“eu queria que resultasse. é a tentar que descobrimos até onde conseguimos ir.”

o contexto não interessa. a atitude pode ser rara mas a aplicabilidade é virtualmente universal.
fez-me sorrir. fez-me acreditar. fez-me ter um daqueles momentos de fé daquela que é a fé dos agnósticos.
daquela que é a fé desta agnóstica. esta agnóstica que não acredita em entidades superiores. esta agnóstica que não tem fé na humanidade como coletivo mas tem fé nas pessoas como motores individuais. motores de evolução motores de crescimento.

“é a tentar que descobrimos até onde conseguimos ir.” diz a rapariga que provavelmente está a trabalhar por pouco mais que o salário mínimo.

não é pelo “retorno”, pelo receber de volta, pelo potencial efeito boomerang.
é porque há pessoas que simplesmente são assim, porque há pessoas que não esperam a proverbial cenoura para terem vontade de correr.
é porque há pessoas que simplesmente querem ser mais e não apenas ter mais.

“if you aren’t in over your head, how do you know how tall you are?”
(t. s. eliot)

onde está a primavera a que tenho direito?

e onde está o sol a entrar pelo quarto e a obrigar-me a perceber que são horas para ir à luta?

e quem é que vai substituir a juba dos dentes-de-leão que estão a levar com litros de água em cima?

e o que faço eu agora que, cheia de fé nas promessas do s. pedro, arrumei as botas e fui buscar o calçado de verão?

e de que é que serve ser primavera se o céu está carregado e o horizonte incerto?

onde está a primavera a que tenho direito?

de médico e de louco…

todos temos um dr jekyll e um mr hyde…

(note-se que, com isto não pretendo dizer que não há espaço para mais personalidades. eu cá continuo a ter uma quantidade razoável de momentos de voodoo girl, cathy earnshaw,  mulher do primeiro cego, alice e até de averell dalton para gerir. há espaço para muitos alter-egos em mentes divergentes.
mas, retomando…)

todos temos um dr jekyll e um mr hyde. a linha que os separa raramente é uma poção. para uns poderá até ser algo que se beba, mas não uma poção.
mas o que separa cada dr jekyll do respetivo mr hyde é sempre, mas sempre, algo que entra na corrente sanguínea, algo que entra em contacto direto com as nossas células, algo que transforma a nossa composição.

eu conheço bem o que separa o meu dr jekyll do meu mr hyde. fujo-lhe sempre que posso, exceto quando é a motherboard que “acomoda” o dr jekyll e todas as outras vozes, todos os outros alter-egos, que está em causa. e, quando é assim, há que libertar o mr hyde.

entre caeiro e régio

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

~ “Para além da curva da estrada”, Alberto Caeiro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

(…)

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

~ “Cântico Negro”, José Régio

wicked game

o meu reino por uma daquelas coisas dos jogos que permitem saber como está o nosso nível de energia!

não estou a falar da contabilização das vidas (como não sou um gato, essa parte é fácil e nem sequer é preciso contar pelos dedos). é aquela coisa da stamina (palavra deliciosa que soa a marca de drageias de chocolate coloridas).
dava-me cá um jeitaço…
dava-me jeito ter à mão uma ajuda visual que me lembrasse os custos de certos esforços. de preferência que ficasse a vermelho e que fizesse um piii! piii! piii! aflito quando começo a abusar da sorte.
também era giro se fosse um bonequinho saltitão (pelo menos, até deixar de ter razões para saltitar) que lembrasse que essa coisa de fazer uma gestão inteligente da energia até é uma coisa bem pensada.

por outro lado, sempre fui gaja de tetris e nunca me dei bem com rpg. acho que perdia demasiado tempo a olhar para o bonequinho saltitão com receio de que ficasse vermelho, aflito e a fazer piii! piii! piii!
talvez precisasse de um relogiozinho pequenino para indicar o tempo que estava a perder a olhar para o indicador do nível de energia. e também podia ficar vermelho quando o bonequinho saltitão estivesse em vias de deixar de saltitar. e, já que estamos nisto, o reloginho podia fazer um tic-tac tic-tac tic-tac consciencializador quando o piii! piii! piii! aflito estivesse próximo.

sim, dava-me mesmo jeito ter um indicador do nível de energia acompanhado de um temporizador que me ajudasse a evitar perder tempo a olhar para o indicador de energia enquanto ainda não é preciso preocupar-me com o nível de energia.

mas super-hiper-mega-fixe era também ter uma daquelas coisas que permitem ver que armas temos e que armas ainda podemos vir a ter. eh, pá, era mesmo isso…
o meu reino por um gestor de armas!
(e podia ser daqueles que nos atiram com uma bigorna de um quinto andar quando estamos a perder armas pelo caminho… e que ficam vermelhos. e que fazem treish! quando nos acertam com a bigorna na cabeça.)

caetano, dr seuss e bruce lee

“de perto ninguém é normal”
(caetano veloso)

“we’re all a little weird and life’s a little weird. and when we find someone who’s weirdness is compatible with ours, we join up with them and fall in mutual weirdness and call it love.”
(dr seuss)

“i’m not in this world to live up to your expectations and you’re not in this world to live up to mine.”
(bruce lee)

a vida é feita de padrões geométricos a preto e branco e dos contornos indefinidos do arco-íris. de trovões e de mozart. de relâmpagos e de pirilampos.

o mundo é feito de cafuné e de armas biológicas. de mães sem filhos e de crianças que dormem na rua. de tecnologia que parece ficção e de desumanidade que quem dera que fosse ficção.

as pessoas são feitas de sorrisos e de lágrimas, de sol e de chuva. as pessoas são feitas de sorrisos à chuva e de lágrimas que secam com o calor do sol.

os corações são feitos de imperfeições e as almas de impurezas. os corações são músculos poderosos e as almas entidades abstratas e diáfanas.
cada coração tem o seu ritmo e cada alma a sua cor. e os ritmos são tantos e as cores tão diversas que são imensos os mundos dentro do nosso mundo. e as possibilidades de combinações musicais e cromáticas são infinitas.

e é por isso que a vida é arte.

frio na barriga

image

“faz, todos os dias, uma coisa que te assuste.”
“todos os dias, deves fazer alguma coisa que te meta medo.”
ou, pelo menos, são traduções possíveis.
e traduções há muitas, no entanto as interpretações é que contam. e o que fazemos com elas, mais ainda.

faz coisas que te tiram da tua zona de conforto.
faz coisas que te fazem suspender a respiração.
faz coisas que fazem o teu sangue correr.
todos os dias.

transforma as pedras de kryptonite em sabres de luz.

enche os teus dias com coisas que te fazem cócegas e provocam arrepios ao mesmo tempo.
enche os teus dias com momentos de ar rarefeito mas puro.
enche os teus dias com saltos de paraquedas e equilibrismo num trapézio.
sempre.

não te deixes ficar.
não deixes de dançar à chuva.
não deixes de fazer coreografias no trânsito enquanto cantas uma música diferente da que está a dar na rádio.
não deixes de dar gargalhadas só porque a sala está em silêncio.
não deixes que a tua alma seja limitada pela fronteira da tua pele.

não deixes que a vida seja uma coisa que te acontece.
nunca.

combustível e inspiração

sol e roupa curta.
tatuagens.
música que faz dançar no trânsito.
verniz vermelho.
sapatos vermelhos.
cerejas.
morangos com iogurte.
dentes-de-leão.
a cama acabada de fazer com lençóis frescos.
as gargalhadas da criança durante o sono que me acordam às três da manhã.
ouvir o ‘rattle and hum’ de fio a pavio uma vez por ano.
os erres do tony de matos a cantar ‘cartas de amor’.
conduzir em estradas de interior com o alcatrão quente, música de férias e a criança a dormir no banco de trás.
a criança a fazer beatbox para acompanhar o ‘bootie call’ das all saints.
a criança a fazer air guitar para acompanhar rammstein ou ac/dc.
a criança a tocar violoncelo como se fosse um contrabaixo rockabilly.
lobisomens rockabilly e vampiros inspirados no nick cave.
magnum caramel & nuts.
praia.
magnum caramel & nuts na praia.
saramago.
saramago na praia.
heathcliff.
o hugh jackman como wolverine.
a ligação entre o magneto e o professor x.
projetos novos e redemoinhos de ideias que adiam o sono.
abraços.
conchinha de manhã.
eclairs da quinta do paço.
cup cakes sanguinários em sítios com candeeiros feitos com talheres.
‘wild mushrooms’, lloyd cole.
cumplicidade.
dançar.
sentir falta de quem faz mesmo muita falta.
dormir.

o que eu quero para mim é o que eu quero para ti

quero sorrir.
quero sorrir porque sim.
quero sorrir porque sinto o sol na pele.
quero sorrir porque o rio fica fantástico em dias de chuva.
quero sorrir porque a minha cabeça vai para onde não deve em momentos inoportunos.
quero sorrir porque dançar me faz sorrir.
quero sorrir quando apago o ashton kutcher para ter espaço para gravar o scooby doo.
quero sorrir quando alguém partilha música comigo.
quero sorrir na antecipação de abraços de qualidade superior.

quero que sorrias para mim, comigo e quando pensas em mim.

quero rir.
quero rir com gargalhadas assertivas e inconvenientes.
quero rir de anedotas que não têm piada.
quero rir porque a vida está recheada de momentos monty python.
quero rir a ver o phineas e ferb.
quero rir por não conseguir controlar o riso.
quero rir a tentar aprender truques de magia para poder ensinar truques de magia (e eu que odeio magia!).
quero rir porque começou uma música que detesto mas que eu sei que me vai fazer dançar.
quero rir até me doer o maxilar porque estamos felizes por estamos juntos e a parvoíce é contagiosa.

quero que te rias comigo, que me faças rir. quero ser capaz de te fazer rir.

quero chorar de tanto rir.
quero chorar sempre que precisar de chorar… pois chorar lava a alma.
quero chorar quando o príncipe do caos me comove com a sua doçura de hulk domesticado.
quero chorar porque sou uma chorona e facilmente me emociono com tretas diversas.

quero ser capaz de procurar ombros capazes de me acolherem quando preciso de chorar. quero que quem precisar de chorar no meu ombro não hesite em procurar-me.

quero saber lidar com a bipolaridade de sentimentos, com a esquizofrenia de ideias e com tudo o que existe de obsessivo-compulsivo na minha maneira de ser.
quero continuar a procurar-me, a encontrar-me.
quero ser a mãe que a criatura merece ter.
quero crescer. ser mais. ser mais eu. ser mais como eu imagino que posso ser.
quero dançar.
e sorrir porque sim.
e rir até me doer o maxilar.
e chorar. pelo sim, e pelo não.