
há pessoas que passam por nós, quase não param e logo seguem o seu caminho.
há pessoas que passam, seguem e, mais tarde ou mais cedo, regressam. podem voltar a passar de raspão, ficar embora temporariamente ou contribuir de alguma forma para o ninho.
há pessoas que chegam, dão duas de letra, mantêm alguma distância, entretêm-se com questões terceiras mas nunca mais querem partir.
há pessoas que, fruto das circunstâncias, acabam por fazer parte do nosso dia a dia, partilhar momentos doces e momentos agrestes e entrelaçar o seu caminho no nosso. dessas, umas continuam aparentemente por perto mas na realidade são estranhos, outras seguem por estradas paralelas mas abraçam-nos com carinho quando nos cruzamos nas pontes que ligam essas estradas. outras, ainda, ajudam-nos a manter o ninho construído com fibras elásticas e magicamente entrelaçadas.
ao longo do caminho, também aparecem pessoas que se perderam dos seus próprios caminhos. umas convencidas de que, consciente e voluntariamente, iniciaram um caminho alternativo, mais rico e mais promissor, embora estejam simplesmente perdidos. outras que reconhecem que estão perdidas mas decidem aproveitar o momento para conhecer novas paisagens. outras, ainda, que amuam e se sentam na beira da estrada a rogar pragas ao universo enquanto lhe exigem o envio de uma estrela-guia.
entre essas pessoas, as que calham de se cruzar no nosso caminho porque se perderam do seu, há espantalhos com coragem, homens de lata com cérebro e leões com coração.
há caminhos que se entrelaçam como as madeixas que desenham uma trança.
há caminhos que se cruzam obedecendo a uma coreografia como a das marcas deixadas pelas lâminas da patinagem no gelo.
há caminhos que se cruzam em emaranhados de algodão doce.
há caminhos que se cruzam de forma delicada e resistente e criam impressionantes rendas de bilros.
eu gosto de rendas de bilros.
os melhores ninhos são construídos com rendas de bilros.
as melhores rendas de bilros são as que nos mostram que a estrada pode ter muitas cores.
e os melhores ninhos são os que nos dão a segurança de não precisarmos da magia de terceiros, a consciência de que o segredo para voltar ao ninho está nos nossos próprios pés.