caetano, dr seuss e bruce lee

“de perto ninguém é normal”
(caetano veloso)

“we’re all a little weird and life’s a little weird. and when we find someone who’s weirdness is compatible with ours, we join up with them and fall in mutual weirdness and call it love.”
(dr seuss)

“i’m not in this world to live up to your expectations and you’re not in this world to live up to mine.”
(bruce lee)

a vida é feita de padrões geométricos a preto e branco e dos contornos indefinidos do arco-íris. de trovões e de mozart. de relâmpagos e de pirilampos.

o mundo é feito de cafuné e de armas biológicas. de mães sem filhos e de crianças que dormem na rua. de tecnologia que parece ficção e de desumanidade que quem dera que fosse ficção.

as pessoas são feitas de sorrisos e de lágrimas, de sol e de chuva. as pessoas são feitas de sorrisos à chuva e de lágrimas que secam com o calor do sol.

os corações são feitos de imperfeições e as almas de impurezas. os corações são músculos poderosos e as almas entidades abstratas e diáfanas.
cada coração tem o seu ritmo e cada alma a sua cor. e os ritmos são tantos e as cores tão diversas que são imensos os mundos dentro do nosso mundo. e as possibilidades de combinações musicais e cromáticas são infinitas.

e é por isso que a vida é arte.

“Same love”, Macklemore & Ryan Lewis

[Verse 1: Macklemore]
When I was in the 3rd grade
I thought that I was gay
Cause I could draw, my uncle was
And I kept my room straight
I told my mom, tears rushing down my face
She’s like, “Ben you’ve loved girls since before pre-K”
Trippin’, yeah, I guess she had a point, didn’t she
A bunch of stereotypes all in my head
I remember doing the math like
“Yeah, I’m good at little league”
A pre-conceived idea of what it all meant
For those who like the same sex had the characteristics
The right-wing conservatives think its a decision
And you can be cured with some treatment and religion
Man-made, rewiring of a predisposition
Playing God
Ahh nah, here we go
America the brave
Still fears what we don’t know
And God loves all His children
Is somehow forgotten
But we paraphrase a book written
35 hundred years ago
I don’t know

[Hook: Mary Lambert]
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
My love, my love, my love
She keeps me warm

(…)

[Verse 3: Macklemore]
We press play
Don’t press pause
Progress, march on!
With a veil over our eyes
We turn our back on the cause
‘Till the day
That my uncles can be united by law
Kids are walkin’ around the hallway
Plagued by pain in their heart
A world so hateful
Someone would rather die
Than be who they are
And a certificate on paper
Isn’t gonna solve it all
But it’s a damn good place to start
No law’s gonna change us
We have to change us
Whatever god you believe in
We come from the same one
Strip away the fear
Underneath it’s all the same love
About time that we raised up

[Hook: Mary Lambert]
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
And I can’t change
Even if I tried
Even if I wanted to
My love, my love, my love
She keeps me warm

[Outro: Mary Lambert]
Love is patient, love is kind
Love is patient (not cryin’ on Sundays)
Love is kind (not crying on Sundays)

“Cama de gato”, Kurt Vonnegut

– Consta-me que foi supervisor do doutor Hoenikker durante a maior parte da sua vida profissional – disse eu ao doutor Breed ao telefone.

– No papel – disse ele.

– Não estou a perceber – disse eu.

– Se de facto supervisionei o Felix – disse ele –, então, estou preparado para ter a meu cargo os vulcões, as marés, as migrações das aves e dos lemingues. Esse homem era uma força da natureza que nenhum mortal poderia controlar.

“Tás a ver?”, Gabriel o Pensador

Estás a ver o que eu estou a ver?
Estás a ver estás a perceber?
Estás a ouvir o que eu estou a dizer?
Estás a ouvir estás a perceber?

Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho
Nessa nossa trilha que eu não ando sozinho
Tenho visto tanta coisa tanta cena
Mais enbaquitante do que qualquer filme de cinema
E se milhares de filmes não traduzem nem reproduzem
A amplitude do que eu tenho visto

Não vou mentir pra mim mesmo acreditando
Que uma música é capaz de expressar tudo isso
Não vou mentir pra mim mesmo acreditando
Mas eu preciso acreditar na comunicação
Mas eu preciso acreditar na…
Não há melhor antídoto pra solidão
E é por isso que eu não fico satisfeito
Em sentir o que eu sinto
Se o que eu sinto fica só no meu peito
Por mas que eu seja egoísta
Aprendi a dividir as emoções e os seus efeitos
Sei que o mundo é um novelo uma só corrente
Posso vê-lo por seus belos elos transparentes
Mudam cores e valores mas tá tudo junto
Por mas que eu saiba eu ainda pergunto

Tás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como tem que ser?
Tás a ver a vida como agente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?

Nossa vida é feita
De pequenos nadas

Tás a ver a linha do horizonte?
A levitar, a evitar que o céu se desmonte
Foi seguindo essa linha que notei que o mar
Na verdade é uma ponte
Atravessei e fui a outros litorais
E no começo eu reparei nas diferenças
Mas com o tempo eu percebi
E cada vez percebo mais
Como as vidas são iguais
Muito mais do que se pensa
Mudam as caras
Mas todas podem ter as mesmas expressões
Mudam as línguas mas todas têm
Suas palavras carinhosas e os seus calões
As orações e os deuses também variam
Mas o alívio que eles trazem vem do mesmo lugar
Mudam os olhos e tudo que eles olham
Mas quando molham todos olham com o mesmo olhar
Seja onde for uma lágrima de dor
Tem apenas um sabor e uma única aparência
A palavra saudade só existe em português
Mas nunca faltam nomes se o assunto é ausência
A solidão apavora mas a nova amizade encoraja
E é por isso que agente viaja
Procurando um reencontro uma descoberta
Que compense a nossa mas recente despedida
Nosso peito muitas às vezes aperta
Nossa rota é incerta
Mas o que não incerto na vida?

Tás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como tem que ser?
Tás a ver a vida como agente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?

Nossa vida é feita
De pequenos nadas

A vida é feita de pequenos nadas
Que agente saboreia, mas não dá valor
Um pensamento, uma palavra, uma risada
Uma noite enluarada ou um sol a se pôr
Um bom dia, um boa tarde, um por favor
Simpatia é quase amor
Uma luz acendendo, uma barriga crescendo
Uma criança nascendo, obrigado senhor
Seja lá quem for o senhor
Seja lá quem for a senhora
A quem quiser me ouvir e a mim mesmo
Preciso dizer tudo que eu estou dizendo agora
Preciso acreditar na comunicação
Não há melhor antídoto pra solidão
E é por isso que eu não fico satisfeito em sentir o que eu sinto
Se o que sinto fica só no meu peito
Por mais que eu seja egoísta
Aprendi a dividi minhas derrotas e minhas conquistas
Nada disso me pertence
É tudo temporário no tapete voador do calendário
Já que temos forças pra somar e dividir
Enquanto estivermos aqui
Se me ouvires cantando, canta comigo
Se me vires chorando, sorri

Tás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como tem que ser?
Tás a ver a vida como agente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?

Nossa vida é feita
De pequenos nadas

“Both Sides, Now”, Joni Mitchell

Rows and flows of angel hair
And ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere
I’ve looked at clouds that way

But now they only block the sun
They rain and snow on everyone
So many things I would have done
But clouds got in my way

I’ve looked at clouds from both sides now
From up and down, and still somehow
It’s cloud illusions I recall
I really don’t know clouds at all

Moons and Junes and Ferris wheels
The dizzy dancing way you feel
As every fairy tale comes real
I’ve looked at love that way

But now it’s just another show
You leave ‘em laughing when you go
And if you care, don’t let them know
Don’t give yourself away

I’ve looked at love from both sides now
From give and take, and still somehow
It’s love’s illusions I recall
I really don’t know love at all

Tears and fears and feeling proud
To say “I love you” right out loud
Dreams and schemes and circus crowds
I’ve looked at life that way

Oh but now old friends are acting strange
They shake their heads, they tell me that I’ve changed
Well something’s lost but something’s gained
In living every day

I’ve looked at life from both sides now
From win and lose and still somehow
It’s life’s illusions I recall
I really don’t know life at all

I’ve looked at life from both sides now
From up and down and still somehow
It’s life’s illusions I recall
I really don’t know life at all

a voz que lê o que me rodeia

«Quando leio, há uma voz que lê dentro de mim. (…) A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas não é minha. Não é a voz dos meus pensamentos. A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas é exterior a mim. É diferente de mim. (…)
Não foram poucas as vezes que a voz que ouço quando leio me fascinou com as palavras que disse. Muitas vezes as suas pausas acenderam imagens no meu interior, nos lugares escuros que transporto dentro de mim e não conheço. Muitas vezes essa voz iluminou lugares dentro de mim: túneis que não conhecia. Muitas vezes vejo essa voz avançar por eles com uma tocha. Eu sei que a voz que ouço quando leio não tem medo. (…) Fico a ouvi-la durante horas e tento não esquecer nada porque quero aprender a perder-me menos vezes de mim próprio.»

(‘A voz que ouço quando leio’, “Abraço” de José Luís Peixoto)

dentro de mim, há uma voz que lê o que me rodeia. o que vejo, o que oiço, o que me aquece e o que me arrepia. essa voz é recetor e emissor ao mesmo tempo, pois recebe todos esses estímulos, processa-os e produz a sua  própria mensagem. umas vezes, fala-me com palavras concretas e coerentes, criando algum tipo de narrativa. outras vezes, o seu discurso deixa-me perdida numa montanha russa de afasia e tourette.

a voz que lê o que me rodeia gosta de metáforas, de legendar imagens com palavras de outras pessoas e de situar tudo com uma banda sonora. digo “gosta de” porque sei que a faz sorrir, mas, na verdade, é mais correto dizer “precisa de” ou “tem que”. palavras e apenas palavras não chegam. as palavras são bidimensionais e o que a voz que lê o que me rodeia tem para dizer requer uma multiplicidade de dimensões. e subdimensões. não se trata de complexidade mas de pormenor. daí a renda de bilros com as metáforas que ligam ideias e expandem o horizonte, com as palavras de outros que trazem novos narradores e focalizações diferentes da minha, com a música que… bem… a música que faz voar e sonhar e querer e sorrir e dançar.

a voz que lê o que me rodeia é maternal q.b.. diz-me diretamente aquilo que preciso de ouvir, mas preocupa-se comigo e tenta preparar-me para a dissonância cognitiva que sabe que ela própria vai provocar.

a voz que lê o que me rodeia irrita-se quando eu não lhe dou importância, quando tento convencer-me de que a leitura que ela faz é mais negativa do que a realidade ou quando, por razões com maior ou menor razão de ser, a acuso de estar a ver as coisas com lentes cor de rosa.
quando volto atrás para lhe dar razão, a voz que lê o que me rodeia sorri e não perde a oportunidade para me lembrar que tenho mais razões para confiar nela do que para não confiar.

romeiro, romeiro, quem és tu?

vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, pergunto. “não.”, respondes.
mas ficas. e ficas para me lembrar que estás desse lado e eu estou deste. e para me lembrar de que a culpa é minha. e eu aceito. sei que não é verdade, mas aceito.
e exiges-me que vá ter contigo, que atravesse e vá ter contigo.
exiges-me que vá ter contigo embora saibas que não tenho como.
és a minha cathy, do outro lado da janela mas deitada ao meu lado.
“i can not live without my life! i can not live without my soul!”
eu fiquei com a vida. tu levaste-me a alma.

adormeço para um sonho.
acordo para um pesadelo. de garras em riste.
sempre de garras em riste.
sem ti. e de garras em riste. as mesmas que te levaram para o outro lado da janela. as mesmas com que te atirei para os vendavais.
elas lembram-me da culpa.

viro costas às garras. viro costas ao animal. viro costas a tudo o que me lembra a culpa que aceito como minha. viro costas à humanidade com minúscula, a minha. viro costas à humanidade com maiúscula, a que olha para mim e só vê o animal.

fujo. de mim. e do animal.
mas não interessa aonde a minha peregrinação me leva: adormeço sempre para um sonho e acordo para um pesadelo.
por muito que fuja do animal e das humanidades, lá estão elas: as garras, em riste.
espadas poderosas, extensões letais de um esqueleto à prova de tudo.

espadas de um guerreiro. de um guerreiro sem horizonte, sem propósito. de um samurai sem amo, sem razão de ser.
preso ao animal. preso ao infinito do animal.
preso ao infinito que me mantém deste lado da janela e que me obriga a aceitar a culpa que dizes que é minha.
preso à ausência de horizonte. preso ao animal de esqueleto indestrutível.



vejo-te nos meus sonhos.
“podes ficar?”, desta vez és tu que perguntas. “não.”, respondo.
não posso ficar e não posso ir ter contigo. não é suposto ir ter contigo.
a culpa não é minha. a culpa é tua.
o coração do animal de esqueleto indestrutível acordou em riste quando viu que a tua humanidade tinha perdido o propósito. que estavas presa ao teu próprio monstro interior. e que já não eras um sonho. e as garras, em riste, estiveram à altura como um samurai cujo amo é a sua humanidade com minúscula.
a culpa não é minha. a culpa não é das garras. a culpa não é do animal.



– romeiro, romeiro, quem és tu?
– i am the wolverine.

james blake, o raio do miúdo!

sei que estou completamente viciada no ‘retrograde’, contudo não sei o que escrever sobre este miúdo (ainda para mais que o google acabou de me comunicar que tem 1,96m… há aqui muito para processar…).

sei que me surpreende com tudo. não só com cada música nova que oiço (e não estou a dizer que gosto de tudo o que faz!), mas com o que acontece (sim, acontecem coisas) depois de certas palavras, certas notas, certos silêncios, certas hesitações…

tudo é pensado e tudo acontece ao correr da pena.

é desconcertante.

é desconcertante que tudo isto venha de uma criança nascida no final da década de 80.

é desconcertante que seja capaz de recitar joni mitchell como se fosse co-autor da letra. pior: como se fosse capaz de escrever a música para ela.

é desconcertante a forma como enche uma música com alter-egos (ou heterónimos?) da sua própria voz e é desconcertante que essas vozes sejam tão esquizofrenicamente compatíveis com o nosso ouvido.

é desconcertante que as notas a contratempo sejam tão facilmente retrovertidas pelo complicómetro humano e se traduzam em emoções profundamente à flor da pele. quer na expectativa de contratempos, quer na sequência nos nossos contratempos.

note-se: não percebo nada de música. mas o raio do miúdo deixa bem claro que não preciso de perceber nada de música para deixar que me hipnotize e me transporte para outros estados sensoriais ou me permita dançar ao som do que está por detrás dos meus estados emocionais.

“Suddenly I’m hit
(…)
So show me where you fit
So show me where you fit”

só sei que é desconcertante, o raio do miúdo!