o nosso amor é verde (ou a importância de dar asas à miopia)

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o nosso amor é verde

… mas um dos teus – daqueles giros, daqueles importantes e que te fazem sorrir, daqueles que são mesmo teus e nada têm de meu – é azul.
o nosso amor é verde. o teu amor é azul.

o tratamento de imagem ajudou a tornar o registo mais real: o verde ficou mais verde, o sol mais quente, o espaço mais amplo.

na verdade, foram os pozinhos de ficção aplicados sobre a realidade da fotografia que acentuaram o realismo da memória.
é como se a criatividade tivesse dado asas à miopia. como se os pozinhos de ficção destilassem o que realmente é para mais tarde recordar.

na base, o cenário do verde fofinho e pintado com carinho com os lápis de cera que tanto detestas.
e, por cima desse cenário de píxeis saturados de verde, o movimento de duas bolas azuis: uma rola colada ao verde; a outra flutua, paralela à primeira. a que vai atrás é a que comanda. a comandada segue à frente.

4 coisas que o meu filho aprende com o meu pai

1. mesmo quando as coisas não fazem sentido, há que não esquecer o que é realmente importante

era meia-noite. o sol brilhava por entre as estrelas. num jardim sem árvores, sentado num banco de pau feito de pedra, um homem nu com uma faca no bolso lia, à luz de uma candeia apagada, um jornal sem letras que dizia:
– ó incas, ó incas, ó sol da arásia, dás-me a tua filha amásia, dá-zi-a?
– não!
– ah, maldito! vais morrer assado num penico de água fria!
– mais vale morrer do que perder a vida.

2. tudo tem uma explicação

– eu ia a subir, o careca-à-vítima vinha a descer. chocámos. o careca-à-vítima estendidinho no chão. juntou-se muita gente, veio a polícia.
– prrrrriiiii! está tudo preso!
– um momento, senhor guarda, eu explico: eu ia a subir, o careca-à-vítima vinha a descer…

3. o pessoal gosta é de festarolas, mas, se não houver alguém que ponha ordem nas coisas, acaba tudo à estalada

era dia de finados e os mortos, muito animados, fizeram uma grande festa. mas, no meio do molho, o esqueleto zarolho levou com um ovo na testa. levantou-se o agredido e, com ar de ofendido, pegou numa tranca mestra; deu tamanha trancada na caveira malcriada que os pôs fora da festa. foi tal o alarido que o coveiro prevenido as veio logo sossegar. e aquelas tais zarucas, que não eram nada malucas, foram-se logo deitar.

4. quando não temos uma resposta decente para dar, mais vale dar uma resposta que ponha fim às perguntas cretinas

[resposta a todas as variações possíveis da pergunta “o que é que estás / vais fazer?”]

colheres de pau!

silêncio

o silêncio enquanto o leite aquece no microondas e eu vou buscar o chocolate à despensa.
o silêncio quando acordo de noite porque te oiço falar (sinto que te sentas de olhos ainda fechados) e enquanto espero para perceber se voltas a dormir por ti ou se precisas de 3 nanossegundos de cafuné para acalmar.
o silêncio que fica no carro quando aumento o volume da música depois de te deixar na escola.

o silêncio enquanto o telemóvel toca e eu decido se me apetece atender, se me apetece falar, se me apetece responder a perguntas de quem se preocupa comigo.
o silêncio enquanto o telefone toca lá do outro lado à procura de quem me deixou uma chamada não atendida que me deixou inquieta.

o silêncio enquanto o terminal de multibanco verifica se posso pagar com aquele cartão ou nem por isso.
o silêncio quando entro na confeitaria, olho para os eclairs, eles sorriem de volta mas tenho de sair porque todas as mesas estão cheias.
o silêncio quando leio o meu horóscopo com o ceticismo que me é intrínseco e chego ao último ponto final e confirmo o vazio do texto.

o silêncio do quarto ainda escuro mas consciente da ante-estreia de primavera para lá das persianas.
o silêncio esfumado e longínquo da discussão “dorme mais um bocado” versus “levanta-te e vai fazer coisas”.

valha-nos o jon stewart!

hoje, o meu feed do facebook acordou carregadinho de posts sobre o anúncio do jon stewart (sim, também com alguma coisa sobre a uma thurman, mas era o algoritmo — que me conhece melhor do que muita gente que se considera meu amigo — a gozar comigo).
posts em inglês, posts que denotam sentimento de perda e algum receio.

foi bom ler esse sentimento de perda, ler esse receio. não há assim tantas vozes dissonantes que tragam a segurança que só a verdade transmite, que nos tragam a sensação “pelo menos este não é bullshit” que facilmente é extrapolada para “pelo menos este não nos engana”.

foi bom sentir que se reconhece valor ao que essas pessoas trazem, mesmo que o contexto em que passamos os nossos dias só saliente a excecionalidade (o corretor ortográfico queria que eu escrevesse “excentricidade”; é provável que tenha razão) de quem quer viver em verdade.

por outro lado, não deixa de ser assustador sentir o receio. o receio de que se calem as vozes verdadeiras. é assustador sentir que as vozes verdadeiras parecem ser, por definição, de terceiros. é assustador sentir que o receio não é ultrapassado com a certeza de que qualquer voz pode ser verdadeira. com a certeza de que só temos realmente uma voz se ela for verdadeira.

agora, à tarde, o meu feed do facebook já tem posts em português a par com os posts em inglês. agora, à tarde, já não se celebra a voz verdadeira. fala-se usando tempos verbais no passado e faz-se luto. aparentemente, mais uma voz verdadeira se apagou. aparentemente, não há esperança de surgirem outras.

não percebo como é que ser uma voz verdadeira pode ser responsabilidade alheia.

(and i’ll miss you most of all, jon stewart!)

sete

e todos os clichés sobre o tempo passar a correr fazem sentido.
todas as expressões populares sobre as crianças crescerem depressa adquirem um caráter dogmático.
e todos os “está tão crescido” se tornam banais e desnecessários.

e estás crescido. estás sempre crescido. só me lembro de ti crescido.
olho para trás e vejo-te sempre pequeno, sempre a caminho de ficar crescido. mas, quando recordo o que sentia, só tenho recordação de sentir que estás crescido.

estás sempre crescido. dois, três, cinco, sete. sete! estás sempre crescido.
estás sempre a caminho de ficar mais crescido.

e eu tenho um floor seat ticket, assisto a tudo tão de perto que estou quase dentro do campo. vejo tudo de perto, em primeira mão e em hd.
sinto a hesitação durante o drible e o impulso antes do salto. vejo o movimento dos olhos a analisar a posição dos outros jogadores. percebo cada gota de suor, cada expiração frustrada. festejo quando tu festejas. cada ponto marcado por ti faz a minha vitória. cada tentativa falhada também.

vejo-te crescer e cresço contigo. cresço porque é preciso, cresço porque não tenho tenho alternativa, cresço porque tenho que ser capaz de te acompanhar.

sete!
estou crescida. estou capaz de saltos cada vez maiores. estou crescida para ser capaz de saltar contigo.
sete!
se.te!

365 dias dão para muita coisa…

chorar, rir. claro.
escrever coisas parvas, textos crípticos para uns e transparentes para outros.
escrever um texto que foi lido algumas centenas de vezes por um número indeterminado de pessoas, provavelmente o texto mais carregadinho de adn e debitado como um uivo à lua cheia.

inventar histórias sobre monstros reinventados. seres sanguinários e intrinsecamente humanos, lidos à lupa pela mão da inspiração com seis anos.
inventar uma história sobre aventuras de pessoas pequeninas com o dom de fazer sorrir, aquecer o coração e curar feridas que, por vezes, nem sabemos que temos.

deixar pessoas partirem. espreguiçar e esticar braços e pernas em celebração do espaço que fica vazio e disponível para braços abertos e palavras verdadeiras.
deixar pessoas chegarem, instalarem-se. pessoas que nos veem sem filtros e nos colocam em causa. pessoas que simplesmente passam a fazer parte do ecossistema, da renda de bilros.

chorar e rir intercaladamente em conversas tão próximas que beneficiam dos 300 km de espaço que permitem respirar. dar abraços tão reais e tridimensionais como se os 300 km não existissem.

dizer “preciso de ti” e ter como resposta um “estou a caminho”. ouvir um “preciso de ti” e responder com “estou a caminho”.

sentir a vida parada e os movimentos lentos no lodo. ver o nascer do sol no horizonte. sentir o potencial do horizonte.

sonhar.
querer.
dançar.
deixar ir. libertar.
dar a mão.
dar abraços.
cantar “só gosto de ti, porquê não sei, mas estou bem assim e tu também” junto aos caracóis da criatura mais fascinante do mundo.
dançar. sorrir. sonhar. abraçar.

e (mais) 365 dias dão para muita coisa.
as engrenagens vão funcionando e as coisas vão avançando. e enquanto há coisas a avançar, a alma espreguiça-se de olhos no horizonte.

aquela inconstância típica de mesas com as pernas tortas

a conversa flui
olhos nos olhos, sorrisos abertos
há gargalhadas, cumplicidade, parvoíce em geral
mas a mesa balança
sem interromper o discurso olhamos para a mesa e sorrimos
a conversa continua
as gargalhadas e a parvoíce também
mas o raio da mesa continua a balançar
o sorriso começa a revelar a irritação
o discurso é interrompido
encosto a minha perna à perna da mesa para ver se a mantenho estável
alguém termina a frase que tinha ficado a meio
com coragem e assertividade retoma-se a conversa
os sorrisos regressam
mas o raio da mesa não para quieta como se estivesse decidida a merecer a redundância
(…)
“pedimos a conta?”

a inconstância típica de mesas com as pernas tortas parece-me uma característica tão humana…
a inconstância parece-me tão tipicamente torta…
as características tortas da inconstância humana parecem-me tão típicas…
serão as mesas com pernas tortas tipicamente humanas?

eu, herege, me confesso: não sou fã de sophia…

… mas, volta e meia, ela cruza-se no meu caminho e, por alguma razão, decide dizer-me coisas.
(por regra, não são daquelas razões que a minha razão desconhece. são das outras, das razões que surgem de acasos mas nada têm a ver com acasos. são daquelas razões de quem fala só porque tem a certeza que tem razão.)

e diz-me coisas sobre coisas que os olhos humanos veem quando acreditam que é legítimo aspirar ao divino. diz-me coisas que ela sabe porque sentiu e viu e sonhou, coisas que ela sabe que eu preciso de saber porque preciso de sentir e ver e sonhar.

e hoje voltou a dizer-me coisas. coisas sobre o que eu sinto e o que eu vejo e o que eu sonho. coisas que me lembram que acreditar que aspirar ao divino é a coisa mais legitimamente humana que posso fazer.

Data

Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 

Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Livro Sexto’

e disse-me coisas que, para ela, têm mais de 50 anos, enquanto que, para mim, não podiam ser mais atuais.

tive uma ideia!

– tive uma ideia! uma ideia genial!
– conta!
– estive a pensar no que temos feito até aqui e no que podia ser o nosso próximo passo.
– e então?
– acho que era super giro se fôssemos à lua.
– à lua?
– sim! já viste? já fomos ao brasil, praia e bissau…
– não sei se se pode dizer que fomos… no caso do brasil, foi uma videoconferência. praia foi mais uma espreitadela no street view. e bissau… bem, deve ter sido outra equipa.
– que falta de visão! the big picture! tens que ver the big picture!
– pois… se calhar, não tenho essa capacidade. e como é que faríamos? nunca fizemos nada que tivesse a ver com exploração espacial…
– aquilo não tem nada que saber. tenho um amigo que é mecânico. ele constrói-nos um foguetão.
– um foguetão? pensava que os foguetões eram coisa de desenhos animados.
– foguetão… avião… nave espacial… vai dar tudo ao mesmo.
– ok. mas também precisamos de fatos espaciais.
– já pensei nisso tudo. a dona ermelinda tem muito jeito para fazer as roupas para os miúdos usarem nas festas de natal. aposto que ela faz fatos de astronautas num abrir e fechar de olhos.
– … … … não tinha pensado nisso.
– mas eu pensei. aliás, eu já pensei em tudo!
– que bom! temos muita sorte por te termos a liderar-nos.
– eu sei. mas ainda não te contei a parte melhor.
– conta!
– sabes quem é que vai ter a honra de ser o piloto e ir à lua?
– tu?
– não. não posso ser eu a fazer tudo. decidi que vais ser tu!