era noite escura mas ainda em tons terra e quente dentro do casaco grosso. os restos da festa rolavam pelo chão e aninhavam-se pelos cantos, como os cães a darem voltas sobre si mesmos antes de dormir.
eu voltava a casa. sozinha, estranha mas confortavelmente sozinha. não estava certa de estar a fazer o caminho que me levaria até ao local onde tinha estacionado o carro ou à porta de onde tinha saído horas antes ainda de batom nos lábios e sem roupas a cheirar a tabaco.
dei por mim a passar no meio de um grupo de miúdos (não sei se eram realmente miúdos; hoje em dia qualquer pessoa com menos de 30 anos parece-me um miúdo), também eles eles davam voltas sobre si mesmos no regresso a casa. sem alternativa, atravessei a nuvem que formavam. pararam e, como se um (sonho dentro do) sonho se tratasse, formaram círculos concêntricos. e eu era o centro. olhavam para mim como se me conhecessem; melhor: como se estivessem à minha procura. com esse mesmo olhar e declarada porém calorosamente impediam-me a passagem e forçavam-me a baixar-me, a sentar-me no chão. sentei-me e, no segundo seguinte, estava rodeada por quinze ou vinte dos tais miúdos, sentados, aninhados, deitados, encostados e apoiados uns nos outros.
uma rapariga sentou-se junto a mim, como se tentasse ter a perpetiva mais próxima da minha que lhe era possível. tinha uma nuvem de cabelo escuro e fofo, apanhado em 4 ou 5 puxos espalhados pela cabeça de forma naturalmente aleatória. os seus olhos cor de chocolate ganhavam enquadramento atrás dos óculos de armações pretas e de dimensões exageradas. com o braço esquerdo, abraçou-me a cinta e, com a mão direita, apontou para um rapaz ainda mais miúdo do que a generalidade daqueles miúdos. estava sentado, de braço no ar e de sorriso nos lábios como um aluno que sabe a resposta à pergunta que a professora fez. a rapariga dos olhos cor de chocolate apontava para ele e dizia “aquele é o … … … (é triste mas é verdade: até nos sonhos sou má com nomes) e foi ele que nos disse que hoje devíamos vir por aqui. ele queria muito conhecer-te.”
eu estava competamente paralizada e saber o que fazer era irrelevante e desnecessário. comecei a relaxar e a tentar deixar-me levar.
levantou-se outra mão. a minha narradora explicou: “a maria (talvez seja preferível inventar nomes do que chamar-lhes espaços em branco) diz que lhe fazes lembrar o colo da avó.”
outra mão: “a joana diz que não percebe porque é que estamos todos parados à tua volta. também diz que já não tem frio.” várias mãos no ar: “eles também já não têm frio.”
à medida que a mão direita da rapariga do cabelo de nuvem mudava de direção, o seu alvo anterior aconchegava-se no amigo mais próximo e adormecia.
mais uma mão no ar: “o miguel diz que te preocupas demasiado e que vai correr tudo bem. diz que podes confiar porque ele sabe.” o miguel adormeceu.
as mãos erguiam-se, uma a uma; a rapariga passava a mensagem. umas vezes, sobre eles, outras vezes, sobre mim. o que é que se estava a passar? quem eram aquelas pessoas?
ergueram-se duas mãos paralelas: “os gémeos querem que saibas que, mesmo quando estão juntos, também têm momentos em que se sentem incompletos. chamam-lhe saudades. não um do outro mas do que existe dentro de cada um deles e não é comum aos dois. dizem também que tinham saudades tuas e que, neste momento, se sentem completos.”
fomos ficando cada vez mais sozinhas, eu e a minha guia, até que éramos as únicas acordadas. eu tinha uma rapariga que dormia com a cabeça no meu colo (e ela tinha a irmã deitada junto a ela) e um miúdo enroscado no meu braço esquerdo e a usar o meu ombro como almofada. finalmente, fui capaz de falar: “quem são vocês? porquê eu?”
“não sabíamos que andávamos à procura. nem sabíamos que era a ti que procurávamos. estávamos cansados e precisávamos de encontrar um sítio sossegado para dormir.” a minha confusão e incredulidade estavam à flor da pele. “parece-te estranho? é normal: o que, para uns, é um furacão, para outros, é o olho do furacão. o único sítio onde é possível descansar.”
já todos dormiam. fui embora. fui dormir… acho eu.