sinto-me perdida…

… quando há lágrimas nos teus olhos não porque fizeste asneiras mas porque sabes que vou ficar triste.

… quando me abraças para pedir desculpa por algo que nem me apercebi que fizeste.

… quando dizes que és a criança mais sortuda do mundo porque pedi um ovo estrelado para ti porque sei que adoras ovos estrelados.

… quando dizes que não há razão para eu me preocupar porque vais estar por perto se um elástico de alguma das minhas pulseiras rebentar e for preciso consertá-la.

… quando te peço para parares de assobiar (porque me sinto a ficar louca) e me respondes “tens que perceber que assobio porque estou feliz”.

… quando, antes de adormeceres, me dizes que é claro que vais dormir bem porque sabes que te adoro.

… quando sinto que os meus porques são absolutamente ridículos ao pé dos porques de quem diz “eu quero o que eu quero porque é o que eu quero que eu quero”.

… quando sinto que os teus porques fazem mais sentido do que os meus.

gosto de coisas fáceis

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gosto do calor do sol na minha pele
gosto da areia debaixo da toalha a moldar-se aos meus movimentos
de protetor solar com brilho e dos óculos de sol cor de rosa
da playlist ‘sun of a beach’

gosto de parcerias sem hora marcada e que se alimentam de cumplicidade
de espaços onde não é permitida a conversa de circunstância
do silêncio com capacidade de abraçar
gosto do silêncio que preenche os intervalos com gelado de chocolate e caramelo

gosto de conversas divergentes, de diálogos anarcas
de trocas de cromos sem filtros e nem protocolos
gosto de axiomas pessoais e intransmissíveis
e de movimentos de sobrancelhas que substituem palavras

gosto de dentes-de-leão efémeros e de nuvens impacientes
gosto da dose de realidade e história por detrás de uma tatuagem
gosto de quem gosta de beijos no cachaço
gosto de xis, de gargalhadas livres, de mau feitio militante

gosto de coisas fáceis e de gente sem tretas

renda de bilros e technicolor

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há pessoas que passam por nós, quase não param e logo seguem o seu caminho.
há pessoas que passam, seguem e, mais tarde ou mais cedo, regressam. podem voltar a passar de raspão, ficar embora temporariamente ou contribuir de alguma forma para o ninho.
há pessoas que chegam, dão duas de letra, mantêm alguma distância, entretêm-se com questões terceiras mas nunca mais querem partir.

há pessoas que, fruto das circunstâncias, acabam por fazer parte do nosso dia a dia, partilhar momentos doces e momentos agrestes e entrelaçar o seu caminho no nosso. dessas, umas continuam aparentemente por perto mas na realidade são estranhos, outras seguem por estradas paralelas mas abraçam-nos com carinho quando nos cruzamos nas pontes que ligam essas estradas. outras, ainda, ajudam-nos a manter o ninho construído com fibras elásticas e magicamente entrelaçadas.

ao longo do caminho, também aparecem pessoas que se perderam dos seus próprios caminhos. umas convencidas de que, consciente e voluntariamente, iniciaram um caminho alternativo, mais rico e mais promissor, embora estejam simplesmente perdidos. outras que reconhecem que estão perdidas mas decidem aproveitar o momento para conhecer novas paisagens. outras, ainda, que amuam e se sentam na beira da estrada a rogar pragas ao universo enquanto lhe exigem o envio de uma estrela-guia.
entre essas pessoas, as que calham de se cruzar no nosso caminho porque se perderam do seu, há espantalhos com coragem, homens de lata com cérebro e leões com coração.

há caminhos que se entrelaçam como as madeixas que desenham uma trança.
há caminhos que se cruzam obedecendo a uma coreografia como a das marcas deixadas pelas lâminas da patinagem no gelo.
há caminhos que se cruzam em emaranhados de algodão doce.
há caminhos que se cruzam de forma delicada e resistente e criam impressionantes rendas de bilros.

eu gosto de rendas de bilros.
os melhores ninhos são construídos com rendas de bilros.
as melhores rendas de bilros são as que nos mostram que a estrada pode ter muitas cores.
e os melhores ninhos são os que nos dão a segurança de não precisarmos da magia de terceiros, a consciência de que o segredo para voltar ao ninho está nos nossos próprios pés.

ela

legos e magrinhas.
hermanias e tal canal.
bicicleta e joelhos esfolados.
elvis. comanchero. ana faria. etta.
big spender. rosas e verniz vermelho.
lágrimas. gargalhadas. lágrimas envoltas em gargalhadas.
as princesas e o príncipe de caos.
mãos dadas. abraços. xis.
a primeira companheira de dança.
a primeira cabeça que entrou na minha.
aquela que é capaz de ler a minha personalidade em tons e variações de fragrâncias.

não tenho memória da minha vida sem ela. o calendário diz que esse tempo existiu. as histórias familiares contam episódios de revoluções e reviravoltas nas vidas de que a minha vida dependia.
não tenho memória de nada disso. não tenho memória da minha vida sem ela.

a minha cabeça não concebe a minha vida sem ela.
o meu coração também não.

um punhal no coração e o superpoder dos xis

hoje senti um punhal a entrar-me pelo coração adentro. não foi nada de intencional. foi uma circunstância. foi um efeito secundário. foi uma circunstância da treta. foi um efeito secundário do lodo.
desabei. ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo.

hoje desabei porque senti parte de mim negada, rejeitada, violentamente obliterada. é provável que esse sentimento tenha resultado dos hematomas e das cicatrizes, vestígios históricos da constante batalha para evitar que o lodo entre na corrente sanguínea e para eliminar a treta das metáforas diárias. é bem provável.

mas também é certo que sou das que desabam quando os castelos são destruídos, quando sonhos que não sabia que existiam se evaporam, quando potenciais sorrisos se transformam em ficção.
hoje desabei porque, mais uma vez, senti a minha essência a ser rejeitada. apeteceu-me virar costas, fugir, desaparecer. ainda bem que não o fiz.

no entanto…
paradoxalmente…
paradoxalmente, hoje recebi xis que celebram os meus xis. hoje recebi xis que celebram quem eu sou. hoje recebi xis que me fizeram pensar “ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo”. hoje recebi xis que me fizeram sentir que seria uma cretina se virasse costas, se fugisse, se tentasse desaparecer.

hoje adorei receber xis dos que têm o superpoder de me lembrar porque é que sou das que desabam quando os castelos são destruídos, quando sonhos que não sabia que existiam se evaporam, quando potenciais sorrisos se transformam em ficção.

hoje o efeito boomerang dos xis ajudou-me a recordar que também sou das que não têm medo de partir unhas a carregar pedras para construir castelos, das que acreditam que o sonho comanda a vida, das que riem com gargalhadas sonoras e assertivas quando dão por si no meio de um sketch monty python.

hoje foi importante ser das que sabem porque é que não usar rímel nas pestanas de baixo é essencial.

doce preocupação agridoce

preocupo-me quando cais e esfolas os joelhos.
preocupo-me quando não consigo disfarçar que me preocupo quando esfolas os joelhos.
preocupa-me que algo tão inócuo como joelhos esfolados seja uma preocupação para ti.
preocupa-me a tua eventual preocupação com joelhos esfolados te iniba de correr e subir às árvores.

preocupo-me quando olho para ti e pareces ter ficado um ano mais velho de ontem para hoje.
preocupo-me quando não consigo disfarçar o meu sorriso e o meu orgulho por estares tão crescido.
preocupa-me a possibilidade de o meu sorriso orgulhoso te incentivar a querer crescer ainda mais depressa.
preocupa-me que crescer faça de ti um crescido, um daqueles crescidos que já se esqueceram que foram crianças.

preocupo-me quando penso que a tua vida está em vias de dar um salto.
preocupa-me que o ponto de chegada do teu salto seja agreste e te faça querer fugir de volta para o ponto de partida.
preocupa-me a possibilidade de aterrares num local que te faça sentir estrangeiro… e estranho.
preocupa-me que percas de vista que a coragem de quem tem feito cadeirinha para poderes dar esse salto é uma coragem contagiosa e que, num belo efeito boomerang, partiu de ti e retorna sempre a ti.

esta é a preocupação doce.
é uma preocupação soalheira.
é uma preocupação que faz parte de uma delicada renda de bilros guarnecida com sorrisos e abraços e cafuné. e, sim, também castigos, ralhetes e lágrimas redondas.
mas nunca deixa de ser uma preocupação doce e soalheira. a mais doce que conheço. a que me faz ser mais gulosa do que já sou.

o problema é o outro tipo de preocupação. aquela que faz sentir que o universo está em desequilíbrio.
aquela que tira o chão.
aquela que faz com que o céu desabe sobre a cabeça.
a preocupação sem saber quais são as verdadeiras razões para estar preocupada.
a preocupação perante a possibilidade de, depois de o chão desaparecer, cair num rio de lava furiosa.
a preocupação perante a incerteza de que mais poderá chover depois do desabamento celeste.
a preocupação que me faz sentir minúscula, inapta, incompetente.
esta é a preocupação amarga, azeda, acre.

desde que passaste a existir, vivo preocupada.
é agridoce, mas não deixa de ser doce. muito muito muito doce.
não trocava a minha preocupação por nada.
não trocava a minha preocupação agridoce por nada. nada.

 

se fosse eu a decidir, eu (também) te escolhia para ela

porque tu tens a coragem de gostar de uma mulher corajosa.
porque tu tens a força necessária para estar ao lado de uma mulher forte.
porque tu tens a inteligência de perceber o que realmente significa ser escolhido por uma mulher inteligente.

porque sorris só por a veres sorrir.
porque sabes que há muitos sorrisos para distribuir mas os mais cristalinos são para ti.
porque sabes que não precisas de dizer uma palavra para a fazer sorrir.

porque vês como ela é magnífica.
porque o facto de ela ser magnífica não te assusta.
porque sabes que é ainda mais magnífica por ter escolhido alguém que não se assusta por ela ser magnífica.
porque tu estás à altura dela.
porque tu és magnífico.

“eu queria que resultasse. é a tentar que descobrimos até onde conseguimos ir.”

o contexto não interessa. a atitude pode ser rara mas a aplicabilidade é virtualmente universal.
fez-me sorrir. fez-me acreditar. fez-me ter um daqueles momentos de fé daquela que é a fé dos agnósticos.
daquela que é a fé desta agnóstica. esta agnóstica que não acredita em entidades superiores. esta agnóstica que não tem fé na humanidade como coletivo mas tem fé nas pessoas como motores individuais. motores de evolução motores de crescimento.

“é a tentar que descobrimos até onde conseguimos ir.” diz a rapariga que provavelmente está a trabalhar por pouco mais que o salário mínimo.

não é pelo “retorno”, pelo receber de volta, pelo potencial efeito boomerang.
é porque há pessoas que simplesmente são assim, porque há pessoas que não esperam a proverbial cenoura para terem vontade de correr.
é porque há pessoas que simplesmente querem ser mais e não apenas ter mais.

“if you aren’t in over your head, how do you know how tall you are?”
(t. s. eliot)

onde está a primavera a que tenho direito?

e onde está o sol a entrar pelo quarto e a obrigar-me a perceber que são horas para ir à luta?

e quem é que vai substituir a juba dos dentes-de-leão que estão a levar com litros de água em cima?

e o que faço eu agora que, cheia de fé nas promessas do s. pedro, arrumei as botas e fui buscar o calçado de verão?

e de que é que serve ser primavera se o céu está carregado e o horizonte incerto?

onde está a primavera a que tenho direito?