cafuné

quando eu era miúda, a minha avó fazia-me cafuné para eu adormecer. e eu sentia-me especial porque a única coisa que ela recebia de volta era o meu sorriso que rapidamente se diluía no sono.

quando eu era miúda, a minha avó fazia vestidos rodados para mim e biquínis de croché para as minhas bonecas.

quando eu era miúda, a minha avó era devota de júlio dinis e a morgadinha dos canaviais foi o primeiro ‘livro de crescida’ que eu li.

quando eu já não era assim tão miúda mas ainda era miúda, fiz mais furos nas orelhas do que aqueles que a minha mãe permitiu. a minha avô adorava ver-me com três pérolas em cada orelha.

quando eu ainda era suficientemente miúda para ter muito tempo disponível mas já não era tão miúda que não percebesse que nem sempre podia comprar a roupa que eu queria usar, a minha roupa preferida era a que era feita por mim. nessa altura, a minha avó decidiu que era eu que ia herdar a máquina de costura dela.

hoje, decidida a manter-me rodeada de quem reconhece o que da miúda que fui se mantém na mãe do meu miúdo, adormeço o príncipe do caos com cafuné, faço fatos de x-men em croché, sou devota de saramago e tenho um espaço reservado na minha sala para a máquina de costura da minha avó.

One thought on “cafuné

Deixe uma resposta para Paula Cancelar resposta