porque gosto de não saber coisas sobre ti e gosto que me ensines “de fininho”).

adoro quando dizes à cabeleireira “quero ficar careca” e a convences a, contra a vontade dela, espalhar os teus caracóis pelo chão com um dramático pente 4 (porque sabes que toda a gente adora os teus caracóis e gostas de lembrar que são teus e de mais ninguém).

adoro quando me pedes para pôr a mesma música que andamos a ouvir em repeat há mais de uma semana (porque  está mesmo no ponto para fazeres playback).

adoro quando me perguntas “gostas da música dos aviões?” com ar de gozo (porque sabes que a música me irrita e que fico à espera que a cantes de seguida porque sei que gostas de me irritar).

adoro quando me deixas sem resposta (porque tenho a mania que tenho sempre respostas e gosto que me proves que estou enganada).

adoro quando me dizes que gostas de mim só porque sim (porque sinto que o fazes apenas porque precisas de o dizer… em oposição às vezes em que o fazes porque queres coisas).

adoro quando me dás a mão sem eu te ter que estender a minha (porque somos assim, gente que anda na rua de mão dada com gente de quem gosta, tal como ainda hoje — aos 39 — faço com o meu pai).

adoro quando me lembras que não queres saber se te acham diferente, estranho, peculiar ou que tens algo de errado (porque, obviamente, és estranha e peculiarmente perfeito).

adoro ver-te dormir. porque és lindo. porque és redondo. porque todos os teus traços transmitem paz. porque me fazes sentir que tudo está bem, que as coisas batem certo e o mundo faz sentido, que não me estou a espalhar ao comprido. porque me fazes sentir orgulhosa e especial por ser 100% tua.

se fosses capaz…

aproximas-te e vês melhor. contudo, só por 1 segundo. logo a seguir fica tudo desfocado. afinal, a proximidade não traz clareza. bem pelo contrário: à medida que te aproximas, crias sombra e, claro, vês pior.
a seguir, afastas-te. queres eliminar a sombra. não há nada a fazer. a sombra permanece. esperas mais um pouco. “pode ser que seja uma questão de habituação.” mas não. não há nada a fazer. desistes. “preciso de marcar oftalmologista.”
e, assim, arrumas o assunto. e, assim, colocas de parte a questão. e, assim, pões um carimbo no assunto, na questão, na tua incapacidade. essa incapacidade de ajustar a focagem ao que está à tua frente. a tua incapacidade de perceber que para ver é preciso ver-ver. mas já tens o carimbo, é oficial que não tens responsabilidade. e desistes.

se não desistisses,…
se fosses capaz de querer mais,…
se fosses capaz de assumir que és responsável por querer ver-ver,…
se não tivesses medo de ajustar a focagem,…
se não tivesses medo do que verias se efetivamente fosses capaz de ver-ver,…

… talvez (mas só talvez!) fosses capaz de ver a formiga a passar e perceber que também ela tem aonde ir.
… talvez fosses capaz de ver que o sol se reflete nas superfícies mais incríveis.
… talvez fosses capaz de ver a cor da brisa.
… talvez fosses capaz de ver o padrão de cumplicidade de quem se senta à volta da mesma mesa de café.
… talvez fosses capaz de ver que as meninas vestidas de cor de rosa ficam lindas com botas de biqueiras de aço.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 3 anos que vira costas enquanto outros ouvem uma história acha que os livros só são inteiros quando os temos nas mãos.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 5 anos dá a mão à mãe para a proteger e não para que ela o proteja.
… talvez fosses capaz de ver que as crianças que crescem a fazer muitas perguntas vão ser adultos e vão continuar a fazer muitas perguntas e, à medida que essas perguntas vão, cada vez mais, sendo dirigidas a si próprios, também vão, cada vez mais, obter mais respostas… das quais vão surgir novas perguntas. cada vez mais.
… talvez fosses capaz de ver que, por detrás de cada ponto de interrogação, há 3 pontos de exclamação de olhos arregalados e sorriso de esperança.
… talvez fosses capaz de ver que os sorrisos de esperança são como asas de inseto, finas e transparentes.
… talvez fosses capaz de ver que asas finas e transparentes são imensas e poderosas.
… talvez fosses capaz de ver a transparência das asas… e não ter medo da transparência de quem tem a capacidade de voar.
… talvez fosses capaz de ver que a transparência alarga horizontes e que horizontes amplos tornam o nosso mundo maior e o dia mais claro.
… talvez fosses capaz de ver as cores do infinito.
… talvez fosses capaz de ver-ver. simplesmente ver-ver.

se fosses capaz de ver-ver, talvez… não, “talvez” não: de certeza que ias ser capaz de sentir. o infinito, a transparência, a esperança que acompanha os sorrisos arregalados, o colorido da essência das crianças, o amarelo quente do sol.

sim, se fosses capaz de ver-ver, ias ser capaz de sentir-sentir.

se fosses capaz…

romeiro, romeiro, quem és tu?

vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, pergunto. “não.”, respondes.
mas ficas. e ficas para me lembrar que estás desse lado e eu estou deste. e para me lembrar de que a culpa é minha. e eu aceito. sei que não é verdade, mas aceito.
e exiges-me que vá ter contigo, que atravesse e vá ter contigo.
exiges-me que vá ter contigo embora saibas que não tenho como.
és a minha cathy, do outro lado da janela mas deitada ao meu lado.
“i can not live without my life! i can not live without my soul!”
eu fiquei com a vida. tu levaste-me a alma.

adormeço para um sonho.
acordo para um pesadelo. de garras em riste.
sempre de garras em riste.
sem ti. e de garras em riste. as mesmas que te levaram para o outro lado da janela. as mesmas com que te atirei para os vendavais.
elas lembram-me da culpa.

viro costas às garras. viro costas ao animal. viro costas a tudo o que me lembra a culpa que aceito como minha. viro costas à humanidade com minúscula, a minha. viro costas à humanidade com maiúscula, a que olha para mim e só vê o animal.

fujo. de mim. e do animal.
mas não interessa aonde a minha peregrinação me leva: adormeço sempre para um sonho e acordo para um pesadelo.
por muito que fuja do animal e das humanidades, lá estão elas: as garras, em riste.
espadas poderosas, extensões letais de um esqueleto à prova de tudo.

espadas de um guerreiro. de um guerreiro sem horizonte, sem propósito. de um samurai sem amo, sem razão de ser.
preso ao animal. preso ao infinito do animal.
preso ao infinito que me mantém deste lado da janela e que me obriga a aceitar a culpa que dizes que é minha.
preso à ausência de horizonte. preso ao animal de esqueleto indestrutível.



vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, desta vez és tu que perguntas. “não.”, respondo.
não posso ficar e não posso ir ter contigo. não é suposto ir ter contigo.
a culpa não é minha. a culpa é tua.
o coração do animal de esqueleto indestrutível acordou em riste quando viu que a tua humanidade tinha perdido o propósito. que estavas presa ao teu próprio monstro interior. e que já não eras um sonho. e as garras, em riste, estiveram à altura como um samurai cujo amo é a sua humanidade com minúscula.
a culpa não é minha. a culpa não é das garras. a culpa não é do animal.



– romeiro, romeiro, quem és tu?
– i am the wolverine.

tu que te preocupas comigo

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que eu esteja sozinha e que ache que não é suposto precisar de ti,
tu que nem sempre consegues dizer-me o que te vai na alma e arrancar de mim o que vai na minha,
não receies a minha autonomia e a forma como prezo os momentos que consigo que sejam 100% só meus.
não esperes que eu abdique da minha necessidade de me entender com as minhas ideias antes de ser capaz de as pôr cá fora.
mas acredita que foste e és fundamental para eu aprender a tomar conta de mim, a tomar conta dos meus e a não ter vergonha de pedir ajuda sempre que preciso.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias não estar suficientemente atento e deixar passar sinais de que preciso de ti,
tu que nem sempre consegues ficar seguro de que leste tudo o que há para ler nas entrelinhas,
não receies que eu não te avise caso o teu recetor esteja mal sintonizado.
não esperes que me esconda atrás de segundos sentidos e expressões ambíguas.
mas acredita que tens o descodificador certo para perceber, nas tais entrelinhas, o significado do título de qualquer episódio.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que, um dia, eu chegue à conclusão de que ficas aquém e de que, afinal, não preciso de ti para nada,
tu que nem sempre consegues ver o que achas que devias ver,
não receies as nossas diferenças pois foram elas que nos trouxeram até aqui.
não esperes que deixe de te dizer o que preciso de te dizer, o que acho que precisas de ouvir e, acima de tudo, o que, se eu não to disser, não vais ouvir de ninguém.
mas acredita que és mesmo uma estrela que me guia e um cisne negro que desafia todas as probabilidades.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que, eventualmente, a bílis tome conta de tudo e eu desista,
tu que nem sempre consegues ajudar-me a manter-me positiva e “luminosa”,
não receies que o amargo se sobreponha ao chocolate.
não esperes que me iniba de ir ter contigo quando preciso da tua energia.
mas acredita que, para além do doce e da luz, tenho mais ferramentas e um esqueleto de adamantium.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que eu possa estar mais ausente por desinteresse,
tu que nem sempre consegues sentir absoluta confiança nas minhas palavras,
não receies que a frequência com que te procuro reflita a frequência com que penso que, para mim, tu contas.
não esperes que eu faça fretes (porque não faço!).
mas acredita que se, em algum momento, trocámos xis, isso é que vale.

tu que te preocupas comigo, tu que receias que nem sempre consigas não recear e não esperar, acredita: fazes do meu mundo um sítio onde a vontade de dar xis é mais frequente do que a vontade de virar costas. acredita que fazes de mim mais… eu.

inquietude e a agitação de lugares inquietos

antes, havia sorrisos e vida naquele cantinho tranquilo que não era morada de ninguém.

todos tinham sido chamados para a guerra. e foram.

foram confiantes.

confiantes de que, à noite, do cimo das suas torres celestes, o olhar morno das estrelas cuidaria das flores, as tais flores entre as quais os sol abrasador se espraiava o dia todo.

agora, quem quer que por lá passe salienta a inquietude desse lugar melancólico.

já nada é tranquilo. exceto o ar. esse ar pesaroso que não se consegue esquecer da magia de um lugar remoto.

não, não é o vento que agita aquelas árvores que pulsam como águas geladas que cercam ilhas de nevoeiro.

não, não é o vento que empurra aquelas nuvens que, em reboliço, percorrem céus agitados. sem descanso. de manhã à noite.

sobrevoando as violetas e os seus tapetes de padrões incontáveis mas perfeitamente distintos.

sobrevoando os lírios que acenam e choram sobre campas anónimas.

acenam: da origem do seu perfume brotam gotas de orvalho eterno.

choram: do suporte da sua fragilidade deslizam lágrimas perenes.

* * * * *
resultado de um diálogo com o google sobre inquietude e posterior obsessão por “the valley of unrest” de edgar allan poe. resultado de inquietude. e também de inquietação. resultado de prosódia que fica em loop. resultado de um misto de coragem e inconsciência e de um “que se lixe!” quase pré-adolescente.
aqui, áudio. e o original nas notas.

four-letter word

luto.
ninguém decide fazer luto.
faz-se. e pronto.
consciente ou inconscientemente faz-se.
ninguém decide fazer luto, mas face a circunstâncias negras e se a coisa correr pelo melhor, um dia damos por nós a fazer luto.
se a coisa não correr pelo melhor (face à tal negritude)… sei lá… recusa-se o luto? foge-se do luto? rebatiza-se o luto com um eufemismo lírico qualquer?
se calhar, não há volta a dar e, quando há circunstâncias para luto, faz-se luto e pronto. faz-se.

a wikipedia diz que são 5 fases:

1. negação — consciente ou inconscientemente, entramos em modo de auto-defesa. nada nos afeta, nada nos toca. claro que não: estas coisas só acontecem aos outros. por isso, é simples: não se passa nada, está tudo impéc.

2. raiva — afinal está a acontecer. está mesmo a acontecer. e a mim. mas porquê a mim? não é justo. alguém me tramou. isto não se faz! meteram-se com a pessoa errada. isto não fica assim. ai, não fica, não!

3. negociação — não, não pode ser, eu faço o que for preciso. se isto se resolver rapidamente, garanto que entro na linha. eu sei que as coisas podiam ter sido diferentes, mas, se correr tudo bem, agora é que vai ser, eu prometo que…

4. depressão — nunca estive tão infeliz. acabou-se. não vale a pena fazer nada. aliás, não há nada a fazer. deixem-me no meu canto. deixem-me definhar. deixem-me. e deixem-me chorar. deixem-me para aqui…

5. aceitação — pois, não há nada a fazer. mas tenho que aprender alguma coisa, não posso ficar a pensar no que poderia ter sido diferente. está mesmo a acontecer. já aconteceu. e a mim. não estou nada bem, mas vou ficar. e um dia vou poder dizer “estou bem” e sentir que é verdade verdadinha.

não sei se é obrigatório passar pelas fases todas.
também não sei se é um caminho de sentido único ou se há retrocessos ou iterações. não sei se é possível voltar a fazer uma determinada fase para tentar obter melhoria de nota.
sei que é um processo. e sei que, se não o negarmos quando dermos por nós no túnel escuro, vamos ter em mente que os túneis têm um entrada e uma saída. e que, se nos mantivermos de costas para a entrada, havemos de ir dar à saída. não se sabe em que estado, mas havemos de ir dar à saída.

e cá fora… bem… cá fora, há a continuação da estrada, há outras estradas, há avenidas, ruas, ruelas e becos sem saída. há vias só para peões e há auto-estradas. há cruzamentos, rotundas, viadutos, passagens de nível (umas com, outras sem guarda).
e certamente existirão outros túneis e podem ser mais ou menos longos, mais ou menos escuros, mais ou menos assustadores. no entanto, se nos mantivermos de costas para a entrada e continuarmos a caminhar, a saída vai aparecer.

e cá fora… bem… cá fora, há sol e nuvens e chuva e neve. há pássaros e borboletas e gatos e lagartixas. há amigos que nunca largaram a nossa mão. e há amigos que não conseguiram manter a mão dada mas que se mantiveram atentos o caminho todo e nos esperavam à saída de braços abertos. e há gente que não conhecemos e vamos gostar de conhecer. e há novos desafios e coisas para aprender e ideias brilhantes para ter no banho ou a conduzir. e há crianças sorridentes, quer tenham 5 ou 65 anos. e há luz. a dos outros e a nossa.

e cá fora…bem… cá fora…
mmm… cá fora…

estudo de mercado

situação A

entra na loja. quer um livro ou um dvd. não sabe qual. não interessa qual. quer comprar qualquer coisa. preferencialmente algo que lhe fique bem. não com a roupa ou com o look da semana. algo que lhe fique bem nas conversas na esplanada. dirige-se aos topos. e aos tops. ah, ok, este que está em primeiro lugar. já vi este nome em qualquer lado. se calhar, foi no top da semana passada…

ficou pseudo-negligentemente pousado no móvel da entrada durante 3 meses.

situação B

entra na loja. tem tempo livre: e se fosse comprar um livro ou um dvd? no outro dia estavam a falar de um livro novo sobre gestão de mudança; era qualquer coisa com animais, mas parece que este é melhor que os outros. também parece que saiu qualquer coisa dos coldplay. ou seria dos killlers? quais é que deram aquele concerto no outro dia? toda a gente tinha posts no facebook… raios! devia ter apontado… não faz mal, pergunto ao funcionário; eles sabem estas coisas.

andou coladinho ao tablet durante 1 semana (sempre a jeito para pousar na mesa do café), mas depois foi morrer para… mmm… onde é que aquilo andará?

situação C

entra na loja. já procurou por todo o lado e há mais de 2 meses que não procura naquela loja. “boa tarde. queria Poemas de Deus e do Diabo / ’68 Comeback Special Edition. sim, eu sei que não têm há muito tempo, mas podem encomendar?”

está na mesinha de cabeceira. e não sai de lá tão cedo.

e quem diz livros e dvds diz pessoas.

ou há uma compulsão para aumentar a coleção e quantidade é que conta…

ou há uma necessidade de preencher um vazio com algo que respeite uma qualquer norma…

ou há uma fome indescritível de algo pessoal e intransmissível… e, aí, não fazemos por menos.