redondo

“preocupas-te demais. não precisas de saber já para onde vou nem por onde eu vou. são destinos por definir (não tens a ilusão de que vou só para um sítio, pois não?). são estradas ainda por traçar.” e sorri. fico atenta: quero ver se vem aí uma daquelas gargalhadas que normalmente não tenho oportunidade de ver nascer mas apenas já a florir. fica-se pelo sorriso. é um sorriso firme que acaba por fazer um fade out para uma expressão neutra porém redonda. “está tudo bem. eu estou bem. e, quando deixares de te preocupar tanto, vais ser capaz de perceber que tu também estás bem. e se eu estou bem e tu estás bem, nós estamos bem.” e espreguiça-se. lânguido. e redondo. e eu não consigo tirar os meus olhos dos dele. redondos. apoiados pelas bochechas redondas. e, durante alguns segundos, não me preocupo. e sinto-me preenchida por ondas redondas como as que se formam e propagam quando cai uma pedra num lago calmo. “mas não há pedra, pois não?” ele sabe que não, que não há pedra. sabe que só há ondas. ondas redondas que brotam de um epicentro e trotam até à margem. e um arrepio. não sei se ele sabe do arrepio… não deve saber. o arrepio acontece quando a última onda atinge a margem, quando o redondo que toma conta de mim não tem alternativa senão ultrapassar os meus limites. e desaparece. quando a última onda passa a barreira da pele e se evapora. “acho que essa coisa do arrepio não é para mim, eu não tenho limites. eu tenho o superpoder de ter uma pele tão flexível que me permite expandir sempre que quero. e tão inteligente que sabe bem como filtrar o que a atravessa. em ambos os sentidos. é mesmo assim: eu tenho o superpoder de não ter limites.” e faz todo o sentido. ele tem superpoderes. e eu preocupo-me demais. talvez porque sou a primeira testemunha desses superpoderes mas sem a capacidade perceber como é possível ser tão redondo e simultaneamente não ter limites. sim, ele tem superpoderes. é isso: ele tem superpoderes. fico novamente presa nas feições redondas. com esperança de um novo sorriso (e mais ondas). mas não acontece. em vez disso, suspira, puxa o edredão e vira-se para o outro lado. só me resta dar-lhe um beijo na testa e outro nos caracóis, dizer-lhe que é a minha pessoa preferida e pedir-lhe que durma bem e sonhe com dinossauros felizes. encosto a porta e sinto novamente o arrepio sem pedra.

mas, afinal, o que é que tu queres ser quando fores grande?

– mas, afinal, o que é que tu queres ser quando fores grande?

– quero ser feliz.

– deixa-te disso. estou a falar a sério. quero saber.

– mas é isso mesmo: ser feliz.

– isso é resposta de miúda de 16 anos ou de celebridade para revista cor de rosa. dá-me uma resposta decente. sê objetiva. e concreta! usa verbos operatórios.

– quero não sentir dor ao inspirar nem culpa ao expirar.

– e no que é que isso se traduz? de que é que precisas para lá chegares? quais são os pré-requisitos?

– preciso de deixar de estar aqui. preciso de me pôr a caminho. preciso de decidir quem quero ser quando for grande.

e se eu fosse mais…?

e se eu fosse mais alta? e se eu fosse mais magra? …mais esguia? …mais morena?
e se eu tivesse a pele mais lisa? …e o nariz mais pequeno? …e os olhos maiores? …e o cabelo mais forte?

e se fosse mais afinada? …mais rápida? …mais flexível? …mais enérgica?

e se eu fosse mais disciplinada? …mais paciente? …mais zen? …mais capaz de encontrar o meu centro? …mais focada?

e se eu fosse menos preguiçosa? e se eu fosse menos comodista? …e menos ansiosa? …e menos impulsiva? …e menos teimosa?

e se eu fosse mais? e se eu fosse mais mais? …e menos menos? …e mais melhor? …e se eu…? …e se…?

e se eu não fosse parva?

“chorar lava a alma” diz o povo

“chora. chora tudo o que tiveres que chorar. chorar lava a alma.”

e lava. lava mesmo. e até tira nódoas, mesmo sem glutões (acho eu que não tem. e como não fazem anúncios a lágrimas, vou continuar sem grandes certezas…).

eu sou uma chorona, sou das que choram por dá cá aquela palha. portanto, acho que podemos assumir (sim, nós todos) que sei do que falo.
sei que não controlo quando é que choro ou deixo de chorar (o que, para uma control freak, pode ser matéria para umas quantas sessões de psicoterapia).
sei que a par das lágrimas, desce-me pela face uma voz trémula e digna de um castrati.
sei que o corpo acompanha, tudo devidamente coreografado, com as mãos a tremer e o estômago em rebuliço.
sei que, quando o choro é mais inconveniente ou fico de orgulho ferido por não conseguir controlá-lo, fico corada, mas de raiva.

também sei que chorar por dá cá aquela palha faz parte de mim, do meu sistema de defesa, do meu sistema de contra-ataque, do meu sistema de sobrevivência, enfim, do meu sistema elétrico… tal como as gargalhadas sonoras (e igualmente impróprias), tal como as piadas descontextualizadas (e que só fazem sentido dentro da minha cabeça), tal como os abraços a quem não os pediu e fica sem saber o que fazer com eles…

chorar lava a minha alma, essa coisa tão translúcida e de forma indefinida como as lágrimas.
é bom lavar a alma, é bom retirar-lhe os elementos que alteram a sua qualidade.
é bom lavar a alma e, de seguida, pô-la a secar e, se possível, até a corar.
no meu caso, nem é preciso passá-la a ferro, mas isso já depende da composição de cada alma.

e, depois de lavada, a alma volta à sua forma anterior, de novo fresquinha e, tal como as nossas calças de ganga preferidas, pronta para ser combinada com tacões ou com sapatilhas.
e tal como a ganga, a alma lavada fica mais justa e mais próxima da pele, no entanto, quanto mais é usada e lavada, mais se adequa às nossas formas, mais facilmente regista as nossas curvas, os nossos jeitos, a nossa história.

tal como os nossas calças de ganga preferidas, depois de lavada, a alma está mais justa (a lembrar “estou aqui, estou contigo”) mas moldável (“vamos para onde precisares de ir, e se quiseres sentar-te no chão, conta comigo”).

chorar lava a alma. liberta-a do que lhe altera a qualidade e torna-a mais nossa.

e, das duas uma, ou é o povo que é sensato e sabedor… ou é a control freak à procura de desculpas.
seja como for, e por via das dúvidas, é melhor não usar rímel nas pestanas de baixo.