era só para dizer…

olá!
hello!
hallo!
salut!
¡holla!
então por aqui?
tá-se?
tudo bem?
como vai a vida?
venham daí esses ossos!
dá cá um xi!
até já!
volta sempre!
então de volta?
olá!
hello!
hallo!
salut!
¡holla!
então por aqui?
tá-se?
tudo bem?
como vai a vida?
venham daí esses ossos!
dá cá um xi!
até já!
volta sempre!

mas volta mesmo! voltas?

com esse sorriso que trazes para mim…

o meu coração fica maior que a nossa casa.
sou uma chita em plena savana, uma sequoia a espreguiçar-se.
sou o stephen curry depois do triplo da vitória.
o woody depois de o andy o recuperar.
o angry birds ham dunk e o banana kong.

sou o eduardo a esculpir dinossauros.
sou piza de banana e magnum de menta.
sou wolverine, o beast, o magneto e a mystique.
sou o chewbacca, o mr spock e o terminator.
sou andrómeda e uma ya-te-veo.

sou o stephen hawking e a raiz quadrada de nove.
um record do guiness e um texto do sr. pina.
sou a música que pedes para por novamente do início e mais alto.
um sistema circulatório de dragão desenhado por ti.
sou cafuné e beijo-de-fogo-de-artifício.

com esse sorriso que trazes para mim, que atiras na minha direção e que me dedicas com olhos brilhantes de desafio, com esse sorriso eu sou luz.
luz da tua luz.
luz pela tua luz.
luz.

é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança

alguém que ensina que os amigos são para respeitar.
alguém com quem jogar dominó.
alguém que mostra que tudo é mote para rimas.
alguém que partilha a paixão pelo azul.
alguém que, só pela sua presença, lembra que gostar do vermelho não é pecado capital.
alguém com quem fazer beatboxing.
alguém com quem implicar.
alguém que provoca a primeira gargalhada.
alguém com quem chorar.
alguém que embala quando os pesadelos estragam uma bela noite de sono.
alguém que ensina que, na cozinha, o melhor tempero é o carinho.
alguém que ensina a raiz quadrada muito antes do tempo.
alguém que partilha adn.

alguém que vê o potencial e ampara os tropeções do caminho.

alguém que não se deixa ofuscar pelo raciocínio rápido e vê sempre o coração com clareza e em toda a sua amplitude.

kal-el

o nome dele é kal-el.
melhor: o verdadeiro nome dele é kal-el.
mas só na sua terra natal, só na sua origem, no seu berço, na sua génese, no seu adn é que o seu nome é kal-el.

fora daí, no seio da humanidade, assume um nome banal, uma identidade banal. no seio da humanidade, não pode ser aquele cuja força vem do sol, não pode ser aquele que, forçado pelo compromisso com os seus próprios valores e integridade, enfrenta desafios messiânicos.

fora do berço, da génese, flutuando sobre a humanidade, aceita o folclore dos nomes que lhe atribuem, pois sob a capa do folclore pode voltar a ser um pouco kal-el – embora nunca o possa dizer.
sob a capa do folclore é rápido, invencível, magnífico e possuidor da força necessária para transformar um pedaço de carvão em diamante.
sob a capa do folclore, pode voltar a ser kal-el, mas um kal-el com poderes superiores aos que teria no berço, na génese.
sob a capa do folclore, é especial, único, o derradeiro protetor.

sem a capa do folclore, sobrevive atrás da banalidade.
sem a capa do folclore, não se pode dar ao luxo de ser kal-el.
para ser “normal”, nunca poderá ser kal-el. para ser “normal”, tem que usar a máscara de mero humano. para ter lugar no seio da humanidade, kal-el tem que ser banal.
para ser aceite, não pode ser único, muito menos ser íntegro e comprometer-se com os seu valores.

kal-el não pode ser kal-el se quiser fazer parte do mundo onde vive.
para fazer parte desse mundo, da tal humanidade, kal-el tem que ser banal, tem que esconder a força do sol amarelo atrás de uma máscara de banalidade.

kal-el tem que ser menos. tudo porque não pode voltar para casa, porque não pode voltar à génese, porque não pode voltar para onde o seu adn é normal.

kal-el.
o seu verdadeiro nome é kal-el.

image

tenho saudades de me coçar nos teus espinhos!

… disse-me a alice.

a alice que acredita no poder do chapeleiro e no do seu alter-ego com mãos de tesoura.

a do coração que ri com(o) as crianças que a seguem como se fosse o flautista de hamelin.

a guerreira de alma brilhante e colorida como as asas de uma efémera.

a alice de vestido azul e havaianas que dança com o meu filho enquanto ele se apaixona irremediavelmente.

a minha amiga crente em maravilhas como aquelas que um chocolate faz aquando de um ataque de choro.

a minha alice.
uma maravilha de alice.

e hoje quiseste adormecer na minha cama

7:30 e já estavas acordado.
às 8, decidiste que já tinhas feito a tua parte nesta coisa de me deixares dormir mais um bocado ao domingo de manhã. e vieste acordar-me: “feliz dia da mãe! levanta-te que tenho fome. temos que tomar o pequeno almoço.”
mais uma vez, ocorreu-me que devia deixar-te comida numa taça como se faz com os gatos e os cães. voltei a encafuar essa ideia na gaveta “a experimentar” e exigi um abraço.
“achas que me vou levantar e dar-te de comer sem ter primeiro um xi dos bons?”
deste-me um mono-xi (só com um braço) e anunciaste em tom sério: “tenho que ter cuidado a dar xis porque tenho um dente quase quase a sair e ele pode sangrar.”

…. … …

a caminho do restaurante, o dente saiu.
obviamente, querias que, mesmo a conduzir à chuva, me virasse para trás para ver que fixe que estavas com uma mega garagem resultante da falta de três incisivos.
obviamente, eu também queria ver a mega garagem, mas achei por bem continuar concentrada na estrada molhada. e contentei-me a ouvir o teu novo talento: fazer o som do vento graças à ausência de 75% dos incisivos superiores.

… … …

estacionámos. saíste do carro com o dente na palma da mão aberta para mo mostrares. “já viste bem que fixe? e nem sequer sangrou.”
avisei logo: “isso é para deitar fora, certo?” (cá em casa não há pachorra para fada dos dentes)
“claro”, respondeste, “vou por aqui na terra junto a esta árvore pequenina. assim, o meu adn que está no dente vai para as raízes e, depois, nascem Ds quando a árvore crescer.”
e remataste com o teu olhar “tu dizes que gostas do meu sentido de humor, portanto atura-me”.

… … …

à noite, na hora de vestir o pijama, vieste ter ao meu quarto. “quero sentar-me no teu colo e dar-te um xi porque ainda é dia da mãe e hoje dei-te pouco mimo”.
abraçámo-nos. cheiravas tanto a ti que só me apetecia dar-te beijos. “acho que é hoje que vou comer-te esta bochecha. apetece-me.”
encolheste-te com cócegas. quando voltaste a ficar sério, olhaste-me nos olhos, fizeste um daqueles sorrisos que não cabem na tua cara e aconchegaste-te novamente num abraço apertado.
“sabes, mamã, às vezes, nestes momentos, fico confuso.”
“confuso? como assim?”
“fico confuso porque quero dizer-te que gosto de ti e quero dizer outras coisas mas procuro as palavras e não as encontro.”
“não te preocupes: tu abraças-me e eu percebo tudo.”

… … …

“hoje posso adormecer contigo?”
“queres adormecer comigo na cama do cafuné (na cama de baixo do beliche)?”
“não. quero adormecer contigo na tua cama.”
“mas tu nunca queres dormir na minha cama.”
“hoje quero.”
e assim foi.
a certa altura, levei uma joelhada e encolhi-me. apercebeste-te e tentaste abraçar-me, mas o resultado foi um estaladão no meu pescoço – o son(h)o é quem mais ordena.

“líquida”, capicua

Sou líquida, e nasci para ser livre
Não há vidro que me prive, nem o céu é o limite
Sou líquida, sou a seiva do teu corpo
Severa em maremoto, serena numa gota
Sou líquida, e nasci para ser livre
Não há vidro que me prive, nem o céu é o limite
Sou líquida, sou a seiva do teu corpo
Severa em maremoto, serena numa gota
Líquida…
(…)
Dou de beber à Terra, dou vida, dou pesca, dou rega
E por mim haverá guerra
Se me quiserem presa, se me fizerem escassa
Se o meu corpo não chega para a vossa festança
Serei uma ameaça, darei luta
Enquanto for engarrafada, vendida, poluta
(…)

“dá-me a mão. só 2 segundos.”

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.

dizem esses tais entendidos que, nas relações entre crescidos, as discussões, a irritação, a mágoa e talvez até a desconfiança devem ter direito a um time out, uma pausa, um intervalo. no dia seguinte, de cabeça fresca (assumindo que dormir foi possível), retoma-se o assunto, sempre no sentido de o resolver com a bênção de ultravioletas e infravermelhos.

não posso afirmar com segurança que, embora concorde com o princípio, o veja como aplicável às idiossincrasias do “até amanhã. dorme bem.” das relações entre crescidos.
honestamente, nem sequer me interessa afirmar ou desafirmar o que quer que seja relativamente a esse contexto.

por outro lado, entendo-me como suficientemente entendida no assunto quando se trata de um “até amanhã. nana bem. sonha com coisas boas que eu vou sonhar com o teu nariz redondo. adoro-te. não te esqueças que és a minha pessoa preferida.”.
(isto da mesma forma que também sou perita em ficar profunda e dramaticamente ofendida quando a criatura sobe para a cama de cima do beliche sem me dar um beijo sonoro e um xi que implique a utilização de ambos os braços.)

dizem os entendidos que nunca devemos adormecer de mal com aqueles que de quem gostamos.
nas relações entre crescidos, as idiossincrasias podem, sem dúvida, por em causa o que entendem os entendidos. no entanto, quando há um não-crescido em causa, este princípio torna-se um dogma.

“antes de nanares preciso de te dizer uma coisa: eu sei que vai passar mas eu continuo magoada/triste/aborrecida/… com o que disseste/fizeste. seja como for, não te esqueças que és a minha pessoa preferida e que eu vou nanar muito bem porque vou sonhar com o teu nariz redondo. nana bem e sonha só com coisas boas.” – esta é a minha parte.

“dá-me a mão. só um bocadinho, só 2 segundos para eu adormecer a pensar em ti.” – é o que ele me diz.

e dou-lhe a mão. e é aquele mini-xi que, mesmo que dure apenas os tais 2 segundos, sublinha o que somos um para o outro e põe entre parênteses tudo aquilo que, temporário e ligeiro, nada diz sobre nós.
digo eu… que ainda ando a tentar entender-me no que dizem os entendidos.

o meu caos é luz e é só meu

eu, control freak convicta e inveterada, adoro caos.
a-doro!
do caos nasce a luz, a ordem, o conhecimento. é simultaneamente combustível e comburente. é o princípio, o verbo. é o momento em que tudo ainda é possível. é a promessa das promessas.

o meu caos é o princípio. a promessa. a possibilidade. o prólogo. o meu caos, note-se.
do meu caos trato eu. que cada um trate do seu.

a cada um o seu caos: não precisamos todos das mesmas coisas, muito menos do mesmo caos.
o caos é pessoal e intransmissível.
cada caos deve ser pessoal e intransmissível.
cada um é responsável por garantir que o seu caos é pessoal e intransmissível.

quando o caos deixa de ser pessoal e intransmissível, quando é imposto, herdado ou até oferecido, o caos já não é o potencial daquilo que pode vir a ser, acontecer, existir, concretizar-se.
quando o caos é imposto não é mais do que confusão, nevoeiro, perguntas que não chegam a ser formuladas e, por isso, ficarão irremediavelmente por responder.

o caos pessoal e intransmissível é construtivo, é prólogo de grandes edifícios, é uma explosão de luz.

o caos imposto, herdado ou até oferecido é erosivo, mata possibilidades, aniquila horizontes. o caos impessoal e transmitido é escuro, denso e limita os movimentos.

quando o caos que não é o nosso nos é imposto, é como areias movediças para a alma. aos poucos, desaparecemos. no final, fica só o lodo.

em tempos, tive um projeto que foi como um filho. mutilaram-no

2004. tudo era novo. havia sonhos, expectativas, cuidados a ter, muita insegurança. havia, acima de tudo, uma fé imensa no valor e o potencial do que seria esse filho. era quase uma espécie de messias: o seu principal propósito era fazer as pessoas melhores, mais felizes, mais mais.
e, como se isso não chegasse, essas pessoas que íamos ajudar a serem melhores, mais felizes, mais mais, essas pessoas eram crianças.
ouro sobre azul, portanto.

grande responsabilidade e grande privilégio. muito trabalho, muito estudo, muito trabalho em equipa-família.
a cada passo, sustínhamos a respiração.
a cada passo, celebrávamos, mesmo quando o resultado não era bom – a cada passo, celebrávamos, porque, a cada passo, aprendíamos.

aprendíamos a ensinar. aprendíamos a usar um meio novo – o digital – para ensinar que, para aprender, o sonho deve ser uma constante. aprendíamos a criar estratégias para ensinar que errando também se aprende e que o que não pode faltar é vontade e coragem para tentar.

tentar, experimentar, explorar, aprender, ser autónomo. aprender com autonomia e aprender a deixar os números, as letras, os ossos, os triângulos e as esdrúxulas entrar no país das maravilhas.
aprender sem precisar de ter um adulto por perto para ditar certos e errados, para impor conceitos artificiais de normalidade.

escusado será dizer que o resultado não esteve – nunca estaria! – à altura do sonho. o sonho era tudo. simplesmente tudo. o resultado não foi tudo, mas foi muito. e o orgulho também. muito. muito mesmo.

tudo isto passou-se antes de a minha alma de mãe decidir que estava na hora de encomendar o príncipe do caos. e até o príncipe do caos ter idade para aprender com “o meu filho mais velho” passaram-se anos. o mais velho saiu das mãos da equipa-família. foi preciso adequá-lo a novas “circunstâncias”. os sonhos messiânicos de quem o criou deixaram de ser relevantes, a família deixou de ser relevante. o projeto já não era um filho para quem o tinha nos braços, era um conjunto de tarefas, de post-its, de listas a precisar de vistos.
(…)

hoje (30.março.2015), o meu príncipe do caos está a brincar com “o mais velho”. não posso dizer que não esteja a divertir-se. está e tenho a certeza que vai querer repetir. e vai chatear-me muitas vezes para repetir (e eu vou deixar, claro.)

no entanto, não me falta vontade de chorar, porque de cada vez que a criança (caracterizada por muitos como “cognitivamente acima da média”) me pede ajuda porque não percebe o que deve fazer e eu reconheço imediatamente o que é que não teve honras de fazer parte da lista de tarefas (e existia no sonho da equipa-família).

o meu projeto-filho foi mutilado. e o meu filho-filho não vai ter oportunidade de usufruir do que foi criado a pensar em crianças como ele. o príncipe do caos só vai conhecer a versão lobotomizada.