e eu nas nuvens…

na segunda de manhã, deixei-te na escola.
como se tornou hábito, despedes-te de mim junto ao carro e de costas para a escola (para não haver “público”) com o mesmo beijo nos lábios que me dás desde que aprendeste a dar beijos (na altura só davas beijos nos lábios, mas, agora que já aprendeste a lidar com o desconforto de quem não sabe o que fazer com os teus beijos mais puros, só eu é que ainda tenho direito a eles).

na segunda de manhã, deixei-te na escola.
“tem um bom dia!”, “diverte-te!”, “não dês cabo da cabeça à professora!”, “come o lanche antes de ires a correr para o recreio!”, “adoro-te, totó ranhoso!”

na quarta à noite, voltas.
as novidades sobre os discos voadores dos angry birds são mais urgentes do que o beijo e o xi. entras a debitar as novidades e passas por mim para pousar a mochila e ver se há algo se interessante na sala e na cozinha. voltas à porta para o triunvirato beijo + xi + “adoro-te”. e vais para o teu quarto buscar a bola para treinares os triplos usando o espaço entre a porta da sala e a parede como cesto.

na quarta à noite, voltas.
abro a porta e os teus caracóis estão mais perto dos meus olhos. no meu cérebro, a palavra “altura” funde-se com “altitude”. não sei como é que cresces tanto em três dias. só sei que é um facto: cresces muito em três dias. cresces muito em três dias sem nos vermos.

na segunda de manhã, deixei-te na escola.
na quarta à noite, voltas.
em três dias, os teus caracóis ficam mais próximos dos meus, os teus olhos mais próximos dos meus. ainda te esticas para me dar um beijo nos lábios, mas isso é só porque eu estou nas nuvens.

sobre ti que tens 8 anos, sobre mim que tenho 42

Tivesse eu celestes véus bordados,
Ornados com luz de ouro e de prata,
Os azuis, os pálidos e os escuros véus
Da noite, da luz e do crepúsculo,
Estendê-los-ia a teus pés.
Mas, sendo eu pobre, tenho apenas os meus sonhos
E estendi-os a teus pés.
Caminha, pois, com cuidado: é sobre os meus sonhos que caminhas.

o original é do xor W. B. Yeats. a tradução é minha.

a inspiração, essa, veio da segunda TED Talk do Sir Ken Robinson:

And every day, everywhere, our children spread their dreams beneath our feet. And we should tread softly.
~ diz ele.

Todos os dias, em todo o lado, as nossas crianças estendem os seus sonhos aos nossos pés. E nós temos que caminhar com cuidado.
~ digo eu.

 

com esse sorriso que trazes para mim…

o meu coração fica maior que a nossa casa.
sou uma chita em plena savana, uma sequoia a espreguiçar-se.
sou o stephen curry depois do triplo da vitória.
o woody depois de o andy o recuperar.
o angry birds ham dunk e o banana kong.

sou o eduardo a esculpir dinossauros.
sou piza de banana e magnum de menta.
sou wolverine, o beast, o magneto e a mystique.
sou o chewbacca, o mr spock e o terminator.
sou andrómeda e uma ya-te-veo.

sou o stephen hawking e a raiz quadrada de nove.
um record do guiness e um texto do sr. pina.
sou a música que pedes para por novamente do início e mais alto.
um sistema circulatório de dragão desenhado por ti.
sou cafuné e beijo-de-fogo-de-artifício.

com esse sorriso que trazes para mim, que atiras na minha direção e que me dedicas com olhos brilhantes de desafio, com esse sorriso eu sou luz.
luz da tua luz.
luz pela tua luz.
luz.

é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança

alguém que ensina que os amigos são para respeitar.
alguém com quem jogar dominó.
alguém que mostra que tudo é mote para rimas.
alguém que partilha a paixão pelo azul.
alguém que, só pela sua presença, lembra que gostar do vermelho não é pecado capital.
alguém com quem fazer beatboxing.
alguém com quem implicar.
alguém que provoca a primeira gargalhada.
alguém com quem chorar.
alguém que embala quando os pesadelos estragam uma bela noite de sono.
alguém que ensina que, na cozinha, o melhor tempero é o carinho.
alguém que ensina a raiz quadrada muito antes do tempo.
alguém que partilha adn.

alguém que vê o potencial e ampara os tropeções do caminho.

alguém que não se deixa ofuscar pelo raciocínio rápido e vê sempre o coração com clareza e em toda a sua amplitude.

kal-el

o nome dele é kal-el.
melhor: o verdadeiro nome dele é kal-el.
mas só na sua terra natal, só na sua origem, no seu berço, na sua génese, no seu adn é que o seu nome é kal-el.

fora daí, no seio da humanidade, assume um nome banal, uma identidade banal. no seio da humanidade, não pode ser aquele cuja força vem do sol, não pode ser aquele que, forçado pelo compromisso com os seus próprios valores e integridade, enfrenta desafios messiânicos.

fora do berço, da génese, flutuando sobre a humanidade, aceita o folclore dos nomes que lhe atribuem, pois sob a capa do folclore pode voltar a ser um pouco kal-el – embora nunca o possa dizer.
sob a capa do folclore é rápido, invencível, magnífico e possuidor da força necessária para transformar um pedaço de carvão em diamante.
sob a capa do folclore, pode voltar a ser kal-el, mas um kal-el com poderes superiores aos que teria no berço, na génese.
sob a capa do folclore, é especial, único, o derradeiro protetor.

sem a capa do folclore, sobrevive atrás da banalidade.
sem a capa do folclore, não se pode dar ao luxo de ser kal-el.
para ser “normal”, nunca poderá ser kal-el. para ser “normal”, tem que usar a máscara de mero humano. para ter lugar no seio da humanidade, kal-el tem que ser banal.
para ser aceite, não pode ser único, muito menos ser íntegro e comprometer-se com os seu valores.

kal-el não pode ser kal-el se quiser fazer parte do mundo onde vive.
para fazer parte desse mundo, da tal humanidade, kal-el tem que ser banal, tem que esconder a força do sol amarelo atrás de uma máscara de banalidade.

kal-el tem que ser menos. tudo porque não pode voltar para casa, porque não pode voltar à génese, porque não pode voltar para onde o seu adn é normal.

kal-el.
o seu verdadeiro nome é kal-el.

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e hoje quiseste adormecer na minha cama

7:30 e já estavas acordado.
às 8, decidiste que já tinhas feito a tua parte nesta coisa de me deixares dormir mais um bocado ao domingo de manhã. e vieste acordar-me: “feliz dia da mãe! levanta-te que tenho fome. temos que tomar o pequeno almoço.”
mais uma vez, ocorreu-me que devia deixar-te comida numa taça como se faz com os gatos e os cães. voltei a encafuar essa ideia na gaveta “a experimentar” e exigi um abraço.
“achas que me vou levantar e dar-te de comer sem ter primeiro um xi dos bons?”
deste-me um mono-xi (só com um braço) e anunciaste em tom sério: “tenho que ter cuidado a dar xis porque tenho um dente quase quase a sair e ele pode sangrar.”

…. … …

a caminho do restaurante, o dente saiu.
obviamente, querias que, mesmo a conduzir à chuva, me virasse para trás para ver que fixe que estavas com uma mega garagem resultante da falta de três incisivos.
obviamente, eu também queria ver a mega garagem, mas achei por bem continuar concentrada na estrada molhada. e contentei-me a ouvir o teu novo talento: fazer o som do vento graças à ausência de 75% dos incisivos superiores.

… … …

estacionámos. saíste do carro com o dente na palma da mão aberta para mo mostrares. “já viste bem que fixe? e nem sequer sangrou.”
avisei logo: “isso é para deitar fora, certo?” (cá em casa não há pachorra para fada dos dentes)
“claro”, respondeste, “vou por aqui na terra junto a esta árvore pequenina. assim, o meu adn que está no dente vai para as raízes e, depois, nascem Ds quando a árvore crescer.”
e remataste com o teu olhar “tu dizes que gostas do meu sentido de humor, portanto atura-me”.

… … …

à noite, na hora de vestir o pijama, vieste ter ao meu quarto. “quero sentar-me no teu colo e dar-te um xi porque ainda é dia da mãe e hoje dei-te pouco mimo”.
abraçámo-nos. cheiravas tanto a ti que só me apetecia dar-te beijos. “acho que é hoje que vou comer-te esta bochecha. apetece-me.”
encolheste-te com cócegas. quando voltaste a ficar sério, olhaste-me nos olhos, fizeste um daqueles sorrisos que não cabem na tua cara e aconchegaste-te novamente num abraço apertado.
“sabes, mamã, às vezes, nestes momentos, fico confuso.”
“confuso? como assim?”
“fico confuso porque quero dizer-te que gosto de ti e quero dizer outras coisas mas procuro as palavras e não as encontro.”
“não te preocupes: tu abraças-me e eu percebo tudo.”

… … …

“hoje posso adormecer contigo?”
“queres adormecer comigo na cama do cafuné (na cama de baixo do beliche)?”
“não. quero adormecer contigo na tua cama.”
“mas tu nunca queres dormir na minha cama.”
“hoje quero.”
e assim foi.
a certa altura, levei uma joelhada e encolhi-me. apercebeste-te e tentaste abraçar-me, mas o resultado foi um estaladão no meu pescoço – o son(h)o é quem mais ordena.

“dá-me a mão. só 2 segundos.”

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.

dizem esses tais entendidos que, nas relações entre crescidos, as discussões, a irritação, a mágoa e talvez até a desconfiança devem ter direito a um time out, uma pausa, um intervalo. no dia seguinte, de cabeça fresca (assumindo que dormir foi possível), retoma-se o assunto, sempre no sentido de o resolver com a bênção de ultravioletas e infravermelhos.

não posso afirmar com segurança que, embora concorde com o princípio, o veja como aplicável às idiossincrasias do “até amanhã. dorme bem.” das relações entre crescidos.
honestamente, nem sequer me interessa afirmar ou desafirmar o que quer que seja relativamente a esse contexto.

por outro lado, entendo-me como suficientemente entendida no assunto quando se trata de um “até amanhã. nana bem. sonha com coisas boas que eu vou sonhar com o teu nariz redondo. adoro-te. não te esqueças que és a minha pessoa preferida.”.
(isto da mesma forma que também sou perita em ficar profunda e dramaticamente ofendida quando a criatura sobe para a cama de cima do beliche sem me dar um beijo sonoro e um xi que implique a utilização de ambos os braços.)

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.
nas relações entre crescidos, as idiossincrasias podem, sem dúvida, por em causa o que entendem os entendidos. no entanto, quando há um não-crescido em causa, este princípio torna-se um dogma.

“antes de nanares preciso de te dizer uma coisa: eu sei que vai passar mas eu continuo magoada/triste/aborrecida/… com o que disseste/fizeste. seja como for, não te esqueças que és a minha pessoa preferida e que eu vou nanar muito bem porque vou sonhar com o teu nariz redondo. nana bem e sonha só com coisas boas.” – esta é a minha parte.

“dá-me a mão. só um bocadinho, só 2 segundos para eu adormecer a pensar em ti.” – é o que ele me diz.

e dou-lhe a mão. e é aquele mini-xi que, mesmo que dure apenas os tais 2 segundos, sublinha o que somos um para o outro e põe entre parênteses tudo aquilo que, temporário e ligeiro, nada diz sobre nós.
digo eu… que ainda ando a tentar entender-me no que dizem os entendidos.

em tempos, tive um projeto que foi como um filho. mutilaram-no

2004. tudo era novo. havia sonhos, expectativas, cuidados a ter, muita insegurança. havia, acima de tudo, uma fé imensa no valor e o potencial do que seria esse filho. era quase uma espécie de messias: o seu principal propósito era fazer as pessoas melhores, mais felizes, mais mais.
e, como se isso não chegasse, essas pessoas que íamos ajudar a serem melhores, mais felizes, mais mais, essas pessoas eram crianças.
ouro sobre azul, portanto.

grande responsabilidade e grande privilégio. muito trabalho, muito estudo, muito trabalho em equipa-família.
a cada passo, sustínhamos a respiração.
a cada passo, celebrávamos, mesmo quando o resultado não era bom – a cada passo, celebrávamos, porque, a cada passo, aprendíamos.

aprendíamos a ensinar. aprendíamos a usar um meio novo – o digital – para ensinar que, para aprender, o sonho deve ser uma constante. aprendíamos a criar estratégias para ensinar que errando também se aprende e que o que não pode faltar é vontade e coragem para tentar.

tentar, experimentar, explorar, aprender, ser autónomo. aprender com autonomia e aprender a deixar os números, as letras, os ossos, os triângulos e as esdrúxulas entrar no país das maravilhas.
aprender sem precisar de ter um adulto por perto para ditar certos e errados, para impor conceitos artificiais de normalidade.

escusado será dizer que o resultado não esteve – nunca estaria! – à altura do sonho. o sonho era tudo. simplesmente tudo. o resultado não foi tudo, mas foi muito. e o orgulho também. muito. muito mesmo.

tudo isto passou-se antes de a minha alma de mãe decidir que estava na hora de encomendar o príncipe do caos. e até o príncipe do caos ter idade para aprender com “o meu filho mais velho” passaram-se anos. o mais velho saiu das mãos da equipa-família. foi preciso adequá-lo a novas “circunstâncias”. os sonhos messiânicos de quem o criou deixaram de ser relevantes, a família deixou de ser relevante. o projeto já não era um filho para quem o tinha nos braços, era um conjunto de tarefas, de post-its, de listas a precisar de vistos.
(…)

hoje (30.março.2015), o meu príncipe do caos está a brincar com “o mais velho”. não posso dizer que não esteja a divertir-se. está e tenho a certeza que vai querer repetir. e vai chatear-me muitas vezes para repetir (e eu vou deixar, claro.)

no entanto, não me falta vontade de chorar, porque de cada vez que a criança (caracterizada por muitos como “cognitivamente acima da média”) me pede ajuda porque não percebe o que deve fazer e eu reconheço imediatamente o que é que não teve honras de fazer parte da lista de tarefas (e existia no sonho da equipa-família).

o meu projeto-filho foi mutilado. e o meu filho-filho não vai ter oportunidade de usufruir do que foi criado a pensar em crianças como ele. o príncipe do caos só vai conhecer a versão lobotomizada.

o nosso amor é verde (ou a importância de dar asas à miopia)

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o nosso amor é verde

… mas um dos teus – daqueles giros, daqueles importantes e que te fazem sorrir, daqueles que são mesmo teus e nada têm de meu – é azul.
o nosso amor é verde. o teu amor é azul.

o tratamento de imagem ajudou a tornar o registo mais real: o verde ficou mais verde, o sol mais quente, o espaço mais amplo.

na verdade, foram os pozinhos de ficção aplicados sobre a realidade da fotografia que acentuaram o realismo da memória.
é como se a criatividade tivesse dado asas à miopia. como se os pozinhos de ficção destilassem o que realmente é para mais tarde recordar.

na base, o cenário do verde fofinho e pintado com carinho com os lápis de cera que tanto detestas.
e, por cima desse cenário de píxeis saturados de verde, o movimento de duas bolas azuis: uma rola colada ao verde; a outra flutua, paralela à primeira. a que vai atrás é a que comanda. a comandada segue à frente.

4 coisas que o meu filho aprende com o meu pai

1. mesmo quando as coisas não fazem sentido, há que não esquecer o que é realmente importante

era meia-noite. o sol brilhava por entre as estrelas. num jardim sem árvores, sentado num banco de pau feito de pedra, um homem nu com uma faca no bolso lia, à luz de uma candeia apagada, um jornal sem letras que dizia:
– ó incas, ó incas, ó sol da arásia, dás-me a tua filha amásia, dá-zi-a?
– não!
– ah, maldito! vais morrer assado num penico de água fria!
– mais vale morrer do que perder a vida.

2. tudo tem uma explicação

– eu ia a subir, o careca-à-vítima vinha a descer. chocámos. o careca-à-vítima estendidinho no chão. juntou-se muita gente, veio a polícia.
– prrrrriiiii! está tudo preso!
– um momento, senhor guarda, eu explico: eu ia a subir, o careca-à-vítima vinha a descer…

3. o pessoal gosta é de festarolas, mas, se não houver alguém que ponha ordem nas coisas, acaba tudo à estalada

era dia de finados e os mortos, muito animados, fizeram uma grande festa. mas, no meio do molho, o esqueleto zarolho levou com um ovo na testa. levantou-se o agredido e, com ar de ofendido, pegou numa tranca mestra; deu tamanha trancada na caveira malcriada que os pôs fora da festa. foi tal o alarido que o coveiro prevenido as veio logo sossegar. e aquelas tais zarucas, que não eram nada malucas, foram-se logo deitar.

4. quando não temos uma resposta decente para dar, mais vale dar uma resposta que ponha fim às perguntas cretinas

[resposta a todas as variações possíveis da pergunta “o que é que estás / vais fazer?”]

colheres de pau!