eu tenho um sonho

eu tenho um sonho.
no meu sonho, o meu filho cresce e torna-se adulto numa sociedade em que não é importante ser grande ou pequeno, porque todos têm a mesma oportunidade de desenhar o seu próprio horizonte.

no meu sonho, ninguém julga ninguém por questões de genética, preferências nem aparência. e já se esqueceram que, em tempos, havia quem se julgasse no direito de julgar os outros por questões de genética, preferências e aparência.

no meu sonho, as mulheres são rainhas e não princesas e nenhuma delas está à espera de um príncipe que a salve, que assuma a responsabilidade pela felicidade dela nem que, com a sua chegada montado num cavalo branco, anuncie o início da sua vida.

no meu sonho, os homens não se esquecem que as mulheres são mães, irmãs e filhas de alguém. mas, acima de tudo, não se esquecem de tudo o resto que elas são capazes de ser, muito menos da capacidade que têm de os ajudar a ser mais e melhores.

no meu sonho, as pessoas ficam inseguras quando suspeitam que alguém não foi totalmente honesto com elas. as pessoas ficam confiantes quando estão rodeadas de pessoas honestas, francas e transparentes, mesmo sabendo que vão ouvir, saber, ver coisas que não lhes vão agradar.

no meu sonho, as pessoas querem evoluir em vez de parecerem evoluídas. querem ter sorrisos honestos e não apenas dentes brancos e alinhados. querem aprender, aprender sempre, aprender com tudo e com todos.

no meu sonho, o meu filho pode ser quem quiser, gostar livremente, querer com o coração, brincar até morrer.

a-do-ro!

adoro quando pões as tuas pernas em cima das minhas quando estamos a ver televisão (porque eu faço parte do teu território e porque partilhar coisas havendo contacto físico é bem melhor).

adoro quando te digo que estás a ser ranhoso (porque és) e me respondes “achas?” (porque sabes que és e sabes que és ranhoso como eu sou ranhosa).

adoro quando adormeço na tua cama (porque, agora, eu é que preciso de, de vez em quando, adormecer de mão dada contigo) e acordo com dores por todo o lado (porque… enfim… a cama é tua e devia ser só para ti).

adoro quando perguntas “posso dizer uma coisa?” (porque queres portar-te bem) e não esperas por resposta para começar a falar (porque dizer coisas é mais importante do que assegurar que os outros as querem ouvir).

adoro quando só me deixas ler a minha história preferida quando eu não te peço para escolheres essa (porque és ranhoso e gostas de mandar).

adoro quando danças com ar compenetrado e como se fosse a coisa mais séria do mundo (porque és “profissional” e porque sabes que eu sei que, por dentro, só tens sorrisos).

adoro quando lês, à primeira, palavras que eu não sei que tu sabes (porque gosto de não saber coisas sobre ti e gosto que me ensines “de fininho”).

adoro quando dizes à cabeleireira “quero ficar careca” e a convences a, contra a vontade dela, espalhar os teus caracóis pelo chão com um dramático pente 4 (porque sabes que toda a gente adora os teus caracóis e gostas de lembrar que são teus e de mais ninguém).

adoro quando me pedes para pôr a mesma música que andamos a ouvir em repeat há mais de uma semana (porque  está mesmo no ponto para fazeres playback).

adoro quando me perguntas “gostas da música dos aviões?” com ar de gozo (porque sabes que a música me irrita e que fico à espera que a cantes de seguida porque sei que gostas de me irritar).

adoro quando me deixas sem resposta (porque tenho a mania que tenho sempre respostas e gosto que me proves que estou enganada).

adoro quando me dizes que gostas de mim só porque sim (porque sinto que o fazes apenas porque precisas de o dizer… em oposição às vezes em que o fazes porque queres coisas).

adoro quando me dás a mão sem eu te ter que estender a minha (porque somos assim, gente que anda na rua de mão dada com gente de quem gosta, tal como ainda hoje — aos 39 — faço com o meu pai).

adoro quando me lembras que não queres saber se te acham diferente, estranho, peculiar ou que tens algo de errado (porque, obviamente, és estranha e peculiarmente perfeito).

adoro ver-te dormir. porque és lindo. porque és redondo. porque todos os teus traços transmitem paz. porque me fazes sentir que tudo está bem, que as coisas batem certo e o mundo faz sentido, que não me estou a espalhar ao comprido. porque me fazes sentir orgulhosa e especial por ser 100% tua.

romeiro, romeiro, quem és tu?

vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, pergunto. “não.”, respondes.
mas ficas. e ficas para me lembrar que estás desse lado e eu estou deste. e para me lembrar de que a culpa é minha. e eu aceito. sei que não é verdade, mas aceito.
e exiges-me que vá ter contigo, que atravesse e vá ter contigo.
exiges-me que vá ter contigo embora saibas que não tenho como.
és a minha cathy, do outro lado da janela mas deitada ao meu lado.
“i can not live without my life! i can not live without my soul!”
eu fiquei com a vida. tu levaste-me a alma.

adormeço para um sonho.
acordo para um pesadelo. de garras em riste.
sempre de garras em riste.
sem ti. e de garras em riste. as mesmas que te levaram para o outro lado da janela. as mesmas com que te atirei para os vendavais.
elas lembram-me da culpa.

viro costas às garras. viro costas ao animal. viro costas a tudo o que me lembra a culpa que aceito como minha. viro costas à humanidade com minúscula, a minha. viro costas à humanidade com maiúscula, a que olha para mim e só vê o animal.

fujo. de mim. e do animal.
mas não interessa aonde a minha peregrinação me leva: adormeço sempre para um sonho e acordo para um pesadelo.
por muito que fuja do animal e das humanidades, lá estão elas: as garras, em riste.
espadas poderosas, extensões letais de um esqueleto à prova de tudo.

espadas de um guerreiro. de um guerreiro sem horizonte, sem propósito. de um samurai sem amo, sem razão de ser.
preso ao animal. preso ao infinito do animal.
preso ao infinito que me mantém deste lado da janela e que me obriga a aceitar a culpa que dizes que é minha.
preso à ausência de horizonte. preso ao animal de esqueleto indestrutível.



vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, desta vez és tu que perguntas. “não.”, respondo.
não posso ficar e não posso ir ter contigo. não é suposto ir ter contigo.
a culpa não é minha. a culpa é tua.
o coração do animal de esqueleto indestrutível acordou em riste quando viu que a tua humanidade tinha perdido o propósito. que estavas presa ao teu próprio monstro interior. e que já não eras um sonho. e as garras, em riste, estiveram à altura como um samurai cujo amo é a sua humanidade com minúscula.
a culpa não é minha. a culpa não é das garras. a culpa não é do animal.



– romeiro, romeiro, quem és tu?
– i am the wolverine.

tu que te preocupas comigo

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que eu esteja sozinha e que ache que não é suposto precisar de ti,
tu que nem sempre consegues dizer-me o que te vai na alma e arrancar de mim o que vai na minha,
não receies a minha autonomia e a forma como prezo os momentos que consigo que sejam 100% só meus.
não esperes que eu abdique da minha necessidade de me entender com as minhas ideias antes de ser capaz de as pôr cá fora.
mas acredita que foste e és fundamental para eu aprender a tomar conta de mim, a tomar conta dos meus e a não ter vergonha de pedir ajuda sempre que preciso.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias não estar suficientemente atento e deixar passar sinais de que preciso de ti,
tu que nem sempre consegues ficar seguro de que leste tudo o que há para ler nas entrelinhas,
não receies que eu não te avise caso o teu recetor esteja mal sintonizado.
não esperes que me esconda atrás de segundos sentidos e expressões ambíguas.
mas acredita que tens o descodificador certo para perceber, nas tais entrelinhas, o significado do título de qualquer episódio.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que, um dia, eu chegue à conclusão de que ficas aquém e de que, afinal, não preciso de ti para nada,
tu que nem sempre consegues ver o que achas que devias ver,
não receies as nossas diferenças pois foram elas que nos trouxeram até aqui.
não esperes que deixe de te dizer o que preciso de te dizer, o que acho que precisas de ouvir e, acima de tudo, o que, se eu não to disser, não vais ouvir de ninguém.
mas acredita que és mesmo uma estrela que me guia e um cisne negro que desafia todas as probabilidades.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que, eventualmente, a bílis tome conta de tudo e eu desista,
tu que nem sempre consegues ajudar-me a manter-me positiva e “luminosa”,
não receies que o amargo se sobreponha ao chocolate.
não esperes que me iniba de ir ter contigo quando preciso da tua energia.
mas acredita que, para além do doce e da luz, tenho mais ferramentas e um esqueleto de adamantium.

tu que te preocupas comigo,
tu que receias que eu possa estar mais ausente por desinteresse,
tu que nem sempre consegues sentir absoluta confiança nas minhas palavras,
não receies que a frequência com que te procuro reflita a frequência com que penso que, para mim, tu contas.
não esperes que eu faça fretes (porque não faço!).
mas acredita que se, em algum momento, trocámos xis, isso é que vale.

tu que te preocupas comigo, tu que receias que nem sempre consigas não recear e não esperar, acredita: fazes do meu mundo um sítio onde a vontade de dar xis é mais frequente do que a vontade de virar costas. acredita que fazes de mim mais… eu.

estudo de mercado

situação A

entra na loja. quer um livro ou um dvd. não sabe qual. não interessa qual. quer comprar qualquer coisa. preferencialmente algo que lhe fique bem. não com a roupa ou com o look da semana. algo que lhe fique bem nas conversas na esplanada. dirige-se aos topos. e aos tops. ah, ok, este que está em primeiro lugar. já vi este nome em qualquer lado. se calhar, foi no top da semana passada…

ficou pseudo-negligentemente pousado no móvel da entrada durante 3 meses.

situação B

entra na loja. tem tempo livre: e se fosse comprar um livro ou um dvd? no outro dia estavam a falar de um livro novo sobre gestão de mudança; era qualquer coisa com animais, mas parece que este é melhor que os outros. também parece que saiu qualquer coisa dos coldplay. ou seria dos killlers? quais é que deram aquele concerto no outro dia? toda a gente tinha posts no facebook… raios! devia ter apontado… não faz mal, pergunto ao funcionário; eles sabem estas coisas.

andou coladinho ao tablet durante 1 semana (sempre a jeito para pousar na mesa do café), mas depois foi morrer para… mmm… onde é que aquilo andará?

situação C

entra na loja. já procurou por todo o lado e há mais de 2 meses que não procura naquela loja. “boa tarde. queria Poemas de Deus e do Diabo / ’68 Comeback Special Edition. sim, eu sei que não têm há muito tempo, mas podem encomendar?”

está na mesinha de cabeceira. e não sai de lá tão cedo.

e quem diz livros e dvds diz pessoas.

ou há uma compulsão para aumentar a coleção e quantidade é que conta…

ou há uma necessidade de preencher um vazio com algo que respeite uma qualquer norma…

ou há uma fome indescritível de algo pessoal e intransmissível… e, aí, não fazemos por menos.

groselha e alvarinho

sol de fim de tarde. temperatura de meio dia. zingarelho modernaço que cospe água de marca e em forma de spray fresco.

estado de espírito de fim de dia quente que antecede fim de semana que promete calor. batido de groselha aguado versus copo de vinho mal servido.

conversa fácil e descomprometida. “e então?” status update. “e agora?” mindset brainstorming. risos. easy listening. easy sharing.

areia. mar. tacões. óculos de sol. sol de fim de tarde.

narrativa na primeira pessoa

pôr um ponto final. iniciar um novo capítulo.
à primeira vista, parecem sinónimos.
mas não são. não são mesmo.
basta pensar que, num caso, o enfoque está no passado. no outro, no futuro.
um pressupõe um estado. o outro indicia um processo.
um cria uma quebra, um corte. o outro abre horizontes.
um não deixa margem para “e depois?”. o outro exige um “e agora?”.

podemos pôr um ponto final naquilo que queremos deixar para trás.
devemos pôr um ponto final naquilo que não queremos ter pela frente.
podemos dizer a plenos pulmões e com toda a assertividade “e ponto final!”.
devemos saber quando a nossa cabeça, o nosso corpo, a nossa alma, a nossa sanidade nos pedem um ponto final. e devemos ser capazes de os/nos respeitarmos e não deixar que esse firme ponto final se transforme em lânguidas reticências.

ninguém pode decidir iniciar um novo capítulo e simplesmente fazê-lo.
devemos estar disponíveis para iniciarmos novos capítulos e preparados para o processo, para a transição, para o que possa haver do outro lado da página.
mas ninguém pode decidir “é agora. vou iniciar um novo capítulo!”.
no início de um novo capítulo podemos ser agentes mas somos sempre apenas uma das variáveis.

nos novos capítulos, tudo pode acontecer. também pode acabar por não acontecer nada. andar em círculos também é uma possibilidade.
não sabemos. não se sabe.

um dia, acordamos (de um sono ou de outro estado qualquer) e damos por nós a estrear um capítulo novo. mas desengane-se que pensar que um “beam me up, scotty!” é suficiente; também não existem portais.
o processo que permite iniciar um novo capítulo é uma viagem. e somos nós que a fazemos.
umas vezes de sapatilhas, outras de stilettos. há até quem a faça descalço.

é uma viagem. mas daquelas em que vamos ocupados, seja a ler, a ouvir música, a conversar, a ver a chuva cair, a falar sozinhos, a chorar ou até a pesar figos.
às vezes, só damos pela viagem quando nos apercebemos de que já passámos a nossa paragem e nos esquecemos de sair.
e é quando nos apercebemos da viagem que nos apercebemos de que iniciámos um novo capítulo.
ou é um flash ou é um momento em que o tempo simplesmente pára — não há meio termo.

e, aí, voltamos a prestar atenção à prosa. o que aconteceu à personagem principal? é uma personagem plana ou evoluiu? mudou a focalização do narrador? mantém-se a ação principal ou precisamos de apelar à analepse para perceber em que ponto as narrativas se encaixaram e de que forma é que foi feito um update à catalogação das personagens secundárias?
e lá vamos nós, munindo-nos de apps de análise caracterização indireta e tags de localização psicológica, tentar perceber que pontos finais pontuaram o capítulo anterior e que reticências se alongaram para o capítulo novinho em folha. e começa a caça aos pontos de exclamação que se escondem por detrás de interrogações e dúvidas.

ninguém pode decidir iniciar um novo capítulo e simplesmente fazê-lo.

mas é tão importante sermos capazes de pôr os pontos finais que a nossa cabeça, o nosso corpo, a nossa alma, a nossa sanidade nos pedem… caso contrário, nunca estaremos disponíveis para o que possa haver do outro lado da página.

eles andem aí mas nós não temos medo

monstros. monstros por todo o lado. são os zombies, os vampiros e as múmias. mais os ogres, as bruxas e os frankenteins… e ainda os lobisomens. e as medusas… (não nos podemos esquecer das medusas!)

mas nós não temos medo. aliás, nós gostamos deles, quer sejam pegajosos ou fofinhos. quer sejam peças de lego, ilustrações de livros ou o desenho que fizemos há 5 minutos. quer sejam heróis, vilões ou anti-heróis. quer sejam corajosos ou tenham medo de humanos, ou até uns dos outros. quer sejam sanguinários ou vegetarianos.

sim, gostamos deles. e, por regra, não temos medo. não temos medo porque sabemos que não são reais. bem, não é bem assim: dos reais temos medo. mas sabemos que os reais não existem no nosso planeta. nem nos livros nem no cinema. muito menos lá em casa. os reais, os tais monstros de que temos medo (mas são mesmo só esses!), vivem noutro planeta, numa gruta muito escura. e nunca saem de lá. por isso é que podemos dizer, com segurança, que não temos medo de monstros.

mas, pelo sim, pelo não, vamos treinando a construção de prisões de legos. “porque eu sou um gigante invisível e preciso de ter um sítio para prender as coisas que os gigantes invisíveis precisam de prender.”

alma gémea

uma alma gémea é alguém que tem credibilidade para nos dizer “tens que ver esta série” e autoridade emocional para nos fazer cumprir essa missão.
a alma gémea sabe como resumir o enredo inicial para focar aquilo que conta, tudo o que conta e apenas o que conta.
a alma gémea sabe o que é que nos faz rir, o que nos emociona, o que nos vicia, mas, acima de tudo, o que nos faz sentir em casa quando só precisamos que a televisão nos forneça o acompanhamento certo para o chá de cidreira ou para o gelado de cheesecake.
e a alma gémea tem, invariavelmente, razão nas recomendações que faz e sabe que tem razão e sabe que ter razão é a razão pela qual tem mesmo que fazer recomendações deste tipo.
“ando há tempos para ter dizer que tens que…” e é tão simples, direto e concreto quanto isso. e tão assertivo como qualquer “tens que tomar conta de ti” ou “essa blusa não é uma boa ideia”.

a alma gémea sabe coisas sobre nós. e sabe-as porque as sente através da nossa capacidade de descrever o que sentimos. e sabe a importância que têm para nós porque sabe ler o que é importante para nós, principalmente quando não estamos a elaborar sobre a importância de coisas mais ou menos importantes.

a alma gémea sabe coisas e sente coisas, não porque somos iguais, mas porque sabe que somos diferentes e conhece essas diferenças com um grau de proximidade e familiaridade que, embora não sinta as coisas da mesma forma que nós, lhe permite sentir como nos sentimos quando sentimos aquilo que sentimos da forma como sentimos aquilo que nos faz sentir coisas.

e é simples. e direto. e concreto. e muito muito real.

e qualquer “nem tenho tido tempo para te ligar” só salienta a presença, nunca a ausência.

a mãe da minha mãe, a minha mãe e a mãe do meu filho

a mãe da minha mãe teria hoje 82 anos. fazia um pudim de ovos como nunca haverá igual. estava sempre a contar com a gargalhada que qualquer piada do genro iria provocar. na praia besuntava-me com nivea. deixava-me ouvir os discos da amália e fazer a árvore de natal. sempre gostou de me ver de minissaia (por muito curta que fosse) e achou piada aos 3 furos que fiz em cada orelha. via no bisneto a continuação do zeca dela. ria-se alto e fazia anos no mesmo dia que eu.

a minha mãe nasceu a meio do século XX. foi levada da terra onde nasceu para a terra dela, onde cresceu dentro de vestidos rodados e descalça sempre que podia. era a menina do papá dela até passar ser a do meu. obrigava-me a desenhar vezes sem conta os patos que ilustravam as cópias, tinham que ficar “perfeitinhos”. era chamada à escola para ouvir dizer que eu desestabilizava a aula e virava a turma do avesso. ensinou-me a fazer croché, a bordar e a fazer a minha roupa. gosta de dançar e de ouvir george michael (e foi com as “meninas” vê-lo ao vivo). é a melhor avó do mundo e uma sogra fora de série. faz um bacalhau com banana que, por vezes, me faz pensar que se calhar deus existe. queixa-se que eu não lhe ligo. e acha piada quando alguém vê fotografias dela em miúda e pensa que sou eu.

a mãe do meu filho nasceu no ano da revolução que juntou as forças armadas com o apelo estético das flores vermelhas. tem a proverbial “personalidade forte” e lida mal com autoridade. cresceu com a sorte de ter uma companheira para sair da sala pela janela, dançar até cair para o lado e completar frases como “alcibíades, alcibíades,…”. não tem pachorra para cozinhar por obrigação mas adora fazer arroz de atum para partilhar com gente querida. come chocolate como se não houvesse amanhã. procura ser leal, coerente e transparente e tem um grande talento para fazer inimigos. cada vez mais vai criando anticorpos que rejeitam relacionamentos ocos e faz questão de celebrar cumplicidades, risos e proximidades improváveis. é uma mamã-das-que-gostam-do-wolverine (em oposição a mamãs-que-gostam-do-mickey), completamente apaixonada pelo seu príncipe do caos. acha que a música alimenta a alma e mantém a sanidade do corpo. e dança. dança muito. e pode ser ao som de ala dos namorados ou marilyn manson. adora caveiras e é devota a saramago, goscinny e mark sandman. ao que parece, está a desenhar a sua história na pele. ah! e acredita que adamantium é que é!