Categoria: kriptonite
sobre o que me faz mal. sobre o que me (nos) faz menos do que sou (somos). sobre o que, mesmo estando ali juntinho à origem, não faz parte do nosso adn.
não tenho palavras para ti, mãe de ninjas
não tenho palavras.
pelos visto, era suposto ter palavras. para ti. para te aquecer.
palavras para te abraçar. para te dizer que estou aqui, que sou tua fã, que acho que o universo passou das marcas.
para te dizer que nada disto faz sentido porque nada disto é para fazer sentido. que é despropositado, atroz e incomensuravelmente cruel.
não tenho (e, como deves imaginar, não quero ter) forma de te dizer que compreendo como te sentes, o que se passa dentro de ti, o que deves ver no horizonte.
as palavras que tenho são egoístas.
podem falar da vontade que tenho de ir a correr ter contigo e abraçar-te, mas não podem fazer-te sentir abraçada. podem dizer-te que podes contar comigo, mas não podem fazer nada por ti.
as minhas palavras egoístas só podem, confusa e atabalhoadamente, falar por mim, de mim. e eu estou cá fora. e tu estás no meio de… tanto…
…
…
…
entretanto, querida mãe de ninjas, deixo a chave debaixo do tapete da entrada. a casa é tua. quando quiseres, terei chá e uma manta quentinha. e serei silêncio ou conversa.
conforme preferires.
detesto que me digam o que (não) devo vestir
detesto que me digam o que não devo vestir, seja o paternal “vais sair assim? onde está o resto da saia?” ou o venenoso “ela não usa saias, usa cintos” (ambos omnipresentes nos anos da faculdade).
detesto o que está por detrás de um “aqui toda a gente se veste como funcionários públicos e depois… depois apareces tu” (pela voz de alguém que também passara a fazer parte da família institucional mas que me conhecia de antes).
detesto o sentencioso “não sei como é que consegues andar com esses tacões todos os dias”. detesto ainda mais ter que reprimir o automatismo da réplica sarcástica “porque me fazem sofrer e eu nasci para sofrer” e substituí-la pelo sorriso politicamente correto a enquadrar “porque me dá prazer”.
detesto quando me exigem que tenha uma conversa séria com uma colega (“porque és superior hierárquica dela”) sobre a forma como se veste porque “não é suficientemente feminina”. detesto que, presa na cúmulo-nimbo de adversativas que se formou na minha cabeça, eu tenha pactuado.
detesto que me digam o que devo ou não devo vestir. ou calçar.
detesto que me digam qual é a cor de batom mais adequada para o meu tom de pele.
detesto que me digam o que devo pensar. ou não pensar.
detesto que me digam como devo rir. ou deixar que me faça sorrir.
detesto que me digam que música tenho que ouvir.
ou que música é um desperdício de tempo. do meu tempo.
detesto que me digam o que devo partilhar. e como devo partilhar.
detesto que me digam como devo sonhar.
com o que devo sonhar.
que sonhos são mais adequados para o meu tom de pele.
ou para alguém que usa tacões.
detesto que me digam quem devo ser.
ou quem devo parecer ser.
ou querer ser.
e, mesmo profundamente agnóstica, dou por mim acidentalmente cristã não querendo para os outros aquilo que não quero para mim (por muito que… ver alguém a usar sabrinas todos os dias me provoque dores de costas… by proxy)

lista de caca (i.e., onde o seth godin e a banda sonora do natural born killers se cruzam)
<introito>
1. hoje, o universo — esse parvalhão — achou que tinha coisas a dizer-me e, tal como vem a ser a ser hábito, optou por fazê-lo por interposta pessoa, mais precisamente pela pena qwerty do seth godin.
no recado em causa, o xor godin fala da potencial qualidade dos posts que nunca chegou a escrever face à qualidade efetiva dos posts que chegam a ver a luz do dia, isto tudo como metáfora para a (não) realização dos nossos sonhos. e o que eu gosto de metáforas! (e o universo — parvalhão mas um parvalhão atento — sabe bem disso.)
(aqui eu devia escrever qualquer coisa sobre os posts que também não chego a escrever e blá-blá-blá e ronhó-nhó-nhó… mas eu não quero insultar a inteligência de ninguém, portanto fico-me pelo parênteses.)
The thing is, an unwritten post is no post at all. It’s merely a little bit of gossamer on wings of hope. Doesn’t count.
2. ando a ouvir velharias no carro (não, não vou relatar o que quer que seja sobre a crueldade que me limitou a seleção musical). entre essas velharias um leitmotiv que não revisitava há uns anitos: a banda sonora do natural born killers. e blá-blá-blá e não sei o quê sobre a minha fase grunge há 20 e pico anos e sobre as miúdas de 18/20 anos deste século não saberem usar camisas de xadrez e cabelo pela cinta… e eis que as L7 entram em cena.
When I get mad and I get pissed
I grab my pen and I write out a list
</introito>
kal-el
o nome dele é kal-el.
melhor: o verdadeiro nome dele é kal-el.
mas só na sua terra natal, só na sua origem, no seu berço, na sua génese, no seu adn é que o seu nome é kal-el.
fora daí, no seio da humanidade, assume um nome banal, uma identidade banal. no seio da humanidade, não pode ser aquele cuja força vem do sol, não pode ser aquele que, forçado pelo compromisso com os seus próprios valores e integridade, enfrenta desafios messiânicos.
fora do berço, da génese, flutuando sobre a humanidade, aceita o folclore dos nomes que lhe atribuem, pois sob a capa do folclore pode voltar a ser um pouco kal-el – embora nunca o possa dizer.
sob a capa do folclore é rápido, invencível, magnífico e possuidor da força necessária para transformar um pedaço de carvão em diamante.
sob a capa do folclore, pode voltar a ser kal-el, mas um kal-el com poderes superiores aos que teria no berço, na génese.
sob a capa do folclore, é especial, único, o derradeiro protetor.
sem a capa do folclore, sobrevive atrás da banalidade.
sem a capa do folclore, não se pode dar ao luxo de ser kal-el.
para ser “normal”, nunca poderá ser kal-el. para ser “normal”, tem que usar a máscara de mero humano. para ter lugar no seio da humanidade, kal-el tem que ser banal.
para ser aceite, não pode ser único, muito menos ser íntegro e comprometer-se com os seu valores.
kal-el não pode ser kal-el se quiser fazer parte do mundo onde vive.
para fazer parte desse mundo, da tal humanidade, kal-el tem que ser banal, tem que esconder a força do sol amarelo atrás de uma máscara de banalidade.
kal-el tem que ser menos. tudo porque não pode voltar para casa, porque não pode voltar à génese, porque não pode voltar para onde o seu adn é normal.
kal-el.
o seu verdadeiro nome é kal-el.
em tempos, tive um projeto que foi como um filho. mutilaram-no
2004. tudo era novo. havia sonhos, expectativas, cuidados a ter, muita insegurança. havia, acima de tudo, uma fé imensa no valor e o potencial do que seria esse filho. era quase uma espécie de messias: o seu principal propósito era fazer as pessoas melhores, mais felizes, mais mais.
e, como se isso não chegasse, essas pessoas que íamos ajudar a serem melhores, mais felizes, mais mais, essas pessoas eram crianças.
ouro sobre azul, portanto.
grande responsabilidade e grande privilégio. muito trabalho, muito estudo, muito trabalho em equipa-família.
a cada passo, sustínhamos a respiração.
a cada passo, celebrávamos, mesmo quando o resultado não era bom – a cada passo, celebrávamos, porque, a cada passo, aprendíamos.
aprendíamos a ensinar. aprendíamos a usar um meio novo – o digital – para ensinar que, para aprender, o sonho deve ser uma constante. aprendíamos a criar estratégias para ensinar que errando também se aprende e que o que não pode faltar é vontade e coragem para tentar.
tentar, experimentar, explorar, aprender, ser autónomo. aprender com autonomia e aprender a deixar os números, as letras, os ossos, os triângulos e as esdrúxulas entrar no país das maravilhas.
aprender sem precisar de ter um adulto por perto para ditar certos e errados, para impor conceitos artificiais de normalidade.
escusado será dizer que o resultado não esteve – nunca estaria! – à altura do sonho. o sonho era tudo. simplesmente tudo. o resultado não foi tudo, mas foi muito. e o orgulho também. muito. muito mesmo.
tudo isto passou-se antes de a minha alma de mãe decidir que estava na hora de encomendar o príncipe do caos. e até o príncipe do caos ter idade para aprender com “o meu filho mais velho” passaram-se anos. o mais velho saiu das mãos da equipa-família. foi preciso adequá-lo a novas “circunstâncias”. os sonhos messiânicos de quem o criou deixaram de ser relevantes, a família deixou de ser relevante. o projeto já não era um filho para quem o tinha nos braços, era um conjunto de tarefas, de post-its, de listas a precisar de vistos.
(…)
hoje (30.março.2015), o meu príncipe do caos está a brincar com “o mais velho”. não posso dizer que não esteja a divertir-se. está e tenho a certeza que vai querer repetir. e vai chatear-me muitas vezes para repetir (e eu vou deixar, claro.)
no entanto, não me falta vontade de chorar, porque de cada vez que a criança (caracterizada por muitos como “cognitivamente acima da média”) me pede ajuda porque não percebe o que deve fazer e eu reconheço imediatamente o que é que não teve honras de fazer parte da lista de tarefas (e existia no sonho da equipa-família).
o meu projeto-filho foi mutilado. e o meu filho-filho não vai ter oportunidade de usufruir do que foi criado a pensar em crianças como ele. o príncipe do caos só vai conhecer a versão lobotomizada.
aquela inconstância típica de mesas com as pernas tortas
a conversa flui
olhos nos olhos, sorrisos abertos
há gargalhadas, cumplicidade, parvoíce em geral
mas a mesa balança
sem interromper o discurso olhamos para a mesa e sorrimos
a conversa continua
as gargalhadas e a parvoíce também
mas o raio da mesa continua a balançar
o sorriso começa a revelar a irritação
o discurso é interrompido
encosto a minha perna à perna da mesa para ver se a mantenho estável
alguém termina a frase que tinha ficado a meio
com coragem e assertividade retoma-se a conversa
os sorrisos regressam
mas o raio da mesa não para quieta como se estivesse decidida a merecer a redundância
(…)
“pedimos a conta?”
a inconstância típica de mesas com as pernas tortas parece-me uma característica tão humana…
a inconstância parece-me tão tipicamente torta…
as características tortas da inconstância humana parecem-me tão típicas…
serão as mesas com pernas tortas tipicamente humanas?
eu, herege, me confesso: não sou fã de sophia…
… mas, volta e meia, ela cruza-se no meu caminho e, por alguma razão, decide dizer-me coisas.
(por regra, não são daquelas razões que a minha razão desconhece. são das outras, das razões que surgem de acasos mas nada têm a ver com acasos. são daquelas razões de quem fala só porque tem a certeza que tem razão.)
e diz-me coisas sobre coisas que os olhos humanos veem quando acreditam que é legítimo aspirar ao divino. diz-me coisas que ela sabe porque sentiu e viu e sonhou, coisas que ela sabe que eu preciso de saber porque preciso de sentir e ver e sonhar.
e hoje voltou a dizer-me coisas. coisas sobre o que eu sinto e o que eu vejo e o que eu sonho. coisas que me lembram que acreditar que aspirar ao divino é a coisa mais legitimamente humana que posso fazer.
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negaçãoTempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidãoTempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaçaSophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Livro Sexto’
e disse-me coisas que, para ela, têm mais de 50 anos, enquanto que, para mim, não podiam ser mais atuais.
tive uma ideia!
– tive uma ideia! uma ideia genial!
– conta!
– estive a pensar no que temos feito até aqui e no que podia ser o nosso próximo passo.
– e então?
– acho que era super giro se fôssemos à lua.
– à lua?
– sim! já viste? já fomos ao brasil, praia e bissau…
– não sei se se pode dizer que fomos… no caso do brasil, foi uma videoconferência. praia foi mais uma espreitadela no street view. e bissau… bem, deve ter sido outra equipa.
– que falta de visão! the big picture! tens que ver the big picture!
– pois… se calhar, não tenho essa capacidade. e como é que faríamos? nunca fizemos nada que tivesse a ver com exploração espacial…
– aquilo não tem nada que saber. tenho um amigo que é mecânico. ele constrói-nos um foguetão.
– um foguetão? pensava que os foguetões eram coisa de desenhos animados.
– foguetão… avião… nave espacial… vai dar tudo ao mesmo.
– ok. mas também precisamos de fatos espaciais.
– já pensei nisso tudo. a dona ermelinda tem muito jeito para fazer as roupas para os miúdos usarem nas festas de natal. aposto que ela faz fatos de astronautas num abrir e fechar de olhos.
– … … … não tinha pensado nisso.
– mas eu pensei. aliás, eu já pensei em tudo!
– que bom! temos muita sorte por te termos a liderar-nos.
– eu sei. mas ainda não te contei a parte melhor.
– conta!
– sabes quem é que vai ter a honra de ser o piloto e ir à lua?
– tu?
– não. não posso ser eu a fazer tudo. decidi que vais ser tu!
o post de schrödinger
uma experiência teórica.
uma construção mental.
um paradoxo?
“não é fácil gozar o espetáculo de um planetário quando o universo está lá fora à nossa espera…”, disseste-me.
ficar ou ir.
ficar quando já não há razões senão para ir.
ir quando o potencial de ficar ainda não se concretizou.
ir. ficar.
ficar e ir.
ficar, assim, é apenas não ir.
não ir, assim, não é nada.
não ir, assim, é ausência de tudo o que significou ficar.
não ir, assim, é rejeitar tudo o que havia para concretizar quando a única coisa a considerar era ficar.
ir. não ficar.
ficar, assim, é só não ir.
o planetário já não passa de um edifício de betão onde fazem números de ilusionismo. o universo, esse, está lá fora à nossa espera.
(fica em dívida a epanadiplose)
