às vezes, a vida parece cinema

quando olho para o meu filho e vejo tão claramente a alma e o brilho do meu pai

quando uma amiga me diz que o que escrevi há meses e decidi voltar a publicar hoje era mesmo aquilo de que ela estava a precisar

quando pergunto a um dos “meus” quem é que ele acha que eu sou, como é que me vê e recebo de resposta um soneto

quando um abraço significa “não quero saber se temos um oceano entre nós porque só a qualidade dos xis é que conta”

quando me preparo para enfrentar um momento potencialmente difícil e sou brindada com um “oh captain, my captain”

quando alguém desconhecido vem ter comigo e diz que andava à minha procura

quando finalmente cumpro uma promessa e me apercebo que os anos que passaram entretanto tornaram a promessa redundante

quando adio o “vamos dormir?” porque a música ainda não acabou e me sinto dentro de um videoclip

quando olho para o ano novo e decido que vai ser “a partir” porque sei que estou acompanhada por quem me vai ajudar a pôr essa intenção em prática

quando não consigo dormir porque há um texto às voltas na minha cabeça a exigir ser publicado

não me apetece ir…

… mas vou.
e de sorriso nos lábios.
e de gargalhada fácil.
e com abraços para dar a quem os quiser.

não é o que as segundas feiras trazem que me faz hesitar. é a antevisão das carências e das lacunas da semana que por aí vem.

mas vou, mesmo assim. munida da minha gargalhada fácil e de abraços para dar a quem os quiser.

algo(s) que não me sacode(m)

(antes de mais, adoro momentos de “gramática, mas tu mandas em quê?”. é que “eu formo os plurais que me apetecer formar e a menina mete-se na sua vidinha”.)

coisas que não me sacodem:
futebol.
vermelho e verde.
marmanjos de calções a jogarem à bola.
marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.
o meu feed do facebook carregadinho de odes aos marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.
a ideia de que o vermelho e o verde justificam os marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.

(sim, prefiro ter conversas com a gramática sobre os pontapés que decido aplicar à senhora.
será que, se me vestir de vermelho e verde – calções, claro – e argumentar que a gramática é redonda, consigo que alguém me pague balúrdios?)

diáfano, meu caro watson!

não está claro nem escuro. é mais como se estivesse a ver tudo através de um véu, através de algo que poderia ser descrito como diáfano. sim, diáfano é uma boa palavra. sugere leveza, algo que é, de alguma forma, permeável à luz. quase que implica uma alteração de estado. de solidamente dobrado e arrumado numa gaveta à fluidez da ausência de forma a que o esvoaçar obriga.

pois, não está claro nem escuro, e os contornos não são fidedignos. ora são esbatidos pela assertividade da luz, ora são redesenhados pelas inseguranças da brisa.
é o diáfano a criar a dúvida. continuam a ser as sombras da caverna? ou são os olhos que ainda não se habituaram à claridade do exterior?
ainda há uma terceira hipótese: será o cérebro? será que o córtex visual ainda não desenvolveu o código necessário para processar a imagem com rigor? …e com significado?

com os pés bem assentes no teto

pestanejo e é como se estivesse a abrir os olhos ao acordar. como se o pestanejar fosse o necessário para ser teletransportada para uma realidade alternativa, mas daquelas dos sonhos, daquelas em que estamos permanentemente à espera de voltar à realidade das coisas reais.

pestanejo.
pestanejo e ao abrir os olhos está tudo de pernas para o ar. e esse tudo é tão tudo, e o de pernas para o ar é tão real que duvido. duvido que esteja tudo de pernas para o ar. duvido que seja o tudo que está de pernas para o ar e não eu que estou de pernas para o ar. olho para os meus pés e vejo-os pousados no teto mas sinto-os firmes no chão. ponho a mão na cabeça para sentir o cabelo, e também ele está sossegado, pousado na cabeça. se o meu cabelo não está de pernas para o ar, eu não estou de pernas para o ar. se eu não estou de pernas para o ar, os meus pés estão firmes num teto que devia ser o chão. o chão é que está de pernas para o ar. tudo está de pernas para o ar.

pestanejo.
abro os olhos.
ela olha para mim e pisca-me o olho.
abro os olhos e vejo-a inteira, redonda, brilhante. cheia e brilhante num teto escuro.
ela olha para mim e, brilhante, sorri e pisca-me o olho. “sim, estou cá em cima. e, não, não estás de pernas para o ar. não és tu que estás de pernas para o ar.”

às vezes

às vezes, acontecem coisas que só podem acontecer às vezes. talvez pudessem acontecer mais vezes, mas não acontecem mais vezes. só às vezes. talvez por definição. talvez por hesitação. talvez sem qualquer razão.

às vezes, são coisas grandes ou amplas ou profundas. e trazem sorrisos grandes ou amplos ou profundos. outras vezes, são coisas mais pequenas e os sorrisos podem até não ser tão grandes ou amplos mas podem até ser mais profundos.

às vezes, as pessoas encontram-se, cruzam-se. outras vezes, as pessoas reencontram-se e entrecruzam-se. umas vezes, ficam; outras vezes, seguem.

às vezes, as coisas que acontecem só às vezes representam quebras ou cortes com o estado das coisas. outras vezes, as coisas que acontecem só às vezes têm o dom de transformar as próprias coisas, as tais que definem o estado das coisas. às vezes, as coisas que acontecem só às vezes criam novos padrões para aquilo que existe para além desses momentos. não se trata de alterar um continuum, mas sim de alterar cores e sabores que, consequentemente, alteram a forma como o continuum ou o tal estado das coisas ou a própria vida são escritos.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que, saídas sabe-se lá de onde, trazem portas para varandas ou jardins, que colocam em causa o que sabemos sobre as cores do arco-íris, que acrescentam nuances ao olhar que está do outro lado do espelho.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que despertam novas verdades, novos horizontes, novas formas de estar em sintonia com o que nos define.
ali, entre o macro e o micro.

essa coisa gestáltica

essa coisa gestáltica de achar que o todo é mais amplo e mais complexo que a soma das suas partes.

essa coisa gestáltica de achar que uma sequência de eventos é mais do que uma sequência de eventos e que o contexto faz parte do conjunto, criando mais uma camada de significado ou até alterando o significado de cada um dos eventos e, com isso, definindo a própria sequência de eventos e distanciando-a de sequências terceiras.

essa coisa gestáltica de achar que um ser humano é um organismo porque é feito de células de diferentes naturezas e variadíssimas funções mas só é um ser humano porque também é feito de luz do sol e das sombras onde habitam os lobisomens.

essa coisa gestáltica de achar que o crescimento de uma criança é feito de momentos-chave vividos em fases-padrão mas só adquire consistência quando sublinhado por momentos de desvio à regra e que são estes últimos que definem a cor da personalidade, o sabor da alma e o chilrear do potencial.

essa coisa gestáltica de achar que uma pessoa se define e ganha existência por tudo o que faz e diz, batidos em castelo e delicadamente misturados com tudo o que decide não fazer nem dizer, sempre com o cuidado de adequar a temperatura à natureza da receita.

essa coisa gestáltica de achar que um conjunto de textos é um tipo de diário de bordo mas só porque encerra em si também todas as relações que existem por detrás das sensações da ortografia, das extrapolações das alegorias e da orgânica da linha de pensamento.

essa coisa gestáltica de achar que um conjunto de textos só pode ser uma unidade orgânica e com alma quando é vista à luz de cada par de olhos que por lá passam.

four-letter word

luto.
ninguém decide fazer luto.
faz-se. e pronto.
consciente ou inconscientemente faz-se.
ninguém decide fazer luto, mas face a circunstâncias negras e se a coisa correr pelo melhor, um dia damos por nós a fazer luto.
se a coisa não correr pelo melhor (face à tal negritude)… sei lá… recusa-se o luto? foge-se do luto? rebatiza-se o luto com um eufemismo lírico qualquer?
se calhar, não há volta a dar e, quando há circunstâncias para luto, faz-se luto e pronto. faz-se.

a wikipedia diz que são 5 fases:

1. negação — consciente ou inconscientemente, entramos em modo de auto-defesa. nada nos afeta, nada nos toca. claro que não: estas coisas só acontecem aos outros. por isso, é simples: não se passa nada, está tudo impéc.

2. raiva — afinal está a acontecer. está mesmo a acontecer. e a mim. mas porquê a mim? não é justo. alguém me tramou. isto não se faz! meteram-se com a pessoa errada. isto não fica assim. ai, não fica, não!

3. negociação — não, não pode ser, eu faço o que for preciso. se isto se resolver rapidamente, garanto que entro na linha. eu sei que as coisas podiam ter sido diferentes, mas, se correr tudo bem, agora é que vai ser, eu prometo que…

4. depressão — nunca estive tão infeliz. acabou-se. não vale a pena fazer nada. aliás, não há nada a fazer. deixem-me no meu canto. deixem-me definhar. deixem-me. e deixem-me chorar. deixem-me para aqui…

5. aceitação — pois, não há nada a fazer. mas tenho que aprender alguma coisa, não posso ficar a pensar no que poderia ter sido diferente. está mesmo a acontecer. já aconteceu. e a mim. não estou nada bem, mas vou ficar. e um dia vou poder dizer “estou bem” e sentir que é verdade verdadinha.

não sei se é obrigatório passar pelas fases todas.
também não sei se é um caminho de sentido único ou se há retrocessos ou iterações. não sei se é possível voltar a fazer uma determinada fase para tentar obter melhoria de nota.
sei que é um processo. e sei que, se não o negarmos quando dermos por nós no túnel escuro, vamos ter em mente que os túneis têm um entrada e uma saída. e que, se nos mantivermos de costas para a entrada, havemos de ir dar à saída. não se sabe em que estado, mas havemos de ir dar à saída.

e cá fora… bem… cá fora, há a continuação da estrada, há outras estradas, há avenidas, ruas, ruelas e becos sem saída. há vias só para peões e há auto-estradas. há cruzamentos, rotundas, viadutos, passagens de nível (umas com, outras sem guarda).
e certamente existirão outros túneis e podem ser mais ou menos longos, mais ou menos escuros, mais ou menos assustadores. no entanto, se nos mantivermos de costas para a entrada e continuarmos a caminhar, a saída vai aparecer.

e cá fora… bem… cá fora, há sol e nuvens e chuva e neve. há pássaros e borboletas e gatos e lagartixas. há amigos que nunca largaram a nossa mão. e há amigos que não conseguiram manter a mão dada mas que se mantiveram atentos o caminho todo e nos esperavam à saída de braços abertos. e há gente que não conhecemos e vamos gostar de conhecer. e há novos desafios e coisas para aprender e ideias brilhantes para ter no banho ou a conduzir. e há crianças sorridentes, quer tenham 5 ou 65 anos. e há luz. a dos outros e a nossa.

e cá fora…bem… cá fora…
mmm… cá fora…

tsunami

e eis que o epicentro e o hipocentro se confundem e, entre coração e estômago, as ondas sísmicas vão e vêm, cruzam-se, entrelaçam-se, sobrepõem-se, exponenciam-se. é um crescendo tão súbito que parece que sempre esteve lá e nós é que estávamos distraídos. e tudo é tsunami. e é devastador (ou não seria um tsunami). e a água salgada descontrolada e controladora a misturar-se com a base e a ceder à força implacável da gravidade.

ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo.

acreditar pode ser uma forma de sobrevivência

acreditar que as pessoas merecem que acreditemos nelas.
acreditar que é acreditando que as fazemos crescer. acreditar que vão perceber que há quem esteja a acreditar nelas. acreditar que vão achar que acreditar é importante e que não vão querer deixar ficar mal quem arrisca acreditando.

acreditar em intenções.
acreditar que, mesmo quando os meios parecem duvidosos mas os propósitos não, os propósitos são o combustível e simultaneamente a meta. acreditar que esses propósitos são reais e não apenas argumentos ocos e efémeros para atirar quando e a quem for necessário. acreditar que não há razão para não acreditar e que acreditando vamos ajudar a construir.

acreditar que há sempre saída.
acreditar que, por muito que o horizonte esteja escondido por detrás de um nevoeiro cerrado, ele continua a existir e é amplo e soalheiro. acreditar que por detrás do nevoeiro não existe um Adamastor mas sim um fenómeno geográfico que marca a passagem para outro oceano. acreditar que temos o leme necessário para rumar ao horizonte que mais nos convém ou, pelo menos, aquele que nos parece ser o mais adequado.

acreditar que acreditar não é coisa de gente parva e sem noção da realidade.
acreditar que acreditar é coisa de gente corajosa e persistente.
acreditar que acreditar é um combustível.
acreditar que acreditar é essencial para manusear o leme que nos permite chegar a outros oceanos.
acreditar que acreditar não é coisa de gente parva mas sim de gente persistente na sua esperança.