“When I am in my painting, I’m not aware of what I’m doing”

When I am in my painting, I’m not aware of what I’m doing. It is only after a sort of “get acquainted” period that I see what I have been about. I have no fears about making changes, destroying the image, etc., because the painting has a life of its own. I try to let it come through. It is only when I lose contact with the painting that the result is a mess. Otherwise there is pure harmony, an easy give and take, and the painting comes out well.

~ Jackson Pollock

 

“When I am in my painting, I’m not aware of what I’m doing”
When aware of what I am in my painting, I’m not aware
When I am my painting, I’m not aware of what I am
When what, what when, what of, when in, I’m not painting my I
When painting, I am in what I’m doing, not doing what I am
When doing what I am, I’m not in my painting
When I am of my painting, I’m not aware of when, of what
Of what I’m doing, I am not aware, I’m painting
Of what, when, my, I, painting, in painting
When of, of what, in when, in what painting
Not aware, not in, not of, not doing, I’m in my I
In my am, not am in my, not of when I am, of what
Painting “what” when I am, of when I am, doing, painting.
When painting, I’m not doing. I am in my doing. I am painting.

~ John Yau

porque uns sim e outros não

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

 

~ Sophia de Mello Breyner Andresen

preto no branco

hoje passaram-me umas dezenas largas de livros pelas mãos. literalmente. literalmente dezenas. literalmente pelas mãos.
livros para miúdos. livros para graúdos. livros para graúdos perdidos à procura dos miúdos que não chegaram a ser.
histórias doces. poemas agridoces. recordações em forma de crónicas. fugas para a frente embebidas em versificação clássica.

homero. um cheirinho a shakespeare. o meu pé de laranja lima. um saramago que me falta. um torga com bichos. um torga sem bichos. um o’neill com ar de desafio. lorca digno de encadernação especial e ainda protegido por plástico.
ilustração inspiradora. ilustração tipo-estado-novo. ilustração a merecer um fósforo acesso.
mia couto e a terra vermelha. a anne frank sentada junto à secretária e a sorrir para a foto. uma sophia esculpida pela objetiva de cutileiro. as cantigas de escárnio e mal dizer revisitadas por natália correia. o desassossego do fernando recolhido e organizado pelo bernardo. páginas e páginas de um régio insistentemente esgotado quando o procuro.

e, no canto da mesa, o vonnegut a olhar de soslaio. nitidamente ciumento.
pudera!

“Às vezes”, Nuno Júdice

Às vezes

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.

“líquida”, capicua

Sou líquida, e nasci para ser livre
Não há vidro que me prive, nem o céu é o limite
Sou líquida, sou a seiva do teu corpo
Severa em maremoto, serena numa gota
Sou líquida, e nasci para ser livre
Não há vidro que me prive, nem o céu é o limite
Sou líquida, sou a seiva do teu corpo
Severa em maremoto, serena numa gota
Líquida…
(…)
Dou de beber à Terra, dou vida, dou pesca, dou rega
E por mim haverá guerra
Se me quiserem presa, se me fizerem escassa
Se o meu corpo não chega para a vossa festança
Serei uma ameaça, darei luta
Enquanto for engarrafada, vendida, poluta
(…)

eu, herege, me confesso: não sou fã de sophia…

… mas, volta e meia, ela cruza-se no meu caminho e, por alguma razão, decide dizer-me coisas.
(por regra, não são daquelas razões que a minha razão desconhece. são das outras, das razões que surgem de acasos mas nada têm a ver com acasos. são daquelas razões de quem fala só porque tem a certeza que tem razão.)

e diz-me coisas sobre coisas que os olhos humanos veem quando acreditam que é legítimo aspirar ao divino. diz-me coisas que ela sabe porque sentiu e viu e sonhou, coisas que ela sabe que eu preciso de saber porque preciso de sentir e ver e sonhar.

e hoje voltou a dizer-me coisas. coisas sobre o que eu sinto e o que eu vejo e o que eu sonho. coisas que me lembram que acreditar que aspirar ao divino é a coisa mais legitimamente humana que posso fazer.

Data

Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 

Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Livro Sexto’

e disse-me coisas que, para ela, têm mais de 50 anos, enquanto que, para mim, não podiam ser mais atuais.

o manifesto é a forma mais sincera de elogio

eu quero um farol na praia
onde eu possa ouvir-me pensar
e tenha somente a certeza
das ondas, o rugir e o embalar

eu quero um farol na praia
onde eu possa aninhar-me com os intemporais
e tenha somente a certeza
dos xis verdadeiros e nada mais

eu quero música e livros
risos, histórias velhas e novas
eu quero desenhos na areia moldável
“eu quero a esperança de óculos
o meu filho de cuca legal”
eu quero ensinar e aprender
que o mundo não é feito
apenas de bem e de mal

eu quero um farol na praia
colorido, inteiro, altivo, singular
onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

onde eu possa ver crescer o meu caos
de coração livre para muito mais

……………….
porque as rainhas me inspiram (a elis é apenas uma delas)
porque respirar é, cada vez mais, um luxo
porque lata é coisa que não me falta
porque sim – a melhor razão de todas

oh captain, my captain!

o dia acordou cinzento, a teimar na possibilidade de chuva. eu acordei com sol no coração, mas logo absorvi nuvens mais escuras e densas que as do céu.
e chovi. e chovi. e voltei a chover.
reação aquosa imprevista mas não imprevisível. incontornável perante nuvens carregadas de um coração triste e também ele carregado.

hoje perdi (sim, primeira pessoal do singular. estou a falar de mim) uma das pessoas mais inspiradoras que me é possível conceber. as gargalhadas, claro. mas mais do que isso. muito mais do que isso. o espírito livre, indomável e sedento de verdade inconveniente. o gozo de ter o poder chocar apenas com a arrogância da transparência do discurso, das intenções.

e perdi-o de uma forma que não tem como cicatrizar. perdi alguém que era combustível para a minha nave espacial. alguém que, mesmo sem partilhar o meu espaço, me fez sentir abraçada e “normal” tantas e tantas vezes.

e perdi-o porque, de certo modo, ele estava perdido de si próprio, da sua grandiosidade e até da sua humanidade. perdi-o porque estava mergulhado numa tristeza que não tenho a presunção de achar que consigo compreender.

e não tem retorno. e volto a chover. e só consigo pensar nos xis que teria para lhe dar. e chovo.
resta-me partilhá-lo com o príncipe do caos. e chover. pelo que consigo colocar em palavras. e chover. pelo que apenas tem forma de nuvem negra dentro de mim.

obrigada.

entre caeiro e régio

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

~ “Para além da curva da estrada”, Alberto Caeiro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

(…)

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

~ “Cântico Negro”, José Régio