sete

e todos os clichés sobre o tempo passar a correr fazem sentido.
todas as expressões populares sobre as crianças crescerem depressa adquirem um caráter dogmático.
e todos os “está tão crescido” se tornam banais e desnecessários.

e estás crescido. estás sempre crescido. só me lembro de ti crescido.
olho para trás e vejo-te sempre pequeno, sempre a caminho de ficar crescido. mas, quando recordo o que sentia, só tenho recordação de sentir que estás crescido.

estás sempre crescido. dois, três, cinco, sete. sete! estás sempre crescido.
estás sempre a caminho de ficar mais crescido.

e eu tenho um floor seat ticket, assisto a tudo tão de perto que estou quase dentro do campo. vejo tudo de perto, em primeira mão e em hd.
sinto a hesitação durante o drible e o impulso antes do salto. vejo o movimento dos olhos a analisar a posição dos outros jogadores. percebo cada gota de suor, cada expiração frustrada. festejo quando tu festejas. cada ponto marcado por ti faz a minha vitória. cada tentativa falhada também.

vejo-te crescer e cresço contigo. cresço porque é preciso, cresço porque não tenho tenho alternativa, cresço porque tenho que ser capaz de te acompanhar.

sete!
estou crescida. estou capaz de saltos cada vez maiores. estou crescida para ser capaz de saltar contigo.
sete!
se.te!

texto que parece ser sobre o meu filho mas, na verdade, é sobre mim

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

esta semana a minha criança apanhou porque foi ter com crianças mais velhas e disse-lhes que queria jogar futebol. na escola há uma regra: cada ano tem um dia da semana em que pode jogar futebol. e a minha criança foi dizer às outras crianças que queria jogar futebol porque era a vez dele (desde o início do ano ainda não tinha conseguido que lhe deixassem “exercer” o direito de jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele tinha o direito de usufruir do campo de futebol do recreio). resultado: apanhou. a criança corre que se farta, mas nem os ideais de justiça (nitidamente ambiciosos) nem o facto de ser “a pessoa mais veloz do mundo” o livraram de ser apanhado por três crianças. e utilizando a palavra “apanhado” estou a tentar afastar da minha cabeça a imagem do príncipe do caos de 6 anos (que nada tem de frágil) a ser segurado por dois miúdos e a levar um pontapé na barriga de um terceiro (ou uma, talvez).

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira. pelo menos, fisicamente. também não fez grande alarido em relação ao assunto e responde às nossas perguntas num tom que facilmente encaixaria na categoria de “normal”.
mas não faço ideia do que irá fazer ou, melhor, ter coragem de fazer quando voltar a ser segunda feira e ele voltar a querer jogar futebol no dia em que, segundo as regras da escola, ele pode jogar futebol.
não faço ideia se a minha criança vai continuar a achar que faz sentido lutar por aquilo a que tem direito.
não faço ideia se a minha criança vai manter o seu sentido de justiça.

mais: não faço ideia se, mantendo o seu sentido de justiça e coragem para lutar por aquilo a que tem direito, vai chegar ao final do dia fisicamente incólume.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.

voltei a dizer-lhe que não deve bater a ninguém e que, se assistir a alguma injustiça, deve pedir a intervenção de adultos.
perguntei-lhe se também bateu aos outros meninos. disse que tentou correr muito mas quando o apanharam tentou lutar.
pela primeira vez em seis anos e meio, engoli em seco e as palavras “se te baterem, bate também” saíram-me e em tom imperativo. “defende-te” era muito pouco.

falei-lhe novamente dos bullies. disse-lhe que há bullies de todas as idades. disse-lhe que também tenho bullies na minha vida. disse-lhe que os bullies, independentemente da idade, são pessoas que não sabem lidar com as suas próprias emoções, são pessoas tristes e infelizes. disse-lhe que, quando já são crescidos, os bullies até fazem coisas que doem mais do que bater. disse-lhe que não devemos sentir ódio nem raiva pelos bullies. só pena. são tristes, sozinhos, infelizes.
e disse-lhe que vai encontrar bullies pela vida fora. tal como eu.

esta semana a minha criança apanhou.
a criança está porreira.
a mãe não está.
a vontade de esmagar crânios contra paredes já passou.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo que o meu filho seja vencido pelo cansaço. ou pela porrada.
ainda não passou a vontade de chorar pelo medo de não ser capaz de ajudar o meu filho a crescer sem deixar que os bullies lhe destruam o espírito.

a vontade de chorar ainda não passou porque a frase “o meu filho não tem culpa de ter a mãe que tem” está a dar luta e recusa-se a sair da minha cabeça.

sinto-me perdida…

… quando há lágrimas nos teus olhos não porque fizeste asneiras mas porque sabes que vou ficar triste.

… quando me abraças para pedir desculpa por algo que nem me apercebi que fizeste.

… quando dizes que és a criança mais sortuda do mundo porque pedi um ovo estrelado para ti porque sei que adoras ovos estrelados.

… quando dizes que não há razão para eu me preocupar porque vais estar por perto se um elástico de alguma das minhas pulseiras rebentar e for preciso consertá-la.

… quando te peço para parares de assobiar (porque me sinto a ficar louca) e me respondes “tens que perceber que assobio porque estou feliz”.

… quando, antes de adormeceres, me dizes que é claro que vais dormir bem porque sabes que te adoro.

… quando sinto que os meus porques são absolutamente ridículos ao pé dos porques de quem diz “eu quero o que eu quero porque é o que eu quero que eu quero”.

… quando sinto que os teus porques fazem mais sentido do que os meus.

doce preocupação agridoce

preocupo-me quando cais e esfolas os joelhos.
preocupo-me quando não consigo disfarçar que me preocupo quando esfolas os joelhos.
preocupa-me que algo tão inócuo como joelhos esfolados seja uma preocupação para ti.
preocupa-me a tua eventual preocupação com joelhos esfolados te iniba de correr e subir às árvores.

preocupo-me quando olho para ti e pareces ter ficado um ano mais velho de ontem para hoje.
preocupo-me quando não consigo disfarçar o meu sorriso e o meu orgulho por estares tão crescido.
preocupa-me a possibilidade de o meu sorriso orgulhoso te incentivar a querer crescer ainda mais depressa.
preocupa-me que crescer faça de ti um crescido, um daqueles crescidos que já se esqueceram que foram crianças.

preocupo-me quando penso que a tua vida está em vias de dar um salto.
preocupa-me que o ponto de chegada do teu salto seja agreste e te faça querer fugir de volta para o ponto de partida.
preocupa-me a possibilidade de aterrares num local que te faça sentir estrangeiro… e estranho.
preocupa-me que percas de vista que a coragem de quem tem feito cadeirinha para poderes dar esse salto é uma coragem contagiosa e que, num belo efeito boomerang, partiu de ti e retorna sempre a ti.

esta é a preocupação doce.
é uma preocupação soalheira.
é uma preocupação que faz parte de uma delicada renda de bilros guarnecida com sorrisos e abraços e cafuné. e, sim, também castigos, ralhetes e lágrimas redondas.
mas nunca deixa de ser uma preocupação doce e soalheira. a mais doce que conheço. a que me faz ser mais gulosa do que já sou.

o problema é o outro tipo de preocupação. aquela que faz sentir que o universo está em desequilíbrio.
aquela que tira o chão.
aquela que faz com que o céu desabe sobre a cabeça.
a preocupação sem saber quais são as verdadeiras razões para estar preocupada.
a preocupação perante a possibilidade de, depois de o chão desaparecer, cair num rio de lava furiosa.
a preocupação perante a incerteza de que mais poderá chover depois do desabamento celeste.
a preocupação que me faz sentir minúscula, inapta, incompetente.
esta é a preocupação amarga, azeda, acre.

desde que passaste a existir, vivo preocupada.
é agridoce, mas não deixa de ser doce. muito muito muito doce.
não trocava a minha preocupação por nada.
não trocava a minha preocupação agridoce por nada. nada.

 

seis da manhã, ei!

acordas-me para vires dormir para a minha cama. chego-me para o lado mais frio e dou-te uma almofada. levo com um cotovelo no olho e um joelho na barriga. mesmo a dormir, a tua mão procura a minha. ressonas. encostamos a testa um ao outro e expiras para a minha cara. viras-te para lá e, desta vez, levo com o cotovelo na boca. o despertador ainda não tocou mas eu sei que já não volto a adormecer. o teu calcanhar espeta-se na minha anca. a tua respiração enche o meu quarto. a tua respiração enche a minha alma. a tua respiração dá-me paz. enquanto quiseres vir dormir para a minha cama, roncar ao meu ouvido e dar-me com o cotovelo na cara, eu sei que está tudo bem. eu sei que nós estamos bem. e o mundo pode estar do avesso, mas, se tu vieres dormir para a minha cama, eu posso bem com o mundo.

a outra mãe do meu filho

a outra mãe do meu filho diverte-se tanto a ensinar como a aprender.
a outra mãe do meu filho leva tão a sério a necessidade de aprender como a de ensinar.

a outra mãe do meu filho consegue olhar para ele e ver, por dentro do crânio camuflado pelos caracóis, um cérebro a ser alimentado pela energia que a hemoglobina, cuidadosa mas apressadamente, traz do coração.
a outra mãe do meu filho consegue olhar para ele e ver, por detrás dos caracóis, um cérebro alimentado pelo coração.
a outra mãe do meu filho consegue ver o fogo de artifício das sinapses e as luzes coloridas a formarem hulks, t-rexs, bonecos de neve e letras e frases e histórias.

a outra mãe do meu filho fica com o coração apertado quando ele está com o coração apertado, quando eu ou o pai dele estamos com o coração apertado.
a outra mãe do meu filho fica com o coração apertado quando precisa de nos dizer alguma coisa que vai fazer com que o nosso coração fique apertado.
o coração da outra mãe do meu filho dá gargalhadas quando o meu filho dá gargalhadas.

a outra mãe do meu filho vai ficar para sempre no meu coração, porque a outra mãe do meu filho ajuda-me a ser uma mãe melhor e, acima de tudo, está a ajudar-me a construir um ser um humano de primeira categoria.

obrigada, B.
um mega-xi!

deixa-me.tirar-te.fotografias

para com isso! deixa-me tirar-te fotografias.
és um ranhoso. és mesmo ranhoso.
podia dizer-te que um dia vais querer fotografias tuas aos 5 anos e não vais ter nenhuma de jeito, mas esse argumento é tão foleiro como tu és ranhoso.

eu quero tirar-te fotografias.
eu quero colecionar os teus sorrisos todos.
eu quero colocar em pausa o teu ar de desafio para que continue a desconcertar-me mesmo depois de virares costas e ires brincar com os monstros do ben 10.
eu quero capturar frames épicas da tua magnífica naturalidade, quer seja a olhar pela janela ou a subir árvores.

para de ser ranhoso e deixa-me tirar-te as fotografias que eu quero tirar.

eu tenho um sonho

eu tenho um sonho.
no meu sonho, o meu filho cresce e torna-se adulto numa sociedade em que não é importante ser grande ou pequeno, porque todos têm a mesma oportunidade de desenhar o seu próprio horizonte.

no meu sonho, ninguém julga ninguém por questões de genética, preferências nem aparência. e já se esqueceram que, em tempos, havia quem se julgasse no direito de julgar os outros por questões de genética, preferências e aparência.

no meu sonho, as mulheres são rainhas e não princesas e nenhuma delas está à espera de um príncipe que a salve, que assuma a responsabilidade pela felicidade dela nem que, com a sua chegada montado num cavalo branco, anuncie o início da sua vida.

no meu sonho, os homens não se esquecem que as mulheres são mães, irmãs e filhas de alguém. mas, acima de tudo, não se esquecem de tudo o resto que elas são capazes de ser, muito menos da capacidade que têm de os ajudar a ser mais e melhores.

no meu sonho, as pessoas ficam inseguras quando suspeitam que alguém não foi totalmente honesto com elas. as pessoas ficam confiantes quando estão rodeadas de pessoas honestas, francas e transparentes, mesmo sabendo que vão ouvir, saber, ver coisas que não lhes vão agradar.

no meu sonho, as pessoas querem evoluir em vez de parecerem evoluídas. querem ter sorrisos honestos e não apenas dentes brancos e alinhados. querem aprender, aprender sempre, aprender com tudo e com todos.

no meu sonho, o meu filho pode ser quem quiser, gostar livremente, querer com o coração, brincar até morrer.

a-do-ro!

adoro quando pões as tuas pernas em cima das minhas quando estamos a ver televisão (porque eu faço parte do teu território e porque partilhar coisas havendo contacto físico é bem melhor).

adoro quando te digo que estás a ser ranhoso (porque és) e me respondes “achas?” (porque sabes que és e sabes que és ranhoso como eu sou ranhosa).

adoro quando adormeço na tua cama (porque, agora, eu é que preciso de, de vez em quando, adormecer de mão dada contigo) e acordo com dores por todo o lado (porque… enfim… a cama é tua e devia ser só para ti).

adoro quando perguntas “posso dizer uma coisa?” (porque queres portar-te bem) e não esperas por resposta para começar a falar (porque dizer coisas é mais importante do que assegurar que os outros as querem ouvir).

adoro quando só me deixas ler a minha história preferida quando eu não te peço para escolheres essa (porque és ranhoso e gostas de mandar).

adoro quando danças com ar compenetrado e como se fosse a coisa mais séria do mundo (porque és “profissional” e porque sabes que eu sei que, por dentro, só tens sorrisos).

adoro quando lês, à primeira, palavras que eu não sei que tu sabes (porque gosto de não saber coisas sobre ti e gosto que me ensines “de fininho”).

adoro quando dizes à cabeleireira “quero ficar careca” e a convences a, contra a vontade dela, espalhar os teus caracóis pelo chão com um dramático pente 4 (porque sabes que toda a gente adora os teus caracóis e gostas de lembrar que são teus e de mais ninguém).

adoro quando me pedes para pôr a mesma música que andamos a ouvir em repeat há mais de uma semana (porque  está mesmo no ponto para fazeres playback).

adoro quando me perguntas “gostas da música dos aviões?” com ar de gozo (porque sabes que a música me irrita e que fico à espera que a cantes de seguida porque sei que gostas de me irritar).

adoro quando me deixas sem resposta (porque tenho a mania que tenho sempre respostas e gosto que me proves que estou enganada).

adoro quando me dizes que gostas de mim só porque sim (porque sinto que o fazes apenas porque precisas de o dizer… em oposição às vezes em que o fazes porque queres coisas).

adoro quando me dás a mão sem eu te ter que estender a minha (porque somos assim, gente que anda na rua de mão dada com gente de quem gosta, tal como ainda hoje — aos 39 — faço com o meu pai).

adoro quando me lembras que não queres saber se te acham diferente, estranho, peculiar ou que tens algo de errado (porque, obviamente, és estranha e peculiarmente perfeito).

adoro ver-te dormir. porque és lindo. porque és redondo. porque todos os teus traços transmitem paz. porque me fazes sentir que tudo está bem, que as coisas batem certo e o mundo faz sentido, que não me estou a espalhar ao comprido. porque me fazes sentir orgulhosa e especial por ser 100% tua.