you see everything, and you’re still here

tu vês tudo. sempre viste. olhaste para mim e viste-me.

viste a alma anarca quando à minha volta só viam a miúda que ia dançar para cima das colunas. viste e quiseste ver mais. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. viste-me e ouviste-me. e quiseste saber. e nem tiveste que perguntar. bastou estares lá. bastou não teres pressa nem agenda. bastou não te incomodares com as interpretações de quem se entendia com direito a interpretar coisas.

entretanto, tropeçámos na vida. passaram anos, décadas quase (pelo menos, é o que diz o calendário e não a minha alma anarca). e mais um tropeção e voltámos a estar frente a frente. e voltaste a perguntar por mim. e eu estava de quatro e – tive mais noção disso quando te reencontrei – perdida de mim. e viste-me novamente. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. e ouviste-me. e obrigaste-me a ouvir-me. sim, obrigaste-me. porque tens autoridade para me obrigares a estas coisas, mas, acima de tudo, porque tens toda a credibilidade para me dizeres que me estou a perder de mim. e a diferença que faz ter-te a jeito para me dizeres essas coisas!

e, meu querido Optimus Prime, a confiança para me atirar ao black russian é a mesma. e é o que revelas quando revelas os momentos que capturas, os momentos em que o sorriso é fácil, incontornável e absolutamente transparente, momentos em que estou em casa, momentos em que me aninho num abraço de qualidade indescritível.

tu vês-me. vês a minha luz, vês o que reflito, vês o que me alimenta. mas também vês o que de mais escuro existe em mim, o que me faz aninhar, o que me faz ter vontade de semear caos na tentativa de fazer implodir perniciosas ideias de ordem.

e sempre que o mundo gira ao contrário, e sempre que preciso de desconstruir para construir, e sempre que preciso de olhar para mim na terceira pessoa…

… you see everything, you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I’m ashamed
there’s not anything to which you can’t relate
and you’re still here

(Alanis Morissette)

http://www.youtube.com/watch?v=C6kLbDHu0yc

“não se pode ter muitos amigos”

“não se pode ter muitos amigos.”, diz o inspirador MEC.

assumindo que se trata de um “poder” de capacidade e não de possibilidade, não podia estar mais de acordo.

neste contexto, o da amizade, o de deixar que entrem na nossa vida e sejam criadores intelectuais de estados de espírito e de emoções, o poder-capacidade é mais um superpoder, enquanto que o poder-possibilidade procura estabelecer um equilíbrio (ou desequilíbrio) de poderes.

os superpoderes são supercapacidades que permitem fazer coisas. ou capacidades que permitem fazer supercoisas. e a capacidade de deixar que alguém entre na nossa vida — deixar mesmo, no sentido de dar o flanco; e entrar mesmo, no sentido de passar a ocupar parte do espaço interior — é uma supercapacidade, é um superpoder.

quando, para além disso, existe ainda a capacidade de dar a chave (ou o cartão, ou o código — isto porque somos modernos e tecnológicos) para que a outra pessoa entre e saia consoante a sua vontade ou necessidade, aí já estamos a falar de ter uma supercapacidade de fazer uma supercoisa. um superpoder ao quadrado. é mesmo coisa para super-heróis.

mas, como o universo é dado a essa coisa da procura do equilíbrio, da simbiose de opostos e da simetria de forças e números, para cada super-herói existe um arqui-inimigo, um super-vilão. se bem que, por alguma razão, os vilões raramente sejam apelidados de super, não deixam de ter superpoderes, supercapacidades para destruir o que foi construído por outros ou, pior ainda, ter capacidades para transformar uma coisa boa numa coisa super-má ou numa supercoisa má.

e, na amizade, o poder-possibilidade, o que procura estabelecer um determinado equilíbrio de poderes, é artificial. não constrói, mascara. não cria laços, cria dependências. não dá liberdade, define áreas de ação e funções a desempenhar.

na amizade, o poder-capacidade de criar laços é um superpoder ao quadrado. o seu arqui-inimigo é o poder-possibilidade de criar dependências que estabelecem relações de poder.

de facto, não se pode ter muitos amigos. não se pode, não se consegue: até os superpoderes — mesmo que ao quadrado — têm limites. temos que saber aplicá-los com cuidado. temos que assegurar que somos supercapazes de sermos os nossos próprios super-heróis e não nos tornarmos os nossos próprios arqui-inimigos, daqueles que soltam uma gargalhada sempre que usam o seu poder-possibilidade para criar uma nova dependência da rede de poder.

redondo

“preocupas-te demais. não precisas de saber já para onde vou nem por onde eu vou. são destinos por definir (não tens a ilusão de que vou só para um sítio, pois não?). são estradas ainda por traçar.” e sorri. fico atenta: quero ver se vem aí uma daquelas gargalhadas que normalmente não tenho oportunidade de ver nascer mas apenas já a florir. fica-se pelo sorriso. é um sorriso firme que acaba por fazer um fade out para uma expressão neutra porém redonda. “está tudo bem. eu estou bem. e, quando deixares de te preocupar tanto, vais ser capaz de perceber que tu também estás bem. e se eu estou bem e tu estás bem, nós estamos bem.” e espreguiça-se. lânguido. e redondo. e eu não consigo tirar os meus olhos dos dele. redondos. apoiados pelas bochechas redondas. e, durante alguns segundos, não me preocupo. e sinto-me preenchida por ondas redondas como as que se formam e propagam quando cai uma pedra num lago calmo. “mas não há pedra, pois não?” ele sabe que não, que não há pedra. sabe que só há ondas. ondas redondas que brotam de um epicentro e trotam até à margem. e um arrepio. não sei se ele sabe do arrepio… não deve saber. o arrepio acontece quando a última onda atinge a margem, quando o redondo que toma conta de mim não tem alternativa senão ultrapassar os meus limites. e desaparece. quando a última onda passa a barreira da pele e se evapora. “acho que essa coisa do arrepio não é para mim, eu não tenho limites. eu tenho o superpoder de ter uma pele tão flexível que me permite expandir sempre que quero. e tão inteligente que sabe bem como filtrar o que a atravessa. em ambos os sentidos. é mesmo assim: eu tenho o superpoder de não ter limites.” e faz todo o sentido. ele tem superpoderes. e eu preocupo-me demais. talvez porque sou a primeira testemunha desses superpoderes mas sem a capacidade perceber como é possível ser tão redondo e simultaneamente não ter limites. sim, ele tem superpoderes. é isso: ele tem superpoderes. fico novamente presa nas feições redondas. com esperança de um novo sorriso (e mais ondas). mas não acontece. em vez disso, suspira, puxa o edredão e vira-se para o outro lado. só me resta dar-lhe um beijo na testa e outro nos caracóis, dizer-lhe que é a minha pessoa preferida e pedir-lhe que durma bem e sonhe com dinossauros felizes. encosto a porta e sinto novamente o arrepio sem pedra.

james blake, o raio do miúdo!

sei que estou completamente viciada no ‘retrograde’, contudo não sei o que escrever sobre este miúdo (ainda para mais que o google acabou de me comunicar que tem 1,96m… há aqui muito para processar…).

sei que me surpreende com tudo. não só com cada música nova que oiço (e não estou a dizer que gosto de tudo o que faz!), mas com o que acontece (sim, acontecem coisas) depois de certas palavras, certas notas, certos silêncios, certas hesitações…

tudo é pensado e tudo acontece ao correr da pena.

é desconcertante.

é desconcertante que tudo isto venha de uma criança nascida no final da década de 80.

é desconcertante que seja capaz de recitar joni mitchell como se fosse co-autor da letra. pior: como se fosse capaz de escrever a música para ela.

é desconcertante a forma como enche uma música com alter-egos (ou heterónimos?) da sua própria voz e é desconcertante que essas vozes sejam tão esquizofrenicamente compatíveis com o nosso ouvido.

é desconcertante que as notas a contratempo sejam tão facilmente retrovertidas pelo complicómetro humano e se traduzam em emoções profundamente à flor da pele. quer na expectativa de contratempos, quer na sequência nos nossos contratempos.

note-se: não percebo nada de música. mas o raio do miúdo deixa bem claro que não preciso de perceber nada de música para deixar que me hipnotize e me transporte para outros estados sensoriais ou me permita dançar ao som do que está por detrás dos meus estados emocionais.

“Suddenly I’m hit
(…)
So show me where you fit
So show me where you fit”

só sei que é desconcertante, o raio do miúdo!

“chorar lava a alma” diz o povo

“chora. chora tudo o que tiveres que chorar. chorar lava a alma.”

e lava. lava mesmo. e até tira nódoas, mesmo sem glutões (acho eu que não tem. e como não fazem anúncios a lágrimas, vou continuar sem grandes certezas…).

eu sou uma chorona, sou das que choram por dá cá aquela palha. portanto, acho que podemos assumir (sim, nós todos) que sei do que falo.
sei que não controlo quando é que choro ou deixo de chorar (o que, para uma control freak, pode ser matéria para umas quantas sessões de psicoterapia).
sei que a par das lágrimas, desce-me pela face uma voz trémula e digna de um castrati.
sei que o corpo acompanha, tudo devidamente coreografado, com as mãos a tremer e o estômago em rebuliço.
sei que, quando o choro é mais inconveniente ou fico de orgulho ferido por não conseguir controlá-lo, fico corada, mas de raiva.

também sei que chorar por dá cá aquela palha faz parte de mim, do meu sistema de defesa, do meu sistema de contra-ataque, do meu sistema de sobrevivência, enfim, do meu sistema elétrico… tal como as gargalhadas sonoras (e igualmente impróprias), tal como as piadas descontextualizadas (e que só fazem sentido dentro da minha cabeça), tal como os abraços a quem não os pediu e fica sem saber o que fazer com eles…

chorar lava a minha alma, essa coisa tão translúcida e de forma indefinida como as lágrimas.
é bom lavar a alma, é bom retirar-lhe os elementos que alteram a sua qualidade.
é bom lavar a alma e, de seguida, pô-la a secar e, se possível, até a corar.
no meu caso, nem é preciso passá-la a ferro, mas isso já depende da composição de cada alma.

e, depois de lavada, a alma volta à sua forma anterior, de novo fresquinha e, tal como as nossas calças de ganga preferidas, pronta para ser combinada com tacões ou com sapatilhas.
e tal como a ganga, a alma lavada fica mais justa e mais próxima da pele, no entanto, quanto mais é usada e lavada, mais se adequa às nossas formas, mais facilmente regista as nossas curvas, os nossos jeitos, a nossa história.

tal como os nossas calças de ganga preferidas, depois de lavada, a alma está mais justa (a lembrar “estou aqui, estou contigo”) mas moldável (“vamos para onde precisares de ir, e se quiseres sentar-te no chão, conta comigo”).

chorar lava a alma. liberta-a do que lhe altera a qualidade e torna-a mais nossa.

e, das duas uma, ou é o povo que é sensato e sabedor… ou é a control freak à procura de desculpas.
seja como for, e por via das dúvidas, é melhor não usar rímel nas pestanas de baixo.