luto.
ninguém decide fazer luto.
faz-se. e pronto.
consciente ou inconscientemente faz-se.
ninguém decide fazer luto, mas face a circunstâncias negras e se a coisa correr pelo melhor, um dia damos por nós a fazer luto.
se a coisa não correr pelo melhor (face à tal negritude)… sei lá… recusa-se o luto? foge-se do luto? rebatiza-se o luto com um eufemismo lírico qualquer?
se calhar, não há volta a dar e, quando há circunstâncias para luto, faz-se luto e pronto. faz-se.
a wikipedia diz que são 5 fases:
1. negação — consciente ou inconscientemente, entramos em modo de auto-defesa. nada nos afeta, nada nos toca. claro que não: estas coisas só acontecem aos outros. por isso, é simples: não se passa nada, está tudo impéc.
2. raiva — afinal está a acontecer. está mesmo a acontecer. e a mim. mas porquê a mim? não é justo. alguém me tramou. isto não se faz! meteram-se com a pessoa errada. isto não fica assim. ai, não fica, não!
3. negociação — não, não pode ser, eu faço o que for preciso. se isto se resolver rapidamente, garanto que entro na linha. eu sei que as coisas podiam ter sido diferentes, mas, se correr tudo bem, agora é que vai ser, eu prometo que…
4. depressão — nunca estive tão infeliz. acabou-se. não vale a pena fazer nada. aliás, não há nada a fazer. deixem-me no meu canto. deixem-me definhar. deixem-me. e deixem-me chorar. deixem-me para aqui…
5. aceitação — pois, não há nada a fazer. mas tenho que aprender alguma coisa, não posso ficar a pensar no que poderia ter sido diferente. está mesmo a acontecer. já aconteceu. e a mim. não estou nada bem, mas vou ficar. e um dia vou poder dizer “estou bem” e sentir que é verdade verdadinha.
não sei se é obrigatório passar pelas fases todas.
também não sei se é um caminho de sentido único ou se há retrocessos ou iterações. não sei se é possível voltar a fazer uma determinada fase para tentar obter melhoria de nota.
sei que é um processo. e sei que, se não o negarmos quando dermos por nós no túnel escuro, vamos ter em mente que os túneis têm um entrada e uma saída. e que, se nos mantivermos de costas para a entrada, havemos de ir dar à saída. não se sabe em que estado, mas havemos de ir dar à saída.
e cá fora… bem… cá fora, há a continuação da estrada, há outras estradas, há avenidas, ruas, ruelas e becos sem saída. há vias só para peões e há auto-estradas. há cruzamentos, rotundas, viadutos, passagens de nível (umas com, outras sem guarda).
e certamente existirão outros túneis e podem ser mais ou menos longos, mais ou menos escuros, mais ou menos assustadores. no entanto, se nos mantivermos de costas para a entrada e continuarmos a caminhar, a saída vai aparecer.
e cá fora… bem… cá fora, há sol e nuvens e chuva e neve. há pássaros e borboletas e gatos e lagartixas. há amigos que nunca largaram a nossa mão. e há amigos que não conseguiram manter a mão dada mas que se mantiveram atentos o caminho todo e nos esperavam à saída de braços abertos. e há gente que não conhecemos e vamos gostar de conhecer. e há novos desafios e coisas para aprender e ideias brilhantes para ter no banho ou a conduzir. e há crianças sorridentes, quer tenham 5 ou 65 anos. e há luz. a dos outros e a nossa.
e cá fora…bem… cá fora…
mmm… cá fora…