Lobisomem, eterno apaixonado

Bela lua cheia
só tu me vês como eu sou
só tu me permites ser quem sou

Quando te vejo
tudo muda
e eu mudo
transformo-me no animal que existe dentro de mim
transformo-me em mim
transformo-me naquilo que o meu coração realmente é

E corro pelos campos
embrenho-me nos bosques
e volto a ser parte da natureza

Bela lua cheia
só contigo volto a ser livre
bela lua cheia
só contigo volto a ser parte da natureza
só contigo volto a ser livre.

Quetzalcoatl, serpente emplumada

Chamem-se saudosista se quiserem. Não me importo.

Eu tenho princípios e valores. E eu tive o privilégio de conhecer os Maias e os Astecas. Eles, sim, eram povos avançados, povos civilizados. Para eles, eu era a “serpente emplumada” e adoravam-me como um a deus. Agora, são tantos aqueles que nem sequer sabem quem eu sou… Não vou amuar, mas confesso que me choca e que me sinto ofendido.
Eu era o deus preferido dos sacerdotes. Eu, o grande Quetzalcoatl. Eu era o deus do vento e da luz. Viam em mim o alimento do corpo e o alimento da mente.
Eu representava a Vida e a Terra.
Agora, olham para as imagens minhas nas paredes das pirâmides e dos templos e perguntam-se “Que dragão é este?”. Mas, não, eu não vou amuar. Eu sou o grande Quetzalcoatl. Eu sou a divina serpente emplumada.

Iara, a sereia do Amazonas

Era uma vez uma princesa índia. Ela pertencia a uma tribo nómada do povo tupi e crescia feliz e livre nas margens do rio Amazonas.

Era querida pelos outros índios, pelas árvores e até pelo sol. Mas os seus grandes amigos eram os animais do rio: ela contava-lhes histórias e eles brincavam com ela; ela cantava-lhes canções de embalar e eles contavam-lhe segredos do mundo aquático.
Era uma vez uma menina índia, livre e feliz. Essa menina tratava os animais do rio como se fossem seus irmãos, mas essa amizade saiu-lhe cara, pois desagradava a uma certa deusa. A deusa tinha muita inveja da menina de pele cor de caramelo e, um dia, vendo-a a cantar para um cardume de peixes prateados teve um ataque de fúria e transformou a pequena índia numa sereia. “Agora, vais passar a vida na água com os esses teus amigos e longe dos humanos. E quando um humano ouvir o teu canto, vai ficar enfeitiçado e acabará por morrer afogado ao teu lado. Nunca mais terás companheiros humanos!”.
Essa menina de pele cor de caramelo era eu, livre e feliz. Essa sereia amaldiçoada sou eu, condenada a viver sem companhia da sua espécie. Pretendentes não me faltam. Eles veem-me sentada numa rocha a pentear os meus belos e longos cabelos verdes. Enamoram-se da minha pele cor de caramelo, ficam encantados com a minha voz e vêm atrás de mim. Mas assim que entram na água, forma-se um violento remoinho, o seu sorriso desaparece e eles morrem afogados entre gritos e pedidos de ajuda.
Era uma vez, uma sereia amaldiçoada, de pele cor de caramelo e escamas prateadas. Uma sereia, triste e solitária, que percorre o rio na esperança de encontrar um companheiro.

Górgona em s-s-sofrimento

C-c-céus, que dor de cabeça! Que insuportável c-c-cefaleia. Indescritível s-s-sofrimento.
S-s-são as s-s-serpentes. As s-s-serpentes na minha cabeça: s-s-sibilam, s-s-sussurram, s-s-segredam.
Elas até s-s-são úteis quando quero transformar alguém em estátua de pedra. Mas não s-s-se calam. Todo o s-s-santo dia, s-s-só dizem disparates. S-s-sem parar para raciocinar, recitam palermices s-s-sem s-s-sentido.
S-s-sinceramente, já não s-s-sei que mais faça para que c-c-cessem com tamanha insanidade. S-s-será que consigo transformá-las em s-s-seixos?
Se calhar, s-s-só me resta tomar uma s-s-solução de ácido acetilsalicílico e ir fazer uma s-s-sesta.

Ya-te-veo, a árvore carnívora

(“Estou a ver-te…”)
Houve um tempo em que os mapas do mundo só tinham a Europa, o Norte de África e uma parte da Ásia. Era assim porque, na verdade, ninguém sabia o que existia para além desses territórios. Imaginava-se que existiriam monstros terríveis, criaturas medonhas, terras bravias e mares tempestuosos com ondas capazes de engolir qualquer navio.
Mas esse tempo acabou, e acabou porque houve gente com coragem para enfrentar os mares tempestuosos, gente decidida a matar monstros e a amansar outras criaturas. Essa gente acabou por descobrir que era possível navegar por ondas mais benéficas e acabou por compreender que, sim, as havia criaturas desconhecidas mas eram apenas espécies novas, adaptadas a habitats também eles novos e desconhecidos. Pelo menos, foi o que eles pensaram…
(“Estou a ver-te…”)
Bravos e destemidos, os descobridores exploraram todo o continente africano e os conquistadores dominaram o continente americano. Cortaram mato, criaram cidades e mataram índios. Achavam-se os maiores e, no início, não deram por mim.
(“Estou a ver-te…”)
Eu pertencia a uma das tais espécies novas e facilmente me adaptava ao clima e ao solo dos locais onde as minhas sementes caiam levadas pelo vento. O meu tronco era baixo mas os meu ramos muito compridos. Achavam-me exótica e não se apercebiam dos meus olhos, pensavam que eram folhas exóticas.
“Estou a ver-te…” era a última coisa que ouviam quando eu os apertava com os meus braços longos e fortes como tentáculos. “Estou a ver-te…” era a última coisa que ouviam antes de eu os comer.

Homem Invisível e incompreendido

– Está? Bom dia. Eu já tinha ligado ontem, minha senhora. Sim, tenho umas fotografias para vender e estou a contactar várias revistas para saber se têm interesse em comprá-las. Exato, é isso mesmo. São fotografias da mesma estrela de cinema que fez a vossa capa na edição anterior. Não, ninguém me viu. É impossível que me tenham visto. Absolutamente impossível. Claro que tenho a certeza, minha senhora. E tenho a certeza de que não estava lá mais nenhum colega meu, pois teria sido visto e apanhado pelos guarda-costas. Não, já lhe disse: é impossível que me tenham visto. Exatamente, são fotografias exclusivas. Preciso de saber que valores estão dispostos a pagar antes de enviar algumas provas. Eu compreendo, minha senhora, mas é assim que as outras revistas trabalham. E eu sou um profissional e não posso arriscar a colocar o meu trabalho nas vossas mãos sem garantias de que o valorizam. Não, minha senhora, não é negociável: preciso de saber valores de antemão. Desculpe? Como? Importa-se de repetir? Não estava a contar com uma oferta tão baixa. Não, não estou interessado. Não, minha senhora, por esse valor nem pensar. Sou um profissional e já trabalho com a vossa revista há mais de 5 anos. Não, minha senhora, já lhe disse que esse valor não me interessa. Trata-se de um trabalho profissional, que resulta de um investimento de muitas horas. Pelo valor que me está a oferecer, percebo que não estão interessados em fotografias exclusivas das férias de uma estrela como esta. Não, minha senhora, sendo assim, vou contactar a vossa concorrência. Pois, minha senhora, eu compreendo, mas, como deve calcular, não vou vender o meu trabalho como se eu fosse um paparazzo amador. Tenha uma boa tarde, minha senhora, e bom trabalho.
Parece impossível! Eu sou um profissional e tratam-me como se fosse fácil tirar fotografias a pessoas que não querem que lhes tirem fotografias…

Wendigo, um monstro que já foi humano

Eu não fui sempre assim. Eu tinha família e amigos. Trabalhava num banco e jogava futebol duas vezes por semana. Às vezes, tomamos as coisas como certas e somos apanhados desprevenidos. Nunca pensei que me pudesse acontecer isto a mim. A mim? Ainda me custa a acreditar…
Não sei se consigo explicar como tudo se passou. Sei que, certo dia, dei por mim em apuros, sem ter o que comer e sem saber como ia sair daquela situação. Dizem que o verdadeiro caráter das pessoas se revela nos momentos mais difíceis. Não sei se é verdade e custa-me a acreditar que… que o filho que a minha mãe criou com tanto carinho… que o menino que dizia sempre “obrigado” e “se faz favor”… que o homem que era um cavalheiro e um pai dedicado… que um ser humano de carne e osso se transformasse num monstro.
E é isso que sou agora: um monstro. Um monstro cruel e sanguinário. Um monstro que deixou para trás toda a sua humanidade. Não consigo evitar, é mais forte do que eu. Não foi uma transformação instantânea, foi mais como uma metamorfose. Em pouco tempo, o meu corpo humano transformou-se num organismo podre e nojento, o meu sangue transformou-se numa espécie de lama viscosa.
Agora sou um monstro, um ser horrível que vive para caçar e caça para viver. Dizem que o verdadeiro caráter das pessoas se revela nos momentos difíceis. Será verdade?

O Esqueleto bibliotecário

Aproximem-se, meninos e meninas. Não tenham medo! Sou um esqueleto com histórias para contar. Escolham um livro, um livro qualquer. Nem preciso de o abrir, sei as histórias todas de cor e salteado.
Eu era bibliotecário e, como podem ver, morri e acabei por ficar apenas ossos. Agora, sou um esqueleto que vive na biblioteca. É um sítio maravilhoso, aprende-se muito e sonha-se mais ainda. Como tenho muito tempo livre, já conheço os livros todos de trás para a frente.
Não se deixem enganar pelo facto de eu não ter pele nem músculos nem cérebro: tenho as histórias todas entranhadas nos ossos. Quando era vivo, tinha um corpo humano completo, com os sistemas todos e o sangue a correr e cabelo a crescer. Mas não tinha tanto tempo livre. Não tinha tempo para ler os livros todos.
Aproximem-se, meninos e meninas. Não tenham medo! Sou “apenas” um esqueleto, mas tenho tantas, tantas histórias para contar…

A receita da Bruxa

Asas de morcego, garras de jacaré, baba de lesma, patas de centopeia e, por fim, o ingrediente secreto, uma pitada de pó de carvão.
Junta-se tudo numa panela de ferro, tritura-se com a varinha mágica e mexe-se durante alguns minutos, em lume brando, até começar a ferver.

Depois, com muito cuidado, passa-se o caldo para uma tigela e deixa-se arrefecer. Para obter melhores resultados e uma textura mais rica, deixar destapado, ao relento, numa noite de lua cheia.
Esta é uma receita muito antiga que a minha avó ensinou à minha mãe e que a minha mãe me ensinou a mim.
É um dos segredos mais bem guardados pela minha família. E é graças a esta receita para máscara de beleza que gerações de mulheres conseguem manter intactas as suas olheiras roxas, os seus sinais pretos e a sua pele esverdeada.

Ciclope, o gigante ferreiro

O meu meu pai é o Céu e a minha mãe é a Terra.

Tenho dois irmãos que também são ciclopes. Nós nascemos há muito muito tempo, no princípio dos tempos, para sermos mais precisos. Nascemos fortes e poderosos mas a nossa história não é uma narrativa de glórias e conquistas. Desde sempre vivemos em cavernas e corredores escuros do submundo, entre as sombras e o calor da lava.

Não te deixes enganar, mesmo só com um olho, vemos melhor do que qualquer humano. E temos uma aparência medonha e grotesca, mas a nossa pele é como um escudo e até é resistente ao fogo.

Dominamos o poder do trovão e a magia do relâmpago, também somos os ferreiros dos deuses: forjámos os raios de Zeus, o rei de todos dos deuses, o tridente de Poseidon, o governante dos oceanos, e o elmo da invisibilidade de Hades, o príncipe dos Infernos.

Depois de criarmos as armas mágicas dos grandes deuses do Olimpo, lutámos com eles, lado a lado, e saímos vitoriosos. Não sabias? É normal: os livros narram as conquistas dos deuses, não contam a história dos seus ferreiros que também são guerreiros, os Ciclopes.