às vezes

às vezes, acontecem coisas que só podem acontecer às vezes. talvez pudessem acontecer mais vezes, mas não acontecem mais vezes. só às vezes. talvez por definição. talvez por hesitação. talvez sem qualquer razão.

às vezes, são coisas grandes ou amplas ou profundas. e trazem sorrisos grandes ou amplos ou profundos. outras vezes, são coisas mais pequenas e os sorrisos podem até não ser tão grandes ou amplos mas podem até ser mais profundos.

às vezes, as pessoas encontram-se, cruzam-se. outras vezes, as pessoas reencontram-se e entrecruzam-se. umas vezes, ficam; outras vezes, seguem.

às vezes, as coisas que acontecem só às vezes representam quebras ou cortes com o estado das coisas. outras vezes, as coisas que acontecem só às vezes têm o dom de transformar as próprias coisas, as tais que definem o estado das coisas. às vezes, as coisas que acontecem só às vezes criam novos padrões para aquilo que existe para além desses momentos. não se trata de alterar um continuum, mas sim de alterar cores e sabores que, consequentemente, alteram a forma como o continuum ou o tal estado das coisas ou a própria vida são escritos.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que, saídas sabe-se lá de onde, trazem portas para varandas ou jardins, que colocam em causa o que sabemos sobre as cores do arco-íris, que acrescentam nuances ao olhar que está do outro lado do espelho.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que despertam novas verdades, novos horizontes, novas formas de estar em sintonia com o que nos define.
ali, entre o macro e o micro.

essa coisa gestáltica

essa coisa gestáltica de achar que o todo é mais amplo e mais complexo que a soma das suas partes.

essa coisa gestáltica de achar que uma sequência de eventos é mais do que uma sequência de eventos e que o contexto faz parte do conjunto, criando mais uma camada de significado ou até alterando o significado de cada um dos eventos e, com isso, definindo a própria sequência de eventos e distanciando-a de sequências terceiras.

essa coisa gestáltica de achar que um ser humano é um organismo porque é feito de células de diferentes naturezas e variadíssimas funções mas só é um ser humano porque também é feito de luz do sol e das sombras onde habitam os lobisomens.

essa coisa gestáltica de achar que o crescimento de uma criança é feito de momentos-chave vividos em fases-padrão mas só adquire consistência quando sublinhado por momentos de desvio à regra e que são estes últimos que definem a cor da personalidade, o sabor da alma e o chilrear do potencial.

essa coisa gestáltica de achar que uma pessoa se define e ganha existência por tudo o que faz e diz, batidos em castelo e delicadamente misturados com tudo o que decide não fazer nem dizer, sempre com o cuidado de adequar a temperatura à natureza da receita.

essa coisa gestáltica de achar que um conjunto de textos é um tipo de diário de bordo mas só porque encerra em si também todas as relações que existem por detrás das sensações da ortografia, das extrapolações das alegorias e da orgânica da linha de pensamento.

essa coisa gestáltica de achar que um conjunto de textos só pode ser uma unidade orgânica e com alma quando é vista à luz de cada par de olhos que por lá passam.

hoje faz anos uma das minhas pessoas preferidas

andei com ela ao colo, mas hoje ela é perfeitamente capaz de ser um apoio forte e sólido sempre que eu precisar.

já chorou no meu ombro, mas hoje é ela quem anda atenta à possibilidade de eu precisar do ombro dela.

numa família em que já ficou mais do que provado (e demasiadas vezes) que os laços de sangue só por si não valem nada, ela mostra-me que os laços de sangue podem, de facto, resultar em relações verdadeiras e inoxidáveis.

é generosa, forte, carinhosa, equilibrada, honesta.
de caráter forte e sangue quente.

e tudo isto é visível num sorriso assertivo e transparente.
e tudo isto faz com que seja alguém que quero que o meu filho veja como exemplo.

e, pronto, sou fã. uma fã orgulhosa, muito orgulhosa.

eu tenho um sonho

eu tenho um sonho.
no meu sonho, o meu filho cresce e torna-se adulto numa sociedade em que não é importante ser grande ou pequeno, porque todos têm a mesma oportunidade de desenhar o seu próprio horizonte.

no meu sonho, ninguém julga ninguém por questões de genética, preferências nem aparência. e já se esqueceram que, em tempos, havia quem se julgasse no direito de julgar os outros por questões de genética, preferências e aparência.

no meu sonho, as mulheres são rainhas e não princesas e nenhuma delas está à espera de um príncipe que a salve, que assuma a responsabilidade pela felicidade dela nem que, com a sua chegada montado num cavalo branco, anuncie o início da sua vida.

no meu sonho, os homens não se esquecem que as mulheres são mães, irmãs e filhas de alguém. mas, acima de tudo, não se esquecem de tudo o resto que elas são capazes de ser, muito menos da capacidade que têm de os ajudar a ser mais e melhores.

no meu sonho, as pessoas ficam inseguras quando suspeitam que alguém não foi totalmente honesto com elas. as pessoas ficam confiantes quando estão rodeadas de pessoas honestas, francas e transparentes, mesmo sabendo que vão ouvir, saber, ver coisas que não lhes vão agradar.

no meu sonho, as pessoas querem evoluir em vez de parecerem evoluídas. querem ter sorrisos honestos e não apenas dentes brancos e alinhados. querem aprender, aprender sempre, aprender com tudo e com todos.

no meu sonho, o meu filho pode ser quem quiser, gostar livremente, querer com o coração, brincar até morrer.

a-do-ro!

adoro quando pões as tuas pernas em cima das minhas quando estamos a ver televisão (porque eu faço parte do teu território e porque partilhar coisas havendo contacto físico é bem melhor).

adoro quando te digo que estás a ser ranhoso (porque és) e me respondes “achas?” (porque sabes que és e sabes que és ranhoso como eu sou ranhosa).

adoro quando adormeço na tua cama (porque, agora, eu é que preciso de, de vez em quando, adormecer de mão dada contigo) e acordo com dores por todo o lado (porque… enfim… a cama é tua e devia ser só para ti).

adoro quando perguntas “posso dizer uma coisa?” (porque queres portar-te bem) e não esperas por resposta para começar a falar (porque dizer coisas é mais importante do que assegurar que os outros as querem ouvir).

adoro quando só me deixas ler a minha história preferida quando eu não te peço para escolheres essa (porque és ranhoso e gostas de mandar).

adoro quando danças com ar compenetrado e como se fosse a coisa mais séria do mundo (porque és “profissional” e porque sabes que eu sei que, por dentro, só tens sorrisos).

adoro quando lês, à primeira, palavras que eu não sei que tu sabes (porque gosto de não saber coisas sobre ti e gosto que me ensines “de fininho”).

adoro quando dizes à cabeleireira “quero ficar careca” e a convences a, contra a vontade dela, espalhar os teus caracóis pelo chão com um dramático pente 4 (porque sabes que toda a gente adora os teus caracóis e gostas de lembrar que são teus e de mais ninguém).

adoro quando me pedes para pôr a mesma música que andamos a ouvir em repeat há mais de uma semana (porque  está mesmo no ponto para fazeres playback).

adoro quando me perguntas “gostas da música dos aviões?” com ar de gozo (porque sabes que a música me irrita e que fico à espera que a cantes de seguida porque sei que gostas de me irritar).

adoro quando me deixas sem resposta (porque tenho a mania que tenho sempre respostas e gosto que me proves que estou enganada).

adoro quando me dizes que gostas de mim só porque sim (porque sinto que o fazes apenas porque precisas de o dizer… em oposição às vezes em que o fazes porque queres coisas).

adoro quando me dás a mão sem eu te ter que estender a minha (porque somos assim, gente que anda na rua de mão dada com gente de quem gosta, tal como ainda hoje — aos 39 — faço com o meu pai).

adoro quando me lembras que não queres saber se te acham diferente, estranho, peculiar ou que tens algo de errado (porque, obviamente, és estranha e peculiarmente perfeito).

adoro ver-te dormir. porque és lindo. porque és redondo. porque todos os teus traços transmitem paz. porque me fazes sentir que tudo está bem, que as coisas batem certo e o mundo faz sentido, que não me estou a espalhar ao comprido. porque me fazes sentir orgulhosa e especial por ser 100% tua.

se fosses capaz…

aproximas-te e vês melhor. contudo, só por 1 segundo. logo a seguir fica tudo desfocado. afinal, a proximidade não traz clareza. bem pelo contrário: à medida que te aproximas, crias sombra e, claro, vês pior.
a seguir, afastas-te. queres eliminar a sombra. não há nada a fazer. a sombra permanece. esperas mais um pouco. “pode ser que seja uma questão de habituação.” mas não. não há nada a fazer. desistes. “preciso de marcar oftalmologista.”
e, assim, arrumas o assunto. e, assim, colocas de parte a questão. e, assim, pões um carimbo no assunto, na questão, na tua incapacidade. essa incapacidade de ajustar a focagem ao que está à tua frente. a tua incapacidade de perceber que para ver é preciso ver-ver. mas já tens o carimbo, é oficial que não tens responsabilidade. e desistes.

se não desistisses,…
se fosses capaz de querer mais,…
se fosses capaz de assumir que és responsável por querer ver-ver,…
se não tivesses medo de ajustar a focagem,…
se não tivesses medo do que verias se efetivamente fosses capaz de ver-ver,…

… talvez (mas só talvez!) fosses capaz de ver a formiga a passar e perceber que também ela tem aonde ir.
… talvez fosses capaz de ver que o sol se reflete nas superfícies mais incríveis.
… talvez fosses capaz de ver a cor da brisa.
… talvez fosses capaz de ver o padrão de cumplicidade de quem se senta à volta da mesma mesa de café.
… talvez fosses capaz de ver que as meninas vestidas de cor de rosa ficam lindas com botas de biqueiras de aço.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 3 anos que vira costas enquanto outros ouvem uma história acha que os livros só são inteiros quando os temos nas mãos.
… talvez fosses capaz de ver que o miúdo de 5 anos dá a mão à mãe para a proteger e não para que ela o proteja.
… talvez fosses capaz de ver que as crianças que crescem a fazer muitas perguntas vão ser adultos e vão continuar a fazer muitas perguntas e, à medida que essas perguntas vão, cada vez mais, sendo dirigidas a si próprios, também vão, cada vez mais, obter mais respostas… das quais vão surgir novas perguntas. cada vez mais.
… talvez fosses capaz de ver que, por detrás de cada ponto de interrogação, há 3 pontos de exclamação de olhos arregalados e sorriso de esperança.
… talvez fosses capaz de ver que os sorrisos de esperança são como asas de inseto, finas e transparentes.
… talvez fosses capaz de ver que asas finas e transparentes são imensas e poderosas.
… talvez fosses capaz de ver a transparência das asas… e não ter medo da transparência de quem tem a capacidade de voar.
… talvez fosses capaz de ver que a transparência alarga horizontes e que horizontes amplos tornam o nosso mundo maior e o dia mais claro.
… talvez fosses capaz de ver as cores do infinito.
… talvez fosses capaz de ver-ver. simplesmente ver-ver.

se fosses capaz de ver-ver, talvez… não, “talvez” não: de certeza que ias ser capaz de sentir. o infinito, a transparência, a esperança que acompanha os sorrisos arregalados, o colorido da essência das crianças, o amarelo quente do sol.

sim, se fosses capaz de ver-ver, ias ser capaz de sentir-sentir.

se fosses capaz…

romeiro, romeiro, quem és tu?

vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, pergunto. “não.”, respondes.
mas ficas. e ficas para me lembrar que estás desse lado e eu estou deste. e para me lembrar de que a culpa é minha. e eu aceito. sei que não é verdade, mas aceito.
e exiges-me que vá ter contigo, que atravesse e vá ter contigo.
exiges-me que vá ter contigo embora saibas que não tenho como.
és a minha cathy, do outro lado da janela mas deitada ao meu lado.
“i can not live without my life! i can not live without my soul!”
eu fiquei com a vida. tu levaste-me a alma.

adormeço para um sonho.
acordo para um pesadelo. de garras em riste.
sempre de garras em riste.
sem ti. e de garras em riste. as mesmas que te levaram para o outro lado da janela. as mesmas com que te atirei para os vendavais.
elas lembram-me da culpa.

viro costas às garras. viro costas ao animal. viro costas a tudo o que me lembra a culpa que aceito como minha. viro costas à humanidade com minúscula, a minha. viro costas à humanidade com maiúscula, a que olha para mim e só vê o animal.

fujo. de mim. e do animal.
mas não interessa aonde a minha peregrinação me leva: adormeço sempre para um sonho e acordo para um pesadelo.
por muito que fuja do animal e das humanidades, lá estão elas: as garras, em riste.
espadas poderosas, extensões letais de um esqueleto à prova de tudo.

espadas de um guerreiro. de um guerreiro sem horizonte, sem propósito. de um samurai sem amo, sem razão de ser.
preso ao animal. preso ao infinito do animal.
preso ao infinito que me mantém deste lado da janela e que me obriga a aceitar a culpa que dizes que é minha.
preso à ausência de horizonte. preso ao animal de esqueleto indestrutível.



vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, desta vez és tu que perguntas. “não.”, respondo.
não posso ficar e não posso ir ter contigo. não é suposto ir ter contigo.
a culpa não é minha. a culpa é tua.
o coração do animal de esqueleto indestrutível acordou em riste quando viu que a tua humanidade tinha perdido o propósito. que estavas presa ao teu próprio monstro interior. e que já não eras um sonho. e as garras, em riste, estiveram à altura como um samurai cujo amo é a sua humanidade com minúscula.
a culpa não é minha. a culpa não é das garras. a culpa não é do animal.



– romeiro, romeiro, quem és tu?
– i am the wolverine.