acordas-me para vires dormir para a minha cama. chego-me para o lado mais frio e dou-te uma almofada. levo com um cotovelo no olho e um joelho na barriga. mesmo a dormir, a tua mão procura a minha. ressonas. encostamos a testa um ao outro e expiras para a minha cara. viras-te para lá e, desta vez, levo com o cotovelo na boca. o despertador ainda não tocou mas eu sei que já não volto a adormecer. o teu calcanhar espeta-se na minha anca. a tua respiração enche o meu quarto. a tua respiração enche a minha alma. a tua respiração dá-me paz. enquanto quiseres vir dormir para a minha cama, roncar ao meu ouvido e dar-me com o cotovelo na cara, eu sei que está tudo bem. eu sei que nós estamos bem. e o mundo pode estar do avesso, mas, se tu vieres dormir para a minha cama, eu posso bem com o mundo.
frio na barriga
“faz, todos os dias, uma coisa que te assuste.”
“todos os dias, deves fazer alguma coisa que te meta medo.”
ou, pelo menos, são traduções possíveis.
e traduções há muitas, no entanto as interpretações é que contam. e o que fazemos com elas, mais ainda.
faz coisas que te tiram da tua zona de conforto.
faz coisas que te fazem suspender a respiração.
faz coisas que fazem o teu sangue correr.
todos os dias.
transforma as pedras de kryptonite em sabres de luz.
enche os teus dias com coisas que te fazem cócegas e provocam arrepios ao mesmo tempo.
enche os teus dias com momentos de ar rarefeito mas puro.
enche os teus dias com saltos de paraquedas e equilibrismo num trapézio.
sempre.
não te deixes ficar.
não deixes de dançar à chuva.
não deixes de fazer coreografias no trânsito enquanto cantas uma música diferente da que está a dar na rádio.
não deixes de dar gargalhadas só porque a sala está em silêncio.
não deixes que a tua alma seja limitada pela fronteira da tua pele.
não deixes que a vida seja uma coisa que te acontece.
nunca.
moutinho sénior
música.
sentido de humor corrosivo.
ver televisão com as minhas pernas em cima das dele.
“o sol brilhava por entre as estrelas…”
rádio preto mono.
leitores de bobinas.
canetas de tinta permanente.
mais música.
relógios.
o relógio que voltou do brasil.
cartas para a colega de carteira / secretária.
les chats sauvages.
roberto carlos.
ver o nascer do sol na serra da estrela e o pôr do sol no algarve. no mesmo dia.
viagens no banco dos palermas.
escarnicador.
credence clearwater revival.
the shadows.
elvis.
louis de funes.
bud spencer.
lucky luke.
asterix.
“e o resto da saia?”
“vou-te buscar à 1h.”
abraços.
lacrau.
“ó rocha, empresta a borracha”.
e mais abraços.
e ainda mais música.
e ainda mais abraços.
combustível e inspiração
sol e roupa curta.
tatuagens.
música que faz dançar no trânsito.
verniz vermelho.
sapatos vermelhos.
cerejas.
morangos com iogurte.
dentes-de-leão.
a cama acabada de fazer com lençóis frescos.
as gargalhadas da criança durante o sono que me acordam às três da manhã.
ouvir o ‘rattle and hum’ de fio a pavio uma vez por ano.
os erres do tony de matos a cantar ‘cartas de amor’.
conduzir em estradas de interior com o alcatrão quente, música de férias e a criança a dormir no banco de trás.
a criança a fazer beatbox para acompanhar o ‘bootie call’ das all saints.
a criança a fazer air guitar para acompanhar rammstein ou ac/dc.
a criança a tocar violoncelo como se fosse um contrabaixo rockabilly.
lobisomens rockabilly e vampiros inspirados no nick cave.
magnum caramel & nuts.
praia.
magnum caramel & nuts na praia.
saramago.
saramago na praia.
heathcliff.
o hugh jackman como wolverine.
a ligação entre o magneto e o professor x.
projetos novos e redemoinhos de ideias que adiam o sono.
abraços.
conchinha de manhã.
eclairs da quinta do paço.
cup cakes sanguinários em sítios com candeeiros feitos com talheres.
‘wild mushrooms’, lloyd cole.
cumplicidade.
dançar.
sentir falta de quem faz mesmo muita falta.
dormir.
“Same love”, Macklemore & Ryan Lewis
[Verse 1: Macklemore]
When I was in the 3rd grade
I thought that I was gay
Cause I could draw, my uncle was
And I kept my room straight
I told my mom, tears rushing down my face
She’s like, “Ben you’ve loved girls since before pre-K”
Trippin’, yeah, I guess she had a point, didn’t she
A bunch of stereotypes all in my head
I remember doing the math like
“Yeah, I’m good at little league”
A pre-conceived idea of what it all meant
For those who like the same sex had the characteristics
The right-wing conservatives think its a decision
And you can be cured with some treatment and religion
Man-made, rewiring of a predisposition
Playing God
Ahh nah, here we go
America the brave
Still fears what we don’t know
And God loves all His children
Is somehow forgotten
But we paraphrase a book written
35 hundred years ago
I don’t know
[Hook: Mary Lambert]
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
My love, my love, my love
She keeps me warm
(…)
[Verse 3: Macklemore]
We press play
Don’t press pause
Progress, march on!
With a veil over our eyes
We turn our back on the cause
‘Till the day
That my uncles can be united by law
Kids are walkin’ around the hallway
Plagued by pain in their heart
A world so hateful
Someone would rather die
Than be who they are
And a certificate on paper
Isn’t gonna solve it all
But it’s a damn good place to start
No law’s gonna change us
We have to change us
Whatever god you believe in
We come from the same one
Strip away the fear
Underneath it’s all the same love
About time that we raised up
[Hook: Mary Lambert]
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
My love, my love, my love
She keeps me warm
[Outro: Mary Lambert]
Love is patient, love is kind
Love is patient (not cryin’ on Sundays)
Love is kind (not crying on Sundays)
“Cama de gato”, Kurt Vonnegut
– Consta-me que foi supervisor do doutor Hoenikker durante a maior parte da sua vida profissional – disse eu ao doutor Breed ao telefone.
– No papel – disse ele.
– Não estou a perceber – disse eu.
– Se de facto supervisionei o Felix – disse ele –, então, estou preparado para ter a meu cargo os vulcões, as marés, as migrações das aves e dos lemingues. Esse homem era uma força da natureza que nenhum mortal poderia controlar.
a outra mãe do meu filho
a outra mãe do meu filho diverte-se tanto a ensinar como a aprender.
a outra mãe do meu filho leva tão a sério a necessidade de aprender como a de ensinar.
a outra mãe do meu filho consegue olhar para ele e ver, por dentro do crânio camuflado pelos caracóis, um cérebro a ser alimentado pela energia que a hemoglobina, cuidadosa mas apressadamente, traz do coração.
a outra mãe do meu filho consegue olhar para ele e ver, por detrás dos caracóis, um cérebro alimentado pelo coração.
a outra mãe do meu filho consegue ver o fogo de artifício das sinapses e as luzes coloridas a formarem hulks, t-rexs, bonecos de neve e letras e frases e histórias.
a outra mãe do meu filho fica com o coração apertado quando ele está com o coração apertado, quando eu ou o pai dele estamos com o coração apertado.
a outra mãe do meu filho fica com o coração apertado quando precisa de nos dizer alguma coisa que vai fazer com que o nosso coração fique apertado.
o coração da outra mãe do meu filho dá gargalhadas quando o meu filho dá gargalhadas.
a outra mãe do meu filho vai ficar para sempre no meu coração, porque a outra mãe do meu filho ajuda-me a ser uma mãe melhor e, acima de tudo, está a ajudar-me a construir um ser um humano de primeira categoria.
obrigada, B.
um mega-xi!
moutinha by soul sister
human.seeker.
dreamer.doer.
a question.not an answer.
soul.sister.
mother.magic.
moutinha by optimus prime
Como vens serena, saída d’entre escolhos,
Com a armadura coberta pelo pó da batalha,
Deixas um rasto de estrelas caídas, que se espalha.
Sente-se o peso dos dias nos teus olhos.
Na mão, a espada afiada, mais não é que uma pena suave,
D’onde jorram inferências complexas, análises místicas,
Por onde se vislumbra o talento, em odes críticas.
E sempre aquela música. E sempre o semblante grave…
Tu és o melhor navio em que embarquei (já são tantos, Senhor),
A agulha mais certa, a palamenta mais completa, o leme orientador,
A âncora que nunca usei em viagens minhas.
E mesmo com a guarda que nunca quero que baixes,
Peço baixinho que sempre voltes e sempre me deixes,
Abrir-te os braços para o abraço em que te aninhas.
moutinha by soulmate
Ela caminha neste mundo
Com saltos tão altos que
O desavisado a vê acima do chão
Desfilando no seu porte de guerreira
A indestrutibilidade do adamantium
Mas quem conhece o seu mundo sabe
Que os sapatos são do mais puro cristal
Frágeis, delicados e transparentes
Que a guerreira vacila nos momentos em
Que do peso da sua decisão dependem outras vidas
E que o seu esqueleto derrete ao mais simples abraço
De todo aquele capaz de a ver com olhos tão límpidos
Como a sua alma.
