eles andem aí mas nós não temos medo

monstros. monstros por todo o lado. são os zombies, os vampiros e as múmias. mais os ogres, as bruxas e os frankenteins… e ainda os lobisomens. e as medusas… (não nos podemos esquecer das medusas!)

mas nós não temos medo. aliás, nós gostamos deles, quer sejam pegajosos ou fofinhos. quer sejam peças de lego, ilustrações de livros ou o desenho que fizemos há 5 minutos. quer sejam heróis, vilões ou anti-heróis. quer sejam corajosos ou tenham medo de humanos, ou até uns dos outros. quer sejam sanguinários ou vegetarianos.

sim, gostamos deles. e, por regra, não temos medo. não temos medo porque sabemos que não são reais. bem, não é bem assim: dos reais temos medo. mas sabemos que os reais não existem no nosso planeta. nem nos livros nem no cinema. muito menos lá em casa. os reais, os tais monstros de que temos medo (mas são mesmo só esses!), vivem noutro planeta, numa gruta muito escura. e nunca saem de lá. por isso é que podemos dizer, com segurança, que não temos medo de monstros.

mas, pelo sim, pelo não, vamos treinando a construção de prisões de legos. “porque eu sou um gigante invisível e preciso de ter um sítio para prender as coisas que os gigantes invisíveis precisam de prender.”

redondo

“preocupas-te demais. não precisas de saber já para onde vou nem por onde eu vou. são destinos por definir (não tens a ilusão de que vou só para um sítio, pois não?). são estradas ainda por traçar.” e sorri. fico atenta: quero ver se vem aí uma daquelas gargalhadas que normalmente não tenho oportunidade de ver nascer mas apenas já a florir. fica-se pelo sorriso. é um sorriso firme que acaba por fazer um fade out para uma expressão neutra porém redonda. “está tudo bem. eu estou bem. e, quando deixares de te preocupar tanto, vais ser capaz de perceber que tu também estás bem. e se eu estou bem e tu estás bem, nós estamos bem.” e espreguiça-se. lânguido. e redondo. e eu não consigo tirar os meus olhos dos dele. redondos. apoiados pelas bochechas redondas. e, durante alguns segundos, não me preocupo. e sinto-me preenchida por ondas redondas como as que se formam e propagam quando cai uma pedra num lago calmo. “mas não há pedra, pois não?” ele sabe que não, que não há pedra. sabe que só há ondas. ondas redondas que brotam de um epicentro e trotam até à margem. e um arrepio. não sei se ele sabe do arrepio… não deve saber. o arrepio acontece quando a última onda atinge a margem, quando o redondo que toma conta de mim não tem alternativa senão ultrapassar os meus limites. e desaparece. quando a última onda passa a barreira da pele e se evapora. “acho que essa coisa do arrepio não é para mim, eu não tenho limites. eu tenho o superpoder de ter uma pele tão flexível que me permite expandir sempre que quero. e tão inteligente que sabe bem como filtrar o que a atravessa. em ambos os sentidos. é mesmo assim: eu tenho o superpoder de não ter limites.” e faz todo o sentido. ele tem superpoderes. e eu preocupo-me demais. talvez porque sou a primeira testemunha desses superpoderes mas sem a capacidade perceber como é possível ser tão redondo e simultaneamente não ter limites. sim, ele tem superpoderes. é isso: ele tem superpoderes. fico novamente presa nas feições redondas. com esperança de um novo sorriso (e mais ondas). mas não acontece. em vez disso, suspira, puxa o edredão e vira-se para o outro lado. só me resta dar-lhe um beijo na testa e outro nos caracóis, dizer-lhe que é a minha pessoa preferida e pedir-lhe que durma bem e sonhe com dinossauros felizes. encosto a porta e sinto novamente o arrepio sem pedra.