“como é que eu explico isto ao meu filho?”

lembro-me perfeitamente de acordar no dia 9 de novembro de 2016, ler as notícias sobre as eleições nos EUA e pensar “como é que eu explico isto ao meu filho?”.

depois desse dia e depois dessas eleições já tive muitas vezes que tentar explicar ao meu filho muitas coisas que eu própria não percebo.

acho que continuo a ser bastante incompetente a explicar a origem do ódio e do medo que motiva ódio. a explicar porque é que há pessoas que acham que os outros têm que ser menos para que elas se sintam mais. a explicar porque é que há pessoas que têm tanta vontade de mandar nas outras, nos corpos das outras, nos afetos das outras.

também sou incompetente a tentar explicar porque é que o que se passa nos EUA é só uma montra para o que se passa no mundo, no retângulo tuga. a explicar porque é que a normalização do inormalizável se tornou tão real. a explicar porque é que isto não “é coisa dos malucos dos americanos”, é coisa de uma humanidade cada vez menos humana.

a minha criatura sabe bem que não é a minha incompetência que me inibe de tentar explicar-lhe coisas que eu não percebo. ele sabe que tanto falo com ele sobre kriptonite como sobre sabres de luz. sobre a liberdade dos dentes-de-leão e sobre as prisões feitas de espinhos de rosas. sobre o Super-Homem que há no Clark Kent e sobre o Logan que há no Wolverine.

eu é que tinha a veleidade de achar que o Mundo que eu tinha para oferecer ao príncipe do caos era mais… assim, tipo… mais melhor.

assim de quem vai, 5 coisas que eu sei e 5 coisas que não consigo perceber

5 coisas que eu sei

1. eu sei que pessoas interessam-se por pessoas.

2. eu sei que é possível uma pessoa só achar piada a olhos escuros e, às tantas, dar por si completamente rendida a um par de olhos azuis e achá-los implacavelmente desarmantes. (eu sei que é mesmo assim, porque aconteceu tal e qual… a uma amiga minha.)

3. eu sei que, se, um dia destes, eu achar piada a uns olhos que calhem de pertencer a um kit com cromossomas XX, vou continuar a gostar de chocolate, de música aos berros, de conversas parvas, de Saramago, de matrecos e de gente que me desconstrói. (não, de ti não; tu irritas-me. de ti sim, sempre.)

4. eu sei que, se alguém tratar a minha cria como cidadão de segunda porque ele é pitosga, porque gosta de se rir como se fosse um vilão de desenhos animados, porque é exagerada ou desconfortavelmente magnífico ou por qualquer outra qualidade que lhe seja igualmente intrínseca, vai haver crânios partidos (e dor assinalável na região sacrococcígea).

5. eu sei que é mais fácil achar desconfortável usar tacões do que usar sabrinas. (sei que é assim, mas rai’s me partam se percebo porquê!)

5 coisas que não consigo perceber

1. eu não consigo perceber porque é que ficas tão incomodado porque pessoas que não te interessam se interessam por outras pessoas que também não te interessam. (está confuso? eu depois faço um macaco. no word.)

2. eu não consigo perceber porque é que me dizes que, se eu usar tacões e maquilhagem, estou a contribuir para a objetificação de… mmm… (de quem era mesmo? minha, tua ou de quem nos apanhar?)

3. eu não consigo perceber porque é que, se eu defender que o dia 17 de março devia celebrar todo e qualquer ser humano, vais achar que estou a deixar ficar mal as sufragistas.

4. eu não consigo perceber porque é que para perceberes quem tu és tens que decidir, primeiro, quem é que eu não posso ser.

5. eu não consigo perceber como é que não te sentes claustrofóbico a viver num mundo binário, em que as pessoas têm forçosamente que entrar na caixa a ou na caixa b, em que só há azul e cor de rosa, em que tudo é nós-versus-os-outros.

5′. eu não consigo perceber como é que uma camisa de forças pode ser mais confortável do que os pés descalços.

de modos que é assim…

– o que me vale é que tenho facilidade em ver padrões.

– não, o que tu fazes não é ver padrões. isso fazem os maluquinhos. tu vês sistemas. para onde quer quer olhes, tu vês sistemas.

mais uma vez, meti aquela ao bolso para mastigar mais tarde. não foi muito mais tarde, porque não é preciso muito tempo para ver que, no nosso sistema, é ele que sistematicamente vê coisas destas.

“ainda escreves? pensei que te tinhas deixado disso…”

não, não me deixei disso. não tenho razão para me deixar disso. acho até que não me posso dar ao luxo de me deixar disso. com blog, sem blog (com capota, sem capota), escrever é coisa antiga, talvez anterior à adolescência. para organizar ideias. porque é uma forma de me forçar a ter um diálogo com princípio, meio e fim comigo própria. porque passar as ideias, as nuvens de pensamento, o fluxo de consciência para palavras é essencial para desatar nós. pode é dar-se o caso de parte dessas palavras não servirem, não requererem ou não admitirem ser partilhadas. e há que respeitar a vontade das palavras. principalmente daquelas que generosamente ajudaram a desatar nós.

detesto que me digam o que (não) devo vestir

detesto que me digam o que não devo vestir, seja o paternal “vais sair assim? onde está o resto da saia?” ou o venenoso “ela não usa saias, usa cintos” (ambos omnipresentes nos anos da faculdade).

detesto o que está por detrás de um “aqui toda a gente se veste como funcionários públicos e depois… depois apareces tu” (pela voz de alguém que também passara a fazer parte da família institucional mas que me conhecia de antes).

detesto o sentencioso “não sei como é que consegues andar com esses tacões todos os dias”. detesto ainda mais ter que reprimir o automatismo da réplica sarcástica “porque me fazem sofrer e eu nasci para sofrer” e substituí-la pelo sorriso politicamente correto a enquadrar “porque me dá prazer”.

detesto quando me exigem que tenha uma conversa séria com uma colega (“porque és superior hierárquica dela”) sobre a forma como se veste porque “não é suficientemente feminina”. detesto que, presa na cúmulo-nimbo de adversativas que se formou na minha cabeça, eu tenha pactuado.

detesto que me digam o que devo ou não devo vestir. ou calçar.
detesto que me digam qual é a cor de batom mais adequada para o meu tom de pele.
detesto que me digam o que devo pensar. ou não pensar.
detesto que me digam como devo rir. ou deixar que me faça sorrir.

detesto que me digam que música tenho que ouvir.
ou que música é um desperdício de tempo. do meu tempo.
detesto que me digam o que devo partilhar. e como devo partilhar.
detesto que me digam como devo sonhar.
com o que devo sonhar.
que sonhos são mais adequados para o meu tom de pele.
ou para alguém que usa tacões.

detesto que me digam quem devo ser.
ou quem devo parecer ser.
ou querer ser.

e, mesmo profundamente agnóstica, dou por mim acidentalmente cristã não querendo para os outros aquilo que não quero para mim (por muito que… ver alguém a usar sabrinas todos os dias me provoque dores de costas… by proxy)

559568_10204637508565115_5538804329549841199_n

 

 

cafuné

quando eu era miúda, a minha avó fazia-me cafuné para eu adormecer. e eu sentia-me especial porque a única coisa que ela recebia de volta era o meu sorriso que rapidamente se diluía no sono.

quando eu era miúda, a minha avó fazia vestidos rodados para mim e biquínis de croché para as minhas bonecas.

quando eu era miúda, a minha avó era devota de júlio dinis e a morgadinha dos canaviais foi o primeiro ‘livro de crescida’ que eu li.

quando eu já não era assim tão miúda mas ainda era miúda, fiz mais furos nas orelhas do que aqueles que a minha mãe permitiu. a minha avô adorava ver-me com três pérolas em cada orelha.

quando eu ainda era suficientemente miúda para ter muito tempo disponível mas já não era tão miúda que não percebesse que nem sempre podia comprar a roupa que eu queria usar, a minha roupa preferida era a que era feita por mim. nessa altura, a minha avó decidiu que era eu que ia herdar a máquina de costura dela.

hoje, decidida a manter-me rodeada de quem reconhece o que da miúda que fui se mantém na mãe do meu miúdo, adormeço o príncipe do caos com cafuné, faço fatos de x-men em croché, sou devota de saramago e tenho um espaço reservado na minha sala para a máquina de costura da minha avó.

digo eu…

“if it’s our decisions that define who we are, than this is who i am”

parece (e é!) paleio de diálogo melodramático de último episódio de série sobre pessoas e sobre aquilo de que são capazes por aqueles a quem são leais. também sobre os limites que nos impomos na busca por aquilo que queremos. no fundo, sobre o preço de cada um. sim, porque todos temos um preço, certo?
e este é, sem dúvida, um aspeto em que é a ficção que imita a realidade, a arte que imita a vida.
digo eu…

preto no branco

hoje passaram-me umas dezenas largas de livros pelas mãos. literalmente. literalmente dezenas. literalmente pelas mãos.
livros para miúdos. livros para graúdos. livros para graúdos perdidos à procura dos miúdos que não chegaram a ser.
histórias doces. poemas agridoces. recordações em forma de crónicas. fugas para a frente embebidas em versificação clássica.

homero. um cheirinho a shakespeare. o meu pé de laranja lima. um saramago que me falta. um torga com bichos. um torga sem bichos. um o’neill com ar de desafio. lorca digno de encadernação especial e ainda protegido por plástico.
ilustração inspiradora. ilustração tipo-estado-novo. ilustração a merecer um fósforo acesso.
mia couto e a terra vermelha. a anne frank sentada junto à secretária e a sorrir para a foto. uma sophia esculpida pela objetiva de cutileiro. as cantigas de escárnio e mal dizer revisitadas por natália correia. o desassossego do fernando recolhido e organizado pelo bernardo. páginas e páginas de um régio insistentemente esgotado quando o procuro.

e, no canto da mesa, o vonnegut a olhar de soslaio. nitidamente ciumento.
pudera!

no olho do furacão

era noite escura mas ainda em tons terra e quente dentro do casaco grosso. os restos da festa rolavam pelo chão e aninhavam-se pelos cantos, como os cães a darem voltas sobre si mesmos antes de dormir.

eu voltava a casa. sozinha, estranha mas confortavelmente sozinha. não estava certa de estar a fazer o caminho que me levaria até ao local onde tinha estacionado o carro ou à porta de onde tinha saído horas antes ainda de batom nos lábios e sem roupas a cheirar a tabaco.

dei por mim a passar no meio de um grupo de miúdos (não sei se eram realmente miúdos; hoje em dia qualquer pessoa com menos de 30 anos parece-me um miúdo), também eles eles davam voltas sobre si mesmos no regresso a casa. sem alternativa, atravessei a nuvem que formavam. pararam e, como se um (sonho dentro do) sonho se tratasse, formaram círculos concêntricos. e eu era o centro. olhavam para mim como se me conhecessem; melhor: como se estivessem à minha procura. com esse mesmo olhar e declarada porém calorosamente impediam-me a passagem e forçavam-me a baixar-me, a sentar-me no chão. sentei-me e, no segundo seguinte, estava rodeada por quinze ou vinte dos tais miúdos, sentados, aninhados, deitados, encostados e apoiados uns nos outros.

uma rapariga sentou-se junto a mim, como se tentasse ter a perpetiva mais próxima da minha que lhe era possível. tinha uma nuvem de cabelo escuro e fofo, apanhado em 4 ou 5 puxos espalhados pela cabeça de forma naturalmente aleatória. os seus olhos cor de chocolate ganhavam enquadramento atrás dos óculos de armações pretas e de dimensões exageradas. com o braço esquerdo, abraçou-me a cinta e, com a mão direita, apontou para um rapaz ainda mais miúdo do que a generalidade daqueles miúdos. estava sentado, de braço no ar e de sorriso nos lábios como um aluno que sabe a resposta à pergunta que a professora fez. a rapariga dos olhos cor de chocolate apontava para ele e dizia “aquele é o … … … (é triste mas é verdade: até nos sonhos sou má com nomes) e foi ele que nos disse que hoje devíamos vir por aqui. ele queria muito conhecer-te.”

eu estava competamente paralizada e saber o que fazer era irrelevante e desnecessário. comecei a relaxar e a tentar deixar-me levar.

levantou-se outra mão. a minha narradora explicou: “a maria (talvez seja preferível inventar nomes do que chamar-lhes espaços em branco) diz que lhe fazes lembrar o colo da avó.”

outra mão: “a joana diz que não percebe porque é que estamos todos parados à tua volta. também diz que já não tem frio.” várias mãos no ar: “eles também já não têm frio.”

à medida que a mão direita da rapariga do cabelo de nuvem mudava de direção, o seu alvo anterior aconchegava-se no amigo mais próximo e adormecia.

mais uma mão no ar: “o miguel diz que te preocupas demasiado e que vai correr tudo bem. diz que podes confiar porque ele sabe.” o miguel adormeceu.

as mãos erguiam-se, uma a uma; a rapariga passava a mensagem. umas vezes, sobre eles, outras vezes, sobre mim. o que é que se estava a passar? quem eram aquelas pessoas?

ergueram-se duas mãos paralelas: “os gémeos querem que saibas que, mesmo quando estão juntos, também têm momentos em que se sentem incompletos. chamam-lhe saudades. não um do outro mas do que existe dentro de cada um deles e não é comum aos dois. dizem também que tinham saudades tuas e que, neste momento, se sentem completos.”

fomos ficando cada vez mais sozinhas, eu e a minha guia, até que éramos as únicas acordadas. eu tinha uma rapariga que dormia com a cabeça no meu colo (e ela tinha a irmã deitada junto a ela) e um miúdo enroscado no meu braço esquerdo e a usar o meu ombro como almofada. finalmente, fui capaz de falar: “quem são vocês? porquê eu?”

“não sabíamos que andávamos à procura. nem sabíamos que era a ti que procurávamos. estávamos cansados e precisávamos de encontrar um sítio sossegado para dormir.” a minha confusão e incredulidade estavam à flor da pele. “parece-te estranho? é normal: o que, para uns, é um furacão, para outros, é o olho do furacão. o único sítio onde é possível descansar.”

já todos dormiam. fui embora. fui dormir… acho eu.