“Mas onde é que tu andas com a cabeça?”, diz-me a minha mãe constantemente.
Dah! Ela sabe perfeitamente que tenho a cabeça no sítio, o cérebro é que não. Não sei onde o deixei. Acho que o perdi naquela visita de estudo à Floresta das Árvores Caídas. Não sei se foi nesse dia, acho que sim. Acho que foi pouco depois de ter sido mordido por aquela espécie de animal estranho e mal-cheiroso que apareceu vindo lá dos lados do Cemitério da Eternidade. Senti uma dor muito forte, como se me tivessem arrancado um bocado da perna. Curiosamente, senti a cabeça a ficar cada vez mais leve. Foi como se tivesse o crânio furado e as ideias, a memória e tudo o que tinha estudado para o teste de História estivesse a escorrer e a deixar rasto por onde eu passava.
Tentei explicar isto à minha mãe, mas acho que ela não acreditou em mim. É natural: tive negativa no teste de História e ela já me ouviu a inventar desculpas muito parvas para não ter estudado. Mas, desta vez, eu até tinha estudado! Que estranho. E a minha cabeça parece cada vez mais leve… É mesmo estranho.
“Ó mãe, tu não me disseste que também foste mordida por um bicho estranho perto do cemitério? Já não te lembras? Deixa-me adivinhar: também sentes a cabeça leve?”







