sete

e todos os clichés sobre o tempo passar a correr fazem sentido.
todas as expressões populares sobre as crianças crescerem depressa adquirem um caráter dogmático.
e todos os “está tão crescido” se tornam banais e desnecessários.

e estás crescido. estás sempre crescido. só me lembro de ti crescido.
olho para trás e vejo-te sempre pequeno, sempre a caminho de ficar crescido. mas, quando recordo o que sentia, só tenho recordação de sentir que estás crescido.

estás sempre crescido. dois, três, cinco, sete. sete! estás sempre crescido.
estás sempre a caminho de ficar mais crescido.

e eu tenho um floor seat ticket, assisto a tudo tão de perto que estou quase dentro do campo. vejo tudo de perto, em primeira mão e em hd.
sinto a hesitação durante o drible e o impulso antes do salto. vejo o movimento dos olhos a analisar a posição dos outros jogadores. percebo cada gota de suor, cada expiração frustrada. festejo quando tu festejas. cada ponto marcado por ti faz a minha vitória. cada tentativa falhada também.

vejo-te crescer e cresço contigo. cresço porque é preciso, cresço porque não tenho tenho alternativa, cresço porque tenho que ser capaz de te acompanhar.

sete!
estou crescida. estou capaz de saltos cada vez maiores. estou crescida para ser capaz de saltar contigo.
sete!
se.te!

365 dias dão para muita coisa…

chorar, rir. claro.
escrever coisas parvas, textos crípticos para uns e transparentes para outros.
escrever um texto que foi lido algumas centenas de vezes por um número indeterminado de pessoas, provavelmente o texto mais carregadinho de adn e debitado como um uivo à lua cheia.

inventar histórias sobre monstros reinventados. seres sanguinários e intrinsecamente humanos, lidos à lupa pela mão da inspiração com seis anos.
inventar uma história sobre aventuras de pessoas pequeninas com o dom de fazer sorrir, aquecer o coração e curar feridas que, por vezes, nem sabemos que temos.

deixar pessoas partirem. espreguiçar e esticar braços e pernas em celebração do espaço que fica vazio e disponível para braços abertos e palavras verdadeiras.
deixar pessoas chegarem, instalarem-se. pessoas que nos veem sem filtros e nos colocam em causa. pessoas que simplesmente passam a fazer parte do ecossistema, da renda de bilros.

chorar e rir intercaladamente em conversas tão próximas que beneficiam dos 300 km de espaço que permitem respirar. dar abraços tão reais e tridimensionais como se os 300 km não existissem.

dizer “preciso de ti” e ter como resposta um “estou a caminho”. ouvir um “preciso de ti” e responder com “estou a caminho”.

sentir a vida parada e os movimentos lentos no lodo. ver o nascer do sol no horizonte. sentir o potencial do horizonte.

sonhar.
querer.
dançar.
deixar ir. libertar.
dar a mão.
dar abraços.
cantar “só gosto de ti, porquê não sei, mas estou bem assim e tu também” junto aos caracóis da criatura mais fascinante do mundo.
dançar. sorrir. sonhar. abraçar.

e (mais) 365 dias dão para muita coisa.
as engrenagens vão funcionando e as coisas vão avançando. e enquanto há coisas a avançar, a alma espreguiça-se de olhos no horizonte.

tenho sorte por estar rodeada por pessoas que me inspiram

criatividade. coragem. lealdade. coração.

espírito indomável. necessidade de deixar a sua marca no que fazem. impulso para dar a mão. vontade de aprender. sede de ser mais.

gente sem tretas. gente que não se deixa intimidar por verdades diferentes da sua. gente que insiste em devolver abraços em vez de só os receber.

cabeças arejadas. raciocínio divergente. sistemas anarcas. pensamento musical.

pessoas arejadas.
pessoas musicais.

o manifesto é a forma mais sincera de elogio

eu quero um farol na praia
onde eu possa ouvir-me pensar
e tenha somente a certeza
das ondas, o rugir e o embalar

eu quero um farol na praia
onde eu possa aninhar-me com os intemporais
e tenha somente a certeza
dos xis verdadeiros e nada mais

eu quero música e livros
risos, histórias velhas e novas
eu quero desenhos na areia moldável
“eu quero a esperança de óculos
o meu filho de cuca legal”
eu quero ensinar e aprender
que o mundo não é feito
apenas de bem e de mal

eu quero um farol na praia
colorido, inteiro, altivo, singular
onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

……………….
porque as rainhas me inspiram (a elis é apenas uma delas)
porque respirar é, cada vez mais, um luxo
porque lata é coisa que não me falta
porque sim – a melhor razão de todas

quero uma gaveta só para mim

podes por-me na gaveta das que se riem alto e com vogais abertas
podes por-me na gaveta das que falam mais do que devem e que acabam por dizer o que não é socialmente adequado
na das que ainda não acabaram de pensar e já disseram
na das que não dizem coisas que não sentem

podes por-me na gaveta das que leem as expressões dos olhos e não os movimentos dos lábios
na das que percebem como te sentes antes de seres capaz de o colocar em palavras
na das que te dão a mão enquanto procuras as palavras certas ou combates as lágrimas
na das que te abraçam para que percebas que não precisas de dizer nem mais uma palavra

podes por-me na gaveta das que gostam de palavras cruas cantadas por vozes roucas
na das que cultivam guilty pleasures com tiaras e falsetes
na das que dançam como se estivessem na lama de woodstock ao som de andróginos decadentes
na das que são capazes de alimentar a alma durante dias apenas com um verso que ficou na cabeça em rodapé

podes por-me na gaveta das que se sentem em casa dentro de bibliotecas de ironia
na das que usam o sarcasmo como rímel e trocadilhos maliciosos como batom
na das que se apaixonam por tacões mais facilmente do que por pessoas apaixonantes
na das que investem na “embalagem” pelo gozo que a futilidade do processo lhes dá

podes por-me na gaveta das que têm um lado lunar à flor da pele
na das que sonham com caveiras e com veludo gótico coçado e renda preta impertinente
na das que rugem e mostram as unhas quando o ninho é ameaçado
na das que têm gozo em espezinhar quem se entende como legítimo dono de terceiros

podes por-me na gaveta que quiseres.
mesmo
a sério
não faz diferença
só faz diferença se perceberes que precisas de uma gaveta só para mim
só faz diferença se fores capaz de perceber que queres uma gaveta só para mim
só faz diferença se fores capaz de perceber que só faz diferença se, para ti, for óbvio que eu quero uma gaveta só para mim

oh captain, my captain!

o dia acordou cinzento, a teimar na possibilidade de chuva. eu acordei com sol no coração, mas logo absorvi nuvens mais escuras e densas que as do céu.
e chovi. e chovi. e voltei a chover.
reação aquosa imprevista mas não imprevisível. incontornável perante nuvens carregadas de um coração triste e também ele carregado.

hoje perdi (sim, primeira pessoal do singular. estou a falar de mim) uma das pessoas mais inspiradoras que me é possível conceber. as gargalhadas, claro. mas mais do que isso. muito mais do que isso. o espírito livre, indomável e sedento de verdade inconveniente. o gozo de ter o poder chocar apenas com a arrogância da transparência do discurso, das intenções.

e perdi-o de uma forma que não tem como cicatrizar. perdi alguém que era combustível para a minha nave espacial. alguém que, mesmo sem partilhar o meu espaço, me fez sentir abraçada e “normal” tantas e tantas vezes.

e perdi-o porque, de certo modo, ele estava perdido de si próprio, da sua grandiosidade e até da sua humanidade. perdi-o porque estava mergulhado numa tristeza que não tenho a presunção de achar que consigo compreender.

e não tem retorno. e volto a chover. e só consigo pensar nos xis que teria para lhe dar. e chovo.
resta-me partilhá-lo com o príncipe do caos. e chover. pelo que consigo colocar em palavras. e chover. pelo que apenas tem forma de nuvem negra dentro de mim.

obrigada.

gosto de coisas fáceis

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gosto do calor do sol na minha pele
gosto da areia debaixo da toalha a moldar-se aos meus movimentos
de protetor solar com brilho e dos óculos de sol cor de rosa
da playlist ‘sun of a beach’

gosto de parcerias sem hora marcada e que se alimentam de cumplicidade
de espaços onde não é permitida a conversa de circunstância
do silêncio com capacidade de abraçar
gosto do silêncio que preenche os intervalos com gelado de chocolate e caramelo

gosto de conversas divergentes, de diálogos anarcas
de trocas de cromos sem filtros e nem protocolos
gosto de axiomas pessoais e intransmissíveis
e de movimentos de sobrancelhas que substituem palavras

gosto de dentes-de-leão efémeros e de nuvens impacientes
gosto da dose de realidade e história por detrás de uma tatuagem
gosto de quem gosta de beijos no cachaço
gosto de xis, de gargalhadas livres, de mau feitio militante

gosto de coisas fáceis e de gente sem tretas

renda de bilros e technicolor

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há pessoas que passam por nós, quase não param e logo seguem o seu caminho.
há pessoas que passam, seguem e, mais tarde ou mais cedo, regressam. podem voltar a passar de raspão, ficar embora temporariamente ou contribuir de alguma forma para o ninho.
há pessoas que chegam, dão duas de letra, mantêm alguma distância, entretêm-se com questões terceiras mas nunca mais querem partir.

há pessoas que, fruto das circunstâncias, acabam por fazer parte do nosso dia a dia, partilhar momentos doces e momentos agrestes e entrelaçar o seu caminho no nosso. dessas, umas continuam aparentemente por perto mas na realidade são estranhos, outras seguem por estradas paralelas mas abraçam-nos com carinho quando nos cruzamos nas pontes que ligam essas estradas. outras, ainda, ajudam-nos a manter o ninho construído com fibras elásticas e magicamente entrelaçadas.

ao longo do caminho, também aparecem pessoas que se perderam dos seus próprios caminhos. umas convencidas de que, consciente e voluntariamente, iniciaram um caminho alternativo, mais rico e mais promissor, embora estejam simplesmente perdidos. outras que reconhecem que estão perdidas mas decidem aproveitar o momento para conhecer novas paisagens. outras, ainda, que amuam e se sentam na beira da estrada a rogar pragas ao universo enquanto lhe exigem o envio de uma estrela-guia.
entre essas pessoas, as que calham de se cruzar no nosso caminho porque se perderam do seu, há espantalhos com coragem, homens de lata com cérebro e leões com coração.

há caminhos que se entrelaçam como as madeixas que desenham uma trança.
há caminhos que se cruzam obedecendo a uma coreografia como a das marcas deixadas pelas lâminas da patinagem no gelo.
há caminhos que se cruzam em emaranhados de algodão doce.
há caminhos que se cruzam de forma delicada e resistente e criam impressionantes rendas de bilros.

eu gosto de rendas de bilros.
os melhores ninhos são construídos com rendas de bilros.
as melhores rendas de bilros são as que nos mostram que a estrada pode ter muitas cores.
e os melhores ninhos são os que nos dão a segurança de não precisarmos da magia de terceiros, a consciência de que o segredo para voltar ao ninho está nos nossos próprios pés.

ela

legos e magrinhas.
hermanias e tal canal.
bicicleta e joelhos esfolados.
elvis. comanchero. ana faria. etta.
big spender. rosas e verniz vermelho.
lágrimas. gargalhadas. lágrimas envoltas em gargalhadas.
as princesas e o príncipe de caos.
mãos dadas. abraços. xis.
a primeira companheira de dança.
a primeira cabeça que entrou na minha.
aquela que é capaz de ler a minha personalidade em tons e variações de fragrâncias.

não tenho memória da minha vida sem ela. o calendário diz que esse tempo existiu. as histórias familiares contam episódios de revoluções e reviravoltas nas vidas de que a minha vida dependia.
não tenho memória de nada disso. não tenho memória da minha vida sem ela.

a minha cabeça não concebe a minha vida sem ela.
o meu coração também não.

um punhal no coração e o superpoder dos xis

hoje senti um punhal a entrar-me pelo coração adentro. não foi nada de intencional. foi uma circunstância. foi um efeito secundário. foi uma circunstância da treta. foi um efeito secundário do lodo.
desabei. ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo.

hoje desabei porque senti parte de mim negada, rejeitada, violentamente obliterada. é provável que esse sentimento tenha resultado dos hematomas e das cicatrizes, vestígios históricos da constante batalha para evitar que o lodo entre na corrente sanguínea e para eliminar a treta das metáforas diárias. é bem provável.

mas também é certo que sou das que desabam quando os castelos são destruídos, quando sonhos que não sabia que existiam se evaporam, quando potenciais sorrisos se transformam em ficção.
hoje desabei porque, mais uma vez, senti a minha essência a ser rejeitada. apeteceu-me virar costas, fugir, desaparecer. ainda bem que não o fiz.

no entanto…
paradoxalmente…
paradoxalmente, hoje recebi xis que celebram os meus xis. hoje recebi xis que celebram quem eu sou. hoje recebi xis que me fizeram pensar “ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo”. hoje recebi xis que me fizeram sentir que seria uma cretina se virasse costas, se fugisse, se tentasse desaparecer.

hoje adorei receber xis dos que têm o superpoder de me lembrar porque é que sou das que desabam quando os castelos são destruídos, quando sonhos que não sabia que existiam se evaporam, quando potenciais sorrisos se transformam em ficção.

hoje o efeito boomerang dos xis ajudou-me a recordar que também sou das que não têm medo de partir unhas a carregar pedras para construir castelos, das que acreditam que o sonho comanda a vida, das que riem com gargalhadas sonoras e assertivas quando dão por si no meio de um sketch monty python.

hoje foi importante ser das que sabem porque é que não usar rímel nas pestanas de baixo é essencial.