Um Vampiro no centro de saúde

Boa tarde. Acho que chamaram o B-314, e é a minha senha. Eu vinha levantar uma receita. O meu nome é Vladimir dos Cárpatos e sou reformado (há uns bons 750 anos!). A minha médica é a Doutora Ludmila e foi ela que me telefonou a avisar que podia vir buscar a receita.

É que, com a idade, tornei-me intolerante a sangue humano. É terrível, fico com a pele rosada e com um ar saudável muito estranho. E fico tão bem disposto que nem sequer me atrevo a sair à rua. Já experimentei de tudo. Cheguei a fazer um tratamento que estava a ter excelentes resultados com vários tipos de mortos-vivos; era com injeções de sangue O negativo, sangue de doador universal. Consultei vários especialistas e todos me diziam que era adequado para mim. Mas, não sei porquê, não resultou, pois eu acordava cheio de energia e com vontade de apanhar sol. Nem me quero lembrar, foram tempos difíceis.

Entretanto, a minha vizinha do 3.º esquerdo sugeriu-me uma consulta de medicina alternativa. Eu estava tão desesperado que fui. Foi uma desgraça, espetaram-me uma série de agulhas e, como estou morto, a minha pele não cicatriza e fiquei todo picotado.

Mas, pronto, agora ando a tomar estas ampolas de sangue artificial. É prático porque tomo só uma por dia dissolvida em água. Incomoda-me o agradável sabor a morango, contudo não me posso queixar, porque voltei ao normal. Agora acordo sempre muito pálido e ando o dia todo a arrastar-me por lugares sombrios. Só espero que não tenha efeitos secundários: não me dava jeito nenhum que o sangue artificial me curasse a úlcera.

Xenomorfo impaciente

Já atravessei o universo, conheço centenas de galáxias e milhares de planetas. Cruzei-me com as criaturas mais diversas, encontrei as formas de vida mais estranhas e deparei-me com os sistemas mais improváveis. Observei o nascimento de novas sociedades, assisti à evolução de grandes populações e analisei a ruína de imensas civilizações.

Já participei em inúmeras expedições para fundar novas colónias, ocupar novos mundos e conquistar novos territórios. Tenho ordens para cumprir e obedeço à nossa magnífica e inteligentíssima rainha, mas tenho um espírito curioso. Por isso, sempre tentei perceber a vida, a organização e até os sonhos dos seres que se tornariam então nossos escravos (por muito inferiores que sejam).

Nunca conheci nada que se comparasse com os seres humanos, o homo sapiens sapiens. Que criaturas estranhas, irritantes e tão pouco inteligentes!

Assim que nos veem, gritam de susto e de terror e correm de um lado para o outro, o que é uma reacção normal, pois somos, de facto, assustadores e terríficos. No entanto, logo a seguir, têm a insolência de pegar nos seus telemóveis para nos tirarem fotografias – dizem que é para para mostrar aos amigos e colocar nas suas páginas da internet. Mal eles sabem o que os espera… Humanos ridículos!

A mãe pássaro Roca

Parecia que ia ser um dia normal. Estava sol e quase não havia vento. Era verão mas não estava demasiado quente.

Eu já tinha dado o pequeno-almoço aos meus filhotes. Ainda passavam a maior parte do tempo no ninho mas já começavam a tentar voar. Eu, emocionada, observava-os enquanto brincavam com dois ou três arbustos que tinham arrancado (tinham nascido apenas há uns dias e já eram do tamanho de vacas; os miúdos agora crescem tão depressa…).

A certa altura, ouvi o som de um motor. Era um barco – minúsculo – que se aproximava da praia. Dele saíram dois humanos – ainda mais minúsculos – e começaram a caminhar na minha direção. Eu não estava com paciência para aturar desconhecidos e, para além disso, estava entretidíssima com as minhas crianças (tão fofas!).

– Desculpe. Nós estamos à procura de um pássaro Roca. Sabe dizer-nos onde podemos encontrar um pássaro Roca? – disse uma voz fraquinha e aguda. Apeteceu-me fazer de conta que não tinha ouvido, mas os meus filhos estavam a ver e não era esse o exemplo que lhes queria dar. Por outro lado, apetecia-me brincar com a situação: até o meu mais novo olhou para mim com ar de “Mas nós somos pássaros Roca…”.

– Bom dia. Estão à procura de um pássaro quê?

– De um pássaro Roca. É uma criatura fantástica, segundo dizem. É tão grande que até consegue transportar vacas com as suas garras.

Os meus filhos riram-se e aproximaram-se daqueles seres pequeninos. Os seres pequeninos assustaram-se, pois os meus filhotes eram maiores do que eles. Pensei “Sim, são grandes, grandes como filhotes de pássaro Roca.”.

– Já ouvi falar desses pássaros. De facto, dizem que são magníficos. E inteligentes. Mais inteligentes do que os seres humanos.

– Ai sim? Sabe onde podemos encontrá-los?

– Não, não faço a mínima ideia.

Estava sol e parecia que ia ser um dia normal.

Um Ogre é um ogre

Um ogre não é um gigante, um ogre não é um ciclope.
Um ogre é grande mas não é do tamanho de uma casa e tem dois olhos.

Um ogre não é um orc. Um ogre não foge de ninguém mas não gosta de guerras e batalhas.
Um ogre não é um morto-vivo, muito menos um fantasma. Um ogre tem sangue nas veias (é verde, mas não deixa de ser sangue) e não consegue atravessar paredes (a não ser que as destrua primeiro).
Um ogre tem pele verde ou amarelada, mas não tem escamas nem o corpo coberto de pelos.
Um ogre pode não ser a criatura mais inteligente do mundo mas não é estúpido. Eu não sou estúpido.

Um ogre é um ogre e só quer que o deixem em paz. Eu só quero que me deixem em paz. Quero ver televisão o dia todo, comer e jogar videojogos.
Um ogre é preguiçoso e desmazelado. Eu sou um ogre e não quero me digam para arrumar o quarto nem que me perguntem se tomei banho.
É por isso que vou fugir de casa. Mas, por favor, não digam à minha mãe.

A Nessie, de Loch Ness

Querido diário:

Voltou a acontecer. E estou triste. Foi no final da manhã. O sol brilhava e estava um dia muito bonito. Eu decidi ir fazer algum exercício e respirar ar fresco.

Num momento em que passava mais perto da margem, junto àquela clareira tão bonita (ai, e tão romântica!) lá na margem sul do lago, vi-os. Eram quatro e acho que se preparavam para fazer um piquenique. Fiquei logo com o coração a bater mais depressa. “Será que é desta vez que vou fazer amigos?”, pensei. “Estes não parecem ser medrosos nem assustadiços…” E, feliz, nadei na direção deles.

À medida que me aproximava, comecei a ouvir as suas vozes e as suas gargalhadas. “Vai correr bem, Nessie, vais ver que, desta vez, vai correr bem.”, tentei convencer-me. No entanto, assim que me viram, as gargalhadas transformaram-se em gritos e desataram a correr. Um deles ainda ficou parado a olhar para mim durante uns segundos e pegou na máquina fotográfica. Eu fiquei contente e, querendo ser simpática, fiz pose e sorri para a câmara. Acho que ficou ainda mais assustado, quase deixou cair a máquina fotográfica e fugiu.

E eu fiquei novamente sozinha. Não sei o que faço de errado. Só queria dizer-lhes olá e que fico muito contente por virem visitar a minha casa, mas o resultado é sempre o mesmo: fogem. Gritam e fogem.

Aposto que amanhã a internet vai estar inundada de fotografias desfocadas e relatos de mais um grupo de pessoas que viram o “monstro” de Loch Ness. Monstro, eu? Eu não sou um monstro, eu sou a Nessie, e até sorri para a fotografia… Os humanos são muito estranhos.

Kraken e os seus tentáculos musicais

Está tudo calmo e a água começa a borbulhar.

“O que é aquilo?” perguntam.
Pequenas ondas nascem num remoinho e transformam-se em grandes ondas.
“Será que é…?”
E eu levanto um tentáculo. Dois tentáculos.
Três, cinco, dez tentáculos. Vinte tentáculos.
E começam a entoar “Kra-ken! Kra-ken! Kra-ken!”

Faço uma pausa dramática e volto a mergulhar.
E, aí, ecoa um “ooooh” desapontado.
A minha cabeça começa a ficar à tona e mantenho-me a boiar assim durante um ou dois minutos, só para dar tempo para aumentar o burburinho.
A emoção e o entusiasmo continuam a crescer e eles voltam a entoar “Kra-ken! Kra-ken! Kra-ken!”

De uma só vez, ergo vinte tentáculos e inicio uma coreografia ao ritmo do coro de vozes. Num movimento teatral e quase excessivo, exibo os meus cem tentáculos.
“Kra-ken! Kra-ken! Kra-ken!”
Mergulho de repente e volto à superfície num salto digno de um golfinho.
Começa a bateria, a seguir o baixo e, depois, a guitarra.
“KRA-KEN! KRA-KEN! KRA-KEN!”

A baía é enorme, mas sentimo-nos tão próximos como se estivéssemos numa pequena sala para concertos intimistas.
Cumprimento-os: “Boa noiteeeeeee! Quero ouvir-vooooos!”
Batem palmas, gritam e uivam. Acho que até há alguns desmaios.
“Estão preparadoooooos? Não estou a ouvir! Estão preparadoooos? Então, vamos lá. Um, dois. Um, dois, três, quatro!”

A magia do Unicórnio

“Vem comigo!”, dizem-me com ternura.
Estendem-me os braços, acariciam-me a crina e dizem-me “Vem comigo!”
Eu olho-os, olhos nos olhos: os meus, vermelhos; os deles, humanos.

Não quero ir. Elogiam o meu pelo preto e brilhante. Dizem que sou mágico e que o meu chifre traz sorte e felicidade.
Dizem-me “Vem comigo!” com doçura, aproximam-se e tentam controlar-me com rédeas e freio.

Não quero ir. Se vim ao mundo, foi para ser livre, para galopar pelos campos, para correr e respirar bem fundo.
Não quero ir. Não quero afetos falsos e ocos. Se acreditam que sou mágico, se acreditam que a espiral do meu chifre traz sorrisos, não me digam “Vem comigo”. Não há magia com rédeas, não há magia quando somos prisioneiros.

Não quero ir. Quero ser livre, quero correr e respirar.
Se é magia que procuram, então, sou eu que vos digo “Pousem o freio, larguem as rédeas e venham comigo!”.

Dragão


Nós, os dragões, somos como as pessoas: não há dois dragões iguais. Há dragões grandes e dragões pequenos. Uns têm belas plumas coloridas, outros têm o corpo coberto por escamas baças e cinzentas.

Tal como as pessoas são importantes para as pessoas, os dragões são importantes para as pessoas. Um pouco por todo o lado, há histórias sobre dragões, mitos, lendas ou contos infantis.
Para umas pessoas, somos forças destruidoras; para outras, existimos para explicar o princípio do mundo, o princípio de tudo. Para uns, os dragões queimam casas e matam tudo o que se atravessa no seu caminho; para outros, os dragões ajudam a manter a lareira acesa e a casa quentinha.

Acreditem: nós, os dragões, somos como as pessoas.
Se alguém pensar que conhecendo um dragão conhece todos os dragões, está enganado.
Tal como as pessoas, podemos ser maus mas também podemos ser amigos. Tal como as pessoas, há dragões que cospem fogo e dragões que cospem bolas de gelo.
Sim, há dragões de fogo e dragões de gelo. E há dragões que abrem as asas e provocam tsunamis e outros que fazem surgir montanhas debaixo dos nossos pés. No entanto, também há dragões que fazem chover em dias de sol só para que surja um arco-íris e há dragões que fazem crescer relva verde e dentes-de-leão voadores.

Pois, nós, os dragões, somos como as pessoas: temos naturezas diferentes mas são as nossas atitudes e as nossas intenções que fazem com que sejamos bons ou maus.
E, tal como acontece com algumas pessoas, às vezes, temos saudades de outros dragões.

Nós, os Dragões

Nós, os dragões, somos como as pessoas: não há dois dragões iguais. Há dragões grandes e dragões pequenos. Uns têm belas plumas coloridas, outros têm o corpo coberto por escamas baças e cinzentas.

Tal como as pessoas são importantes para as pessoas, os dragões são importantes para as pessoas. Um pouco por todo o lado, há histórias sobre dragões, mitos, lendas ou contos infantis.
Para umas pessoas, somos forças destruidoras; para outras, existimos para explicar o princípio do mundo, o princípio de tudo. Para uns, os dragões queimam casas e matam tudo o que se atravessa no seu caminho; para outros, os dragões ajudam a manter a lareira acesa e a casa quentinha.

Acreditem: nós, os dragões, somos como as pessoas.
Se alguém pensar que conhecendo um dragão conhece todos os dragões, está enganado.
Tal como as pessoas, podemos ser maus mas também podemos ser amigos. Tal como as pessoas, há dragões que cospem fogo e dragões que cospem bolas de gelo.
Sim, há dragões de fogo e dragões de gelo. E há dragões que abrem as asas e provocam tsunamis e outros que fazem surgir montanhas debaixo dos nossos pés. No entanto, também há dragões que fazem chover em dias de sol só para que surja um arco-íris e há dragões que fazem crescer relva verde e dentes-de-leão voadores.

Pois, nós, os dragões, somos como as pessoas: temos naturezas diferentes mas são as nossas atitudes e as nossas intenções que fazem com que sejamos bons ou maus.
E, tal como acontece com algumas pessoas, às vezes, temos saudades de outros dragões.