texto que parece ser sobre o meu filho mas, na verdade, é sobre mim

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

esta semana a minha criança apanhou porque foi ter com crianças mais velhas e disse-lhes que queria jogar futebol. na escola há uma regra: cada ano tem um dia da semana em que pode jogar futebol. e a minha criança foi dizer às outras crianças que queria jogar futebol porque era a vez dele (desde o início do ano ainda não tinha conseguido que lhe deixassem “exercer” o direito de jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele tinha o direito de usufruir do campo de futebol do recreio). resultado: apanhou. a criança corre que se farta, mas nem os ideais de justiça (nitidamente ambiciosos) nem o facto de ser “a pessoa mais veloz do mundo” o livraram de ser apanhado por três crianças. e utilizando a palavra “apanhado” estou a tentar afastar da minha cabeça a imagem do príncipe do caos de 6 anos (que nada tem de frágil) a ser segurado por dois miúdos e a levar um pontapé na barriga de um terceiro (ou uma, talvez).

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira. pelo menos, fisicamente. também não fez grande alarido em relação ao assunto e responde às nossas perguntas num tom que facilmente encaixaria na categoria de “normal”.
mas não faço ideia do que irá fazer ou, melhor, ter coragem de fazer quando voltar a ser segunda feira e ele voltar a querer jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele pode jogar futebol.
não faço ideia se a minha criança vai continuar a achar que faz sentido lutar por aquilo a que tem direito.
não faço ideia se a minha criança vai manter o seu sentido de justiça.

mais: não faço ideia se, mantendo o seu sentido de justiça e coragem para lutar por aquilo a que tem direito, vai chegar ao final do dia fisicamente incólume.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

voltei a dizer-lhe que não deve bater a ninguém e que, se assistir a alguma injustiça, deve pedir a intervenção de adultos.
perguntei-lhe se também bateu aos outros meninos. disse que tentou correr muito mas quando o apanharam tentou lutar.
pela primeira vez em seis anos e meio, engoli em seco e as palavras “se te baterem, bate também” saíram-me e em tom imperativo. “defende-te” era muito pouco.

falei-lhe novamente dos bullies. disse-lhe que há bullies de todas as idades. disse-lhe que também tenho bullies na minha vida. disse-lhe que os bullies, independentemente da idade, são pessoas que não sabem lidar com as suas próprias emoções, são pessoas tristes e infelizes. disse-lhe que, quando já são crescidos, os bullies até fazem coisas que doem mais do que bater. disse-lhe que não devemos sentir ódio nem raiva pelos bullies. só pena. são tristes, sozinhos, infelizes.
e disse-lhe que vai encontrar bullies pela vida fora. tal como eu.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.
a vontade de esmagar crânios contra paredes já passou.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo que o meu filho seja vencido pelo cansaço. ou pela porrada.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo de não ser capaz de ajudar o meu filho a crescer sem deixar que os bullies lhe destruam o espírito.

a vontade de chorar ainda não passou porque a frase “o meu filho não tem culpa de ter a mãe que tem” está a dar luta e recusa-se a sair da minha cabeça.

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