alinhas?

começa sempre com uma ideia, um conceito, uma história dentro da história, uma fotografia mental que junta passado e presente, dor e alegria, coração e espada,…
“alinhas?”
“alinho.”

depois, o retiro. já disse o que precisava de dizer. e dou-te espaço. nem ansiosa fico. quando for o momento, depois de dares as voltas que precisares de dar, vens ter comigo. “estava a pensar que podíamos fazer qualquer coisa deste género.”
e eu sorrio. e sorrio ainda mais. já aconteceu ficar com as pernas a tremer. e continuo a sorrir, a ler cada traço, a digerir cada pormenor.
e é sempre a minha história e, por alguma razão que não compreendo (nem sinto necessidade de compreender), é a minha história contada por mim mas concretizada pela tua mão. e lá estão elas, as camadas de significado que acrescentaste e que, curiosamente, tornam a minha/tua versão da minha história mais rigorosa, mais delineada, mais viva.

e dos rabiscos aos traços e sombras e arte na minha pele é um salto muito rápido. e, claro, com a ajuda de mais um talentoso contador de histórias, sempre consciente de que as histórias  que regista têm que manter o brilho durante muitos anos.

no fim, de olhos nos olhos, sorrimos. ambos sentindo a responsabilidade. a responsabilidade de, tal como com o brilho do registo na pele, não deixar desaparecer os que, num dia de coragem e cumplicidade, celebraram um tratado: “alinhas?”, “alinho”.

brincadeiras com fogo

no princípio, era o fogo.

já não era uma pseudo-evidência de ação divina, é certo, contudo ainda se revestia de um não-sei-quê de inexplicável. talvez por se tratar de uma fotografia, ainda por cima digital, que transmitia calor ou, mais precisamente, que transmitia quentinho. digital quentinho… curioso…

Playing with fire - Copy

– posso fazer o que me apetecer?
– podes. é precisamente para isso que vai deixar de ser minha e passar a ser nossa.

e assim foi. bem, foi mais ou menos assim. na verdade, açambarquei-a. fiz questão de ler um “tua” no “nossa”, embora não tenha perdido de vista o “nossa” que queria que resultasse do processamento do “tua”. sim, porque só fazia sentido se tivesse o que devolver. num pingue-pongue de significados, leituras, interpretações. polvilhados com o talento e a criatividade de gente camaleónica.

das chamas quis que ficasse a forma anarca (a anarquia, esse leitmotiv). a ausência de cor foi, então, substituída pela soma de todas as cores, rgbcamente falando. depois, decantei a mistura e o resultado foi de zeros e uns, preto e branco, sim e não. em última análise, yin e yang.

o resultado manteve a essência do original: o afastamento de qualquer ideia de padrão e o realçar de uma forma com movimento explicitamente orgânico. isto com a transformação de um elemento noutro. do fogo ao ar. das chamas ao fumo. da fonte de calor ao vapor de água. da concentração de energia à dispersão de um eventual aroma.

Playing with fire_reverse_bw_xl_v3 - Copy

sim, o resultado manteve a essência do original: a multiplicidade de leituras de uma ausência de padrão e a paz do movimento orgânico.

definitivamente, o resultado manteve a essência do original: o “teu” partilhado que passa a ser “meu” e que, mesmo depois de processado, continua a ser inequivocamente “nosso”.

(obrigada)

gente será certamente

eu gosto de gente que escala paredes.
eu gosto de gente que, perante uma subida particularmente íngreme e sem bases de apoio, pensa “quero ver o que está lá em cima”.

eu gosto de gente que multiplica flores por nuvens para explicar que vai haver sempre passarinhos a chilrear.
eu gosto de gente que, mediante pontos de interrogação, reduz o carácter quântico das coisas à sua expressão mínima e desenha formas geométricas orgânicas que transformam os tais sinais de pontuação nos sorrisos de quem se apercebe que hoje sabe mais do que sabia ontem.

eu gosto de gente que gosta de gomas.
eu gosto de gente que receita coisas doces como forma de clarificar ideias e aplacar estados de espírito em tons de vermelho.

eu gosto de gente que dança a sorrir e de olhos fechados.
eu gosto de gente que é permeável a estados de espírito calorosos e inspiradores de sonhos mais ou menos bucólicos.

eu gosto de gente que gosta de galochas.
eu gosto de gente que percebe que saltar em poças de água da chuva é terapêutico e que calçado de borracha vermelha permite tirar fotografias à alma.

eu gosto de gente de raciocínio rápido e que resolve problemas como quem come piza de nutella.
eu gosto de gente com quem é fácil construir e divertido sonhar.

eu gosto de gente que se delicia com as perguntas desarmantes de seres de olhos redondos e horizontes em construção.
eu gosto de gente que celebra o ser diferente e simultaneamente batalha pela aceitação da diferença como standard.

eu gosto de gente que me faz pensar “como é bom ter por perto gente que me faz pensar”.

a voz que lê o que me rodeia

«Quando leio, há uma voz que lê dentro de mim. (…) A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas não é minha. Não é a voz dos meus pensamentos. A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas é exterior a mim. É diferente de mim. (…)
Não foram poucas as vezes que a voz que ouço quando leio me fascinou com as palavras que disse. Muitas vezes as suas pausas acenderam imagens no meu interior, nos lugares escuros que transporto dentro de mim e não conheço. Muitas vezes essa voz iluminou lugares dentro de mim: túneis que não conhecia. Muitas vezes vejo essa voz avançar por eles com uma tocha. Eu sei que a voz que ouço quando leio não tem medo. (…) Fico a ouvi-la durante horas e tento não esquecer nada porque quero aprender a perder-me menos vezes de mim próprio.»

(‘A voz que ouço quando leio’, “Abraço” de José Luís Peixoto)

dentro de mim, há uma voz que lê o que me rodeia. o que vejo, o que oiço, o que me aquece e o que me arrepia. essa voz é recetor e emissor ao mesmo tempo, pois recebe todos esses estímulos, processa-os e produz a sua  própria mensagem. umas vezes, fala-me com palavras concretas e coerentes, criando algum tipo de narrativa. outras vezes, o seu discurso deixa-me perdida numa montanha russa de afasia e tourette.

a voz que lê o que me rodeia gosta de metáforas, de legendar imagens com palavras de outras pessoas e de situar tudo com uma banda sonora. digo “gosta de” porque sei que a faz sorrir, mas, na verdade, é mais correto dizer “precisa de” ou “tem que”. palavras e apenas palavras não chegam. as palavras são bidimensionais e o que a voz que lê o que me rodeia tem para dizer requer uma multiplicidade de dimensões. e subdimensões. não se trata de complexidade mas de pormenor. daí a renda de bilros com as metáforas que ligam ideias e expandem o horizonte, com as palavras de outros que trazem novos narradores e focalizações diferentes da minha, com a música que… bem… a música que faz voar e sonhar e querer e sorrir e dançar.

a voz que lê o que me rodeia é maternal q.b.. diz-me diretamente aquilo que preciso de ouvir, mas preocupa-se comigo e tenta preparar-me para a dissonância cognitiva que sabe que ela própria vai provocar.

a voz que lê o que me rodeia irrita-se quando eu não lhe dou importância, quando tento convencer-me de que a leitura que ela faz é mais negativa do que a realidade ou quando, por razões com maior ou menor razão de ser, a acuso de estar a ver as coisas com lentes cor de rosa.
quando volto atrás para lhe dar razão, a voz que lê o que me rodeia sorri e não perde a oportunidade para me lembrar que tenho mais razões para confiar nela do que para não confiar.

deixa-me.tirar-te.fotografias

para com isso! deixa-me tirar-te fotografias.
és um ranhoso. és mesmo ranhoso.
podia dizer-te que um dia vais querer fotografias tuas aos 5 anos e não vais ter nenhuma de jeito, mas esse argumento é tão foleiro como tu és ranhoso.

eu quero tirar-te fotografias.
eu quero colecionar os teus sorrisos todos.
eu quero colocar em pausa o teu ar de desafio para que continue a desconcertar-me mesmo depois de virares costas e ires brincar com os monstros do ben 10.
eu quero capturar frames épicas da tua magnífica naturalidade, quer seja a olhar pela janela ou a subir árvores.

para de ser ranhoso e deixa-me tirar-te as fotografias que eu quero tirar.

às vezes

às vezes, acontecem coisas que só podem acontecer às vezes. talvez pudessem acontecer mais vezes, mas não acontecem mais vezes. só às vezes. talvez por definição. talvez por hesitação. talvez sem qualquer razão.

às vezes, são coisas grandes ou amplas ou profundas. e trazem sorrisos grandes ou amplos ou profundos. outras vezes, são coisas mais pequenas e os sorrisos podem até não ser tão grandes ou amplos mas podem até ser mais profundos.

às vezes, as pessoas encontram-se, cruzam-se. outras vezes, as pessoas reencontram-se e entrecruzam-se. umas vezes, ficam; outras vezes, seguem.

às vezes, as coisas que acontecem só às vezes representam quebras ou cortes com o estado das coisas. outras vezes, as coisas que acontecem só às vezes têm o dom de transformar as próprias coisas, as tais que definem o estado das coisas. às vezes, as coisas que acontecem só às vezes criam novos padrões para aquilo que existe para além desses momentos. não se trata de alterar um continuum, mas sim de alterar cores e sabores que, consequentemente, alteram a forma como o continuum ou o tal estado das coisas ou a própria vida são escritos.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que, saídas sabe-se lá de onde, trazem portas para varandas ou jardins, que colocam em causa o que sabemos sobre as cores do arco-íris, que acrescentam nuances ao olhar que está do outro lado do espelho.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que despertam novas verdades, novos horizontes, novas formas de estar em sintonia com o que nos define.
ali, entre o macro e o micro.

hoje faz anos uma das minhas pessoas preferidas

andei com ela ao colo, mas hoje ela é perfeitamente capaz de ser um apoio forte e sólido sempre que eu precisar.

já chorou no meu ombro, mas hoje é ela quem anda atenta à possibilidade de eu precisar do ombro dela.

numa família em que já ficou mais do que provado (e demasiadas vezes) que os laços de sangue só por si não valem nada, ela mostra-me que os laços de sangue podem, de facto, resultar em relações verdadeiras e inoxidáveis.

é generosa, forte, carinhosa, equilibrada, honesta.
de caráter forte e sangue quente.

e tudo isto é visível num sorriso assertivo e transparente.
e tudo isto faz com que seja alguém que quero que o meu filho veja como exemplo.

e, pronto, sou fã. uma fã orgulhosa, muito orgulhosa.