Primeiro, escondo o comando da televisão. Depois, apago as luzes durante um ou dois segundos.
Começam a desconfiar mas não dizem nada. E eu continuo. Toco à campainha, ligo o cortador de relva, o sistema de rega automática e o alarme da casa. Acendo as luzes todas, abro e fecho as persianas e ligo o rádio. Já não se assustam com estas coisas (pois já vivemos na mesma casa há dez anos) mas ficam irritados: “Fantasma dum raio, para com isso!”
Ligo a televisão e mudo de canal rapidamente, tal como eles fazem quando estão aborrecidos. 40, 40 42, 43, 44, 45,… “Para com a brincadeira! Não tem piada nenhuma!” Ponho as cadeiras em cima da mesa e enrolo o tapete. “Ai se eu te apanho! Não penses que te safas só porque não te vemos!” Ponho música aos berros e faço as cortinas dançarem. Furiosos, continuam a correr atrás de mim, como se fossem capazes de adivinhar aonde estou.
“Mãe, tive uma ideia!” diz a criança de oito anos, que sempre me conheceu e não tem medo nenhum de mim. Vai à cozinha e volta com uma lata. Fica parado durante uns segundos como se fosse capaz de adivinhar aonde estou. Fico curioso e paro. Rapidamente, atira-me com uma mãe-cheia de farinha. Tusso, engasgo-me e espirro. Estou branco! Estou todo branco!
Já não precisam de adivinhar aonde estou: eles conseguem ver aonde estou. Correm para mim e… O que é que se passa? Riem-se de mim, de minha expressão de susto. Abraçam-me. “Estou perdoado?”
Responde a criança de oito anos: “Só se arrumares isto tudo imediatamente e prometeres que és tu que limpas o pó e aspiras o chão nos próximos dois meses.” Engulo em seco e volto a tossir. Saiu-me cara a brincadeira. Não faz mal, amanhã volto a fazer o mesmo.

Adorei