quero uma gaveta só para mim

podes por-me na gaveta das que se riem alto e com vogais abertas
podes por-me na gaveta das que falam mais do que devem e que acabam por dizer o que não é socialmente adequado
na das que ainda não acabaram de pensar e já disseram
na das que não dizem coisas que não sentem

podes por-me na gaveta das que leem as expressões dos olhos e não os movimentos dos lábios
na das que percebem como te sentes antes de seres capaz de o colocar em palavras
na das que te dão a mão enquanto procuras as palavras certas ou combates as lágrimas
na das que te abraçam para que percebas que não precisas de dizer nem mais uma palavra

podes por-me na gaveta das que gostam de palavras cruas cantadas por vozes roucas
na das que cultivam guilty pleasures com tiaras e falsetes
na das que dançam como se estivessem na lama de woodstock ao som de andróginos decadentes
na das que são capazes de alimentar a alma durante dias apenas com um verso que ficou na cabeça em rodapé

podes por-me na gaveta das que se sentem em casa dentro de bibliotecas de ironia
na das que usam o sarcasmo como rímel e trocadilhos maliciosos como batom
na das que se apaixonam por tacões mais facilmente do que por pessoas apaixonantes
na das que investem na “embalagem” pelo gozo que a futilidade do processo lhes dá

podes por-me na gaveta das que têm um lado lunar à flor da pele
na das que sonham com caveiras e com veludo gótico coçado e renda preta impertinente
na das que rugem e mostram as unhas quando o ninho é ameaçado
na das que têm gozo em espezinhar quem se entende como legítimo dono de terceiros

podes por-me na gaveta que quiseres.
mesmo
a sério
não faz diferença
só faz diferença se perceberes que precisas de uma gaveta só para mim
só faz diferença se fores capaz de perceber que queres uma gaveta só para mim
só faz diferença se fores capaz de perceber que só faz diferença se, para ti, for óbvio que eu quero uma gaveta só para mim

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