lista de caca (i.e., onde o seth godin e a banda sonora do natural born killers se cruzam)

<introito>

1. hoje, o universo — esse parvalhão — achou que tinha coisas a dizer-me e, tal como vem a ser a ser hábito, optou por fazê-lo por interposta pessoa, mais precisamente pela pena qwerty do seth godin.
no recado em causa, o xor godin fala da potencial qualidade dos posts que nunca chegou a escrever face à qualidade efetiva dos posts que chegam a ver a luz do dia, isto tudo como metáfora para a (não) realização dos nossos sonhos. e o que eu gosto de metáforas! (e o universo — parvalhão mas um parvalhão atento — sabe bem disso.)
(aqui eu devia escrever qualquer coisa sobre os posts que também não chego a escrever e blá-blá-blá e ronhó-nhó-nhó… mas eu não quero insultar a inteligência de ninguém, portanto fico-me pelo parênteses.)

The thing is, an unwritten post is no post at all. It’s merely a little bit of gossamer on wings of hope. Doesn’t count.

2. ando a ouvir velharias no carro (não, não vou relatar o que quer que seja sobre a crueldade que me limitou a seleção musical). entre essas velharias um leitmotiv que não revisitava há uns anitos: a banda sonora do natural born killers. e blá-blá-blá e não sei o quê sobre a minha fase grunge há 20 e pico anos e sobre as miúdas de 18/20 anos deste século não saberem usar camisas de xadrez e cabelo pela cinta… e eis que as L7 entram em cena.

When I get mad and I get pissed
I grab my pen and I write out a list

</introito>

coração

lembro-me da primeira vez que ouvi dizer que o coração não dói (devia ter uns sete ou oito anos).

lembro-me de achar que estavam a gozar comigo (parecia coisa de extraterrestre).

lembro-me de, depois de perceber que era a sério, tentar encaixar aquilo nas gavetas onde tinha guardado o que tinha aprendido sobre o sistema circulatório (na minha cabeça, o desenho do livro e o desenho que eu tinha decalcado com papel vegetal e pintado com lápis de cor).

lembro-me de, mais tarde, quando nas aulas de ciências voltei a dar o sistema circulatório, ter perguntado à professora se era verdade que o coração não dói (ainda na esperança de uma resposta que me fosse mais conveniente).

há dias, o príncipe do caos disse-me “mamã, sabias que o cérebro não dói?” (e mais qualquer coisa sobre cortar o crânio com uma motosserra).
“sim, sabia”, respondi.
senti-me uma mentirosa. uma mentirosa surpresa com a inutilidade da verdade. o coração dói, o cérebro também.
o coração dói com as coisas que o cérebro lhe faz, da mesma forma que o cérebro dói com as coisas que o coração deixa que lhe façam.

“mas isso agora não interessa nada”, diria a outra senhora.

“dá-me a mão. só 2 segundos.”

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.

dizem esses tais entendidos que, nas relações entre crescidos, as discussões, a irritação, a mágoa e talvez até a desconfiança devem ter direito a um time out, uma pausa, um intervalo. no dia seguinte, de cabeça fresca (assumindo que dormir foi possível), retoma-se o assunto, sempre no sentido de o resolver com a bênção de ultravioletas e infravermelhos.

não posso afirmar com segurança que, embora concorde com o princípio, o veja como aplicável às idiossincrasias do “até amanhã. dorme bem.” das relações entre crescidos.
honestamente, nem sequer me interessa afirmar ou desafirmar o que quer que seja relativamente a esse contexto.

por outro lado, entendo-me como suficientemente entendida no assunto quando se trata de um “até amanhã. nana bem. sonha com coisas boas que eu vou sonhar com o teu nariz redondo. adoro-te. não te esqueças que és a minha pessoa preferida.”.
(isto da mesma forma que também sou perita em ficar profunda e dramaticamente ofendida quando a criatura sobe para a cama de cima do beliche sem me dar um beijo sonoro e um xi que implique a utilização de ambos os braços.)

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.
nas relações entre crescidos, as idiossincrasias podem, sem dúvida, por em causa o que entendem os entendidos. no entanto, quando há um não-crescido em causa, este princípio torna-se um dogma.

“antes de nanares preciso de te dizer uma coisa: eu sei que vai passar mas eu continuo magoada/triste/aborrecida/… com o que disseste/fizeste. seja como for, não te esqueças que és a minha pessoa preferida e que eu vou nanar muito bem porque vou sonhar com o teu nariz redondo. nana bem e sonha só com coisas boas.” – esta é a minha parte.

“dá-me a mão. só um bocadinho, só 2 segundos para eu adormecer a pensar em ti.” – é o que ele me diz.

e dou-lhe a mão. e é aquele mini-xi que, mesmo que dure apenas os tais 2 segundos, sublinha o que somos um para o outro e põe entre parênteses tudo aquilo que, temporário e ligeiro, nada diz sobre nós.
digo eu… que ainda ando a tentar entender-me no que dizem os entendidos.

o meu caos é luz e é só meu

eu, control freak convicta e inveterada, adoro caos.
a-doro!
do caos nasce a luz, a ordem, o conhecimento. é simultaneamente combustível e comburente. é o princípio, o verbo. é o momento em que tudo ainda é possível. é a promessa das promessas.

o meu caos é o princípio. a promessa. a possibilidade. o prólogo. o meu caos, note-se.
do meu caos trato eu. que cada um trate do seu.

a cada um o seu caos: não precisamos todos das mesmas coisas, muito menos do mesmo caos.
o caos é pessoal e intransmissível.
cada caos deve ser pessoal e intransmissível.
cada um é responsável por garantir que o seu caos é pessoal e intransmissível.

quando o caos deixa de ser pessoal e intransmissível, quando é imposto, herdado ou até oferecido, o caos já não é o potencial daquilo que pode vir a ser, acontecer, existir, concretizar-se.
quando o caos é imposto não é mais do que confusão, nevoeiro, perguntas que não chegam a ser formuladas e, por isso, ficarão irremediavelmente por responder.

o caos pessoal e intransmissível é construtivo, é prólogo de grandes edifícios, é uma explosão de luz.

o caos imposto, herdado ou até oferecido é erosivo, mata possibilidades, aniquila horizontes. o caos impessoal e transmitido é escuro, denso e limita os movimentos.

quando o caos que não é o nosso nos é imposto, é como areias movediças para a alma. aos poucos, desaparecemos. no final, fica só o lodo.

silêncio

o silêncio enquanto o leite aquece no microondas e eu vou buscar o chocolate à despensa.
o silêncio quando acordo de noite porque te oiço falar (sinto que te sentas de olhos ainda fechados) e enquanto espero para perceber se voltas a dormir por ti ou se precisas de 3 nanossegundos de cafuné para acalmar.
o silêncio que fica no carro quando aumento o volume da música depois de te deixar na escola.

o silêncio enquanto o telemóvel toca e eu decido se me apetece atender, se me apetece falar, se me apetece responder a perguntas de quem se preocupa comigo.
o silêncio enquanto o telefone toca lá do outro lado à procura de quem me deixou uma chamada não atendida que me deixou inquieta.

o silêncio enquanto o terminal de multibanco verifica se posso pagar com aquele cartão ou nem por isso.
o silêncio quando entro na confeitaria, olho para os eclairs, eles sorriem de volta mas tenho de sair porque todas as mesas estão cheias.
o silêncio quando leio o meu horóscopo com o ceticismo que me é intrínseco e chego ao último ponto final e confirmo o vazio do texto.

o silêncio do quarto ainda escuro mas consciente da ante-estreia de primavera para lá das persianas.
o silêncio esfumado e longínquo da discussão “dorme mais um bocado” versus “levanta-te e vai fazer coisas”.

365 dias dão para muita coisa…

chorar, rir. claro.
escrever coisas parvas, textos crípticos para uns e transparentes para outros.
escrever um texto que foi lido algumas centenas de vezes por um número indeterminado de pessoas, provavelmente o texto mais carregadinho de adn e debitado como um uivo à lua cheia.

inventar histórias sobre monstros reinventados. seres sanguinários e intrinsecamente humanos, lidos à lupa pela mão da inspiração com seis anos.
inventar uma história sobre aventuras de pessoas pequeninas com o dom de fazer sorrir, aquecer o coração e curar feridas que, por vezes, nem sabemos que temos.

deixar pessoas partirem. espreguiçar e esticar braços e pernas em celebração do espaço que fica vazio e disponível para braços abertos e palavras verdadeiras.
deixar pessoas chegarem, instalarem-se. pessoas que nos veem sem filtros e nos colocam em causa. pessoas que simplesmente passam a fazer parte do ecossistema, da renda de bilros.

chorar e rir intercaladamente em conversas tão próximas que beneficiam dos 300 km de espaço que permitem respirar. dar abraços tão reais e tridimensionais como se os 300 km não existissem.

dizer “preciso de ti” e ter como resposta um “estou a caminho”. ouvir um “preciso de ti” e responder com “estou a caminho”.

sentir a vida parada e os movimentos lentos no lodo. ver o nascer do sol no horizonte. sentir o potencial do horizonte.

sonhar.
querer.
dançar.
deixar ir. libertar.
dar a mão.
dar abraços.
cantar “só gosto de ti, porquê não sei, mas estou bem assim e tu também” junto aos caracóis da criatura mais fascinante do mundo.
dançar. sorrir. sonhar. abraçar.

e (mais) 365 dias dão para muita coisa.
as engrenagens vão funcionando e as coisas vão avançando. e enquanto há coisas a avançar, a alma espreguiça-se de olhos no horizonte.

aquela inconstância típica de mesas com as pernas tortas

a conversa flui
olhos nos olhos, sorrisos abertos
há gargalhadas, cumplicidade, parvoíce em geral
mas a mesa balança
sem interromper o discurso olhamos para a mesa e sorrimos
a conversa continua
as gargalhadas e a parvoíce também
mas o raio da mesa continua a balançar
o sorriso começa a revelar a irritação
o discurso é interrompido
encosto a minha perna à perna da mesa para ver se a mantenho estável
alguém termina a frase que tinha ficado a meio
com coragem e assertividade retoma-se a conversa
os sorrisos regressam
mas o raio da mesa não para quieta como se estivesse decidida a merecer a redundância
(…)
“pedimos a conta?”

a inconstância típica de mesas com as pernas tortas parece-me uma característica tão humana…
a inconstância parece-me tão tipicamente torta…
as características tortas da inconstância humana parecem-me tão típicas…
serão as mesas com pernas tortas tipicamente humanas?

eu, herege, me confesso: não sou fã de sophia…

… mas, volta e meia, ela cruza-se no meu caminho e, por alguma razão, decide dizer-me coisas.
(por regra, não são daquelas razões que a minha razão desconhece. são das outras, das razões que surgem de acasos mas nada têm a ver com acasos. são daquelas razões de quem fala só porque tem a certeza que tem razão.)

e diz-me coisas sobre coisas que os olhos humanos veem quando acreditam que é legítimo aspirar ao divino. diz-me coisas que ela sabe porque sentiu e viu e sonhou, coisas que ela sabe que eu preciso de saber porque preciso de sentir e ver e sonhar.

e hoje voltou a dizer-me coisas. coisas sobre o que eu sinto e o que eu vejo e o que eu sonho. coisas que me lembram que acreditar que aspirar ao divino é a coisa mais legitimamente humana que posso fazer.

Data

Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 

Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Livro Sexto’

e disse-me coisas que, para ela, têm mais de 50 anos, enquanto que, para mim, não podiam ser mais atuais.

tive uma ideia!

– tive uma ideia! uma ideia genial!
– conta!
– estive a pensar no que temos feito até aqui e no que podia ser o nosso próximo passo.
– e então?
– acho que era super giro se fôssemos à lua.
– à lua?
– sim! já viste? já fomos ao brasil, praia e bissau…
– não sei se se pode dizer que fomos… no caso do brasil, foi uma videoconferência. praia foi mais uma espreitadela no street view. e bissau… bem, deve ter sido outra equipa.
– que falta de visão! the big picture! tens que ver the big picture!
– pois… se calhar, não tenho essa capacidade. e como é que faríamos? nunca fizemos nada que tivesse a ver com exploração espacial…
– aquilo não tem nada que saber. tenho um amigo que é mecânico. ele constrói-nos um foguetão.
– um foguetão? pensava que os foguetões eram coisa de desenhos animados.
– foguetão… avião… nave espacial… vai dar tudo ao mesmo.
– ok. mas também precisamos de fatos espaciais.
– já pensei nisso tudo. a dona ermelinda tem muito jeito para fazer as roupas para os miúdos usarem nas festas de natal. aposto que ela faz fatos de astronautas num abrir e fechar de olhos.
– … … … não tinha pensado nisso.
– mas eu pensei. aliás, eu já pensei em tudo!
– que bom! temos muita sorte por te termos a liderar-nos.
– eu sei. mas ainda não te contei a parte melhor.
– conta!
– sabes quem é que vai ter a honra de ser o piloto e ir à lua?
– tu?
– não. não posso ser eu a fazer tudo. decidi que vais ser tu!