com esse sorriso que trazes para mim…

o meu coração fica maior que a nossa casa.
sou uma chita em plena savana, uma sequoia a espreguiçar-se.
sou o stephen curry depois do triplo da vitória.
o woody depois de o andy o recuperar.
o angry birds ham dunk e o banana kong.

sou o eduardo a esculpir dinossauros.
sou piza de banana e magnum de menta.
sou wolverine, o beast, o magneto e a mystique.
sou o chewbacca, o mr spock e o terminator.
sou andrómeda e uma ya-te-veo.

sou o stephen hawking e a raiz quadrada de nove.
um record do guiness e um texto do sr. pina.
sou a música que pedes para por novamente do início e mais alto.
um sistema circulatório de dragão desenhado por ti.
sou cafuné e beijo-de-fogo-de-artifício.

com esse sorriso que trazes para mim, que atiras na minha direção e que me dedicas com olhos brilhantes de desafio, com esse sorriso eu sou luz.
luz da tua luz.
luz pela tua luz.
luz.

é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança

alguém que ensina que os amigos são para respeitar.
alguém com quem jogar dominó.
alguém que mostra que tudo é mote para rimas.
alguém que partilha a paixão pelo azul.
alguém que, só pela sua presença, lembra que gostar do vermelho não é pecado capital.
alguém com quem fazer beatboxing.
alguém com quem implicar.
alguém que provoca a primeira gargalhada.
alguém com quem chorar.
alguém que embala quando os pesadelos estragam uma bela noite de sono.
alguém que ensina que, na cozinha, o melhor tempero é o carinho.
alguém que ensina a raiz quadrada muito antes do tempo.
alguém que partilha adn.

alguém que vê o potencial e ampara os tropeções do caminho.

alguém que não se deixa ofuscar pelo raciocínio rápido e vê sempre o coração com clareza e em toda a sua amplitude.

tenho saudades de me coçar nos teus espinhos!

… disse-me a alice.

a alice que acredita no poder do chapeleiro e no do seu alter-ego com mãos de tesoura.

a do coração que ri com(o) as crianças que a seguem como se fosse o flautista de hamelin.

a guerreira de alma brilhante e colorida como as asas de uma efémera.

a alice de vestido azul e havaianas que dança com o meu filho enquanto ele se apaixona irremediavelmente.

a minha amiga crente em maravilhas como aquelas que um chocolate faz aquando de um ataque de choro.

a minha alice.
uma maravilha de alice.

e hoje quiseste adormecer na minha cama

7:30 e já estavas acordado.
às 8, decidiste que já tinhas feito a tua parte nesta coisa de me deixares dormir mais um bocado ao domingo de manhã. e vieste acordar-me: “feliz dia da mãe! levanta-te que tenho fome. temos que tomar o pequeno almoço.”
mais uma vez, ocorreu-me que devia deixar-te comida numa taça como se faz com os gatos e os cães. voltei a encafuar essa ideia na gaveta “a experimentar” e exigi um abraço.
“achas que me vou levantar e dar-te de comer sem ter primeiro um xi dos bons?”
deste-me um mono-xi (só com um braço) e anunciaste em tom sério: “tenho que ter cuidado a dar xis porque tenho um dente quase quase a sair e ele pode sangrar.”

…. … …

a caminho do restaurante, o dente saiu.
obviamente, querias que, mesmo a conduzir à chuva, me virasse para trás para ver que fixe que estavas com uma mega garagem resultante da falta de três incisivos.
obviamente, eu também queria ver a mega garagem, mas achei por bem continuar concentrada na estrada molhada. e contentei-me a ouvir o teu novo talento: fazer o som do vento graças à ausência de 75% dos incisivos superiores.

… … …

estacionámos. saíste do carro com o dente na palma da mão aberta para mo mostrares. “já viste bem que fixe? e nem sequer sangrou.”
avisei logo: “isso é para deitar fora, certo?” (cá em casa não há pachorra para fada dos dentes)
“claro”, respondeste, “vou por aqui na terra junto a esta árvore pequenina. assim, o meu adn que está no dente vai para as raízes e, depois, nascem Ds quando a árvore crescer.”
e remataste com o teu olhar “tu dizes que gostas do meu sentido de humor, portanto atura-me”.

… … …

à noite, na hora de vestir o pijama, vieste ter ao meu quarto. “quero sentar-me no teu colo e dar-te um xi porque ainda é dia da mãe e hoje dei-te pouco mimo”.
abraçámo-nos. cheiravas tanto a ti que só me apetecia dar-te beijos. “acho que é hoje que vou comer-te esta bochecha. apetece-me.”
encolheste-te com cócegas. quando voltaste a ficar sério, olhaste-me nos olhos, fizeste um daqueles sorrisos que não cabem na tua cara e aconchegaste-te novamente num abraço apertado.
“sabes, mamã, às vezes, nestes momentos, fico confuso.”
“confuso? como assim?”
“fico confuso porque quero dizer-te que gosto de ti e quero dizer outras coisas mas procuro as palavras e não as encontro.”
“não te preocupes: tu abraças-me e eu percebo tudo.”

… … …

“hoje posso adormecer contigo?”
“queres adormecer comigo na cama do cafuné (na cama de baixo do beliche)?”
“não. quero adormecer contigo na tua cama.”
“mas tu nunca queres dormir na minha cama.”
“hoje quero.”
e assim foi.
a certa altura, levei uma joelhada e encolhi-me. apercebeste-te e tentaste abraçar-me, mas o resultado foi um estaladão no meu pescoço – o son(h)o é quem mais ordena.

“dá-me a mão. só 2 segundos.”

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.

dizem esses tais entendidos que, nas relações entre crescidos, as discussões, a irritação, a mágoa e talvez até a desconfiança devem ter direito a um time out, uma pausa, um intervalo. no dia seguinte, de cabeça fresca (assumindo que dormir foi possível), retoma-se o assunto, sempre no sentido de o resolver com a bênção de ultravioletas e infravermelhos.

não posso afirmar com segurança que, embora concorde com o princípio, o veja como aplicável às idiossincrasias do “até amanhã. dorme bem.” das relações entre crescidos.
honestamente, nem sequer me interessa afirmar ou desafirmar o que quer que seja relativamente a esse contexto.

por outro lado, entendo-me como suficientemente entendida no assunto quando se trata de um “até amanhã. nana bem. sonha com coisas boas que eu vou sonhar com o teu nariz redondo. adoro-te. não te esqueças que és a minha pessoa preferida.”.
(isto da mesma forma que também sou perita em ficar profunda e dramaticamente ofendida quando a criatura sobe para a cama de cima do beliche sem me dar um beijo sonoro e um xi que implique a utilização de ambos os braços.)

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.
nas relações entre crescidos, as idiossincrasias podem, sem dúvida, por em causa o que entendem os entendidos. no entanto, quando há um não-crescido em causa, este princípio torna-se um dogma.

“antes de nanares preciso de te dizer uma coisa: eu sei que vai passar mas eu continuo magoada/triste/aborrecida/… com o que disseste/fizeste. seja como for, não te esqueças que és a minha pessoa preferida e que eu vou nanar muito bem porque vou sonhar com o teu nariz redondo. nana bem e sonha só com coisas boas.” – esta é a minha parte.

“dá-me a mão. só um bocadinho, só 2 segundos para eu adormecer a pensar em ti.” – é o que ele me diz.

e dou-lhe a mão. e é aquele mini-xi que, mesmo que dure apenas os tais 2 segundos, sublinha o que somos um para o outro e põe entre parênteses tudo aquilo que, temporário e ligeiro, nada diz sobre nós.
digo eu… que ainda ando a tentar entender-me no que dizem os entendidos.

o meu caos é luz e é só meu

eu, control freak convicta e inveterada, adoro caos.
a-doro!
do caos nasce a luz, a ordem, o conhecimento. é simultaneamente combustível e comburente. é o princípio, o verbo. é o momento em que tudo ainda é possível. é a promessa das promessas.

o meu caos é o princípio. a promessa. a possibilidade. o prólogo. o meu caos, note-se.
do meu caos trato eu. que cada um trate do seu.

a cada um o seu caos: não precisamos todos das mesmas coisas, muito menos do mesmo caos.
o caos é pessoal e intransmissível.
cada caos deve ser pessoal e intransmissível.
cada um é responsável por garantir que o seu caos é pessoal e intransmissível.

quando o caos deixa de ser pessoal e intransmissível, quando é imposto, herdado ou até oferecido, o caos já não é o potencial daquilo que pode vir a ser, acontecer, existir, concretizar-se.
quando o caos é imposto não é mais do que confusão, nevoeiro, perguntas que não chegam a ser formuladas e, por isso, ficarão irremediavelmente por responder.

o caos pessoal e intransmissível é construtivo, é prólogo de grandes edifícios, é uma explosão de luz.

o caos imposto, herdado ou até oferecido é erosivo, mata possibilidades, aniquila horizontes. o caos impessoal e transmitido é escuro, denso e limita os movimentos.

quando o caos que não é o nosso nos é imposto, é como areias movediças para a alma. aos poucos, desaparecemos. no final, fica só o lodo.

o nosso amor é verde (ou a importância de dar asas à miopia)

image
o nosso amor é verde

… mas um dos teus – daqueles giros, daqueles importantes e que te fazem sorrir, daqueles que são mesmo teus e nada têm de meu – é azul.
o nosso amor é verde. o teu amor é azul.

o tratamento de imagem ajudou a tornar o registo mais real: o verde ficou mais verde, o sol mais quente, o espaço mais amplo.

na verdade, foram os pozinhos de ficção aplicados sobre a realidade da fotografia que acentuaram o realismo da memória.
é como se a criatividade tivesse dado asas à miopia. como se os pozinhos de ficção destilassem o que realmente é para mais tarde recordar.

na base, o cenário do verde fofinho e pintado com carinho com os lápis de cera que tanto detestas.
e, por cima desse cenário de píxeis saturados de verde, o movimento de duas bolas azuis: uma rola colada ao verde; a outra flutua, paralela à primeira. a que vai atrás é a que comanda. a comandada segue à frente.

4 coisas que o meu filho aprende com o meu pai

1. mesmo quando as coisas não fazem sentido, há que não esquecer o que é realmente importante

era meia-noite. o sol brilhava por entre as estrelas. num jardim sem árvores, sentado num banco de pau feito de pedra, um homem nu com uma faca no bolso lia, à luz de uma candeia apagada, um jornal sem letras que dizia:
– ó incas, ó incas, ó sol da arásia, dás-me a tua filha amásia, dá-zi-a?
– não!
– ah, maldito! vais morrer assado num penico de água fria!
– mais vale morrer do que perder a vida.

2. tudo tem uma explicação

– eu ia a subir, o careca-à-vítima vinha a descer. chocámos. o careca-à-vítima estendidinho no chão. juntou-se muita gente, veio a polícia.
– prrrrriiiii! está tudo preso!
– um momento, senhor guarda, eu explico: eu ia a subir, o careca-à-vítima vinha a descer…

3. o pessoal gosta é de festarolas, mas, se não houver alguém que ponha ordem nas coisas, acaba tudo à estalada

era dia de finados e os mortos, muito animados, fizeram uma grande festa. mas, no meio do molho, o esqueleto zarolho levou com um ovo na testa. levantou-se o agredido e, com ar de ofendido, pegou numa tranca mestra; deu tamanha trancada na caveira malcriada que os pôs fora da festa. foi tal o alarido que o coveiro prevenido as veio logo sossegar. e aquelas tais zarucas, que não eram nada malucas, foram-se logo deitar.

4. quando não temos uma resposta decente para dar, mais vale dar uma resposta que ponha fim às perguntas cretinas

[resposta a todas as variações possíveis da pergunta “o que é que estás / vais fazer?”]

colheres de pau!

valha-nos o jon stewart!

hoje, o meu feed do facebook acordou carregadinho de posts sobre o anúncio do jon stewart (sim, também com alguma coisa sobre a uma thurman, mas era o algoritmo — que me conhece melhor do que muita gente que se considera meu amigo — a gozar comigo).
posts em inglês, posts que denotam sentimento de perda e algum receio.

foi bom ler esse sentimento de perda, ler esse receio. não há assim tantas vozes dissonantes que tragam a segurança que só a verdade transmite, que nos tragam a sensação “pelo menos este não é bullshit” que facilmente é extrapolada para “pelo menos este não nos engana”.

foi bom sentir que se reconhece valor ao que essas pessoas trazem, mesmo que o contexto em que passamos os nossos dias só saliente a excecionalidade (o corretor ortográfico queria que eu escrevesse “excentricidade”; é provável que tenha razão) de quem quer viver em verdade.

por outro lado, não deixa de ser assustador sentir o receio. o receio de que se calem as vozes verdadeiras. é assustador sentir que as vozes verdadeiras parecem ser, por definição, de terceiros. é assustador sentir que o receio não é ultrapassado com a certeza de que qualquer voz pode ser verdadeira. com a certeza de que só temos realmente uma voz se ela for verdadeira.

agora, à tarde, o meu feed do facebook já tem posts em português a par com os posts em inglês. agora, à tarde, já não se celebra a voz verdadeira. fala-se usando tempos verbais no passado e faz-se luto. aparentemente, mais uma voz verdadeira se apagou. aparentemente, não há esperança de surgirem outras.

não percebo como é que ser uma voz verdadeira pode ser responsabilidade alheia.

(and i’ll miss you most of all, jon stewart!)