Autor: moutinha
sobre ti que tens 8 anos, sobre mim que tenho 42
Tivesse eu celestes véus bordados,
Ornados com luz de ouro e de prata,
Os azuis, os pálidos e os escuros véus
Da noite, da luz e do crepúsculo,
Estendê-los-ia a teus pés.
Mas, sendo eu pobre, tenho apenas os meus sonhos
E estendi-os a teus pés.
Caminha, pois, com cuidado: é sobre os meus sonhos que caminhas.
o original é do xor W. B. Yeats. a tradução é minha.
a inspiração, essa, veio da segunda TED Talk do Sir Ken Robinson:
And every day, everywhere, our children spread their dreams beneath our feet. And we should tread softly.
~ diz ele.Todos os dias, em todo o lado, as nossas crianças estendem os seus sonhos aos nossos pés. E nós temos que caminhar com cuidado.
~ digo eu.
cafuné
quando eu era miúda, a minha avó fazia-me cafuné para eu adormecer. e eu sentia-me especial porque a única coisa que ela recebia de volta era o meu sorriso que rapidamente se diluía no sono.
quando eu era miúda, a minha avó fazia vestidos rodados para mim e biquínis de croché para as minhas bonecas.
quando eu era miúda, a minha avó era devota de júlio dinis e a morgadinha dos canaviais foi o primeiro ‘livro de crescida’ que eu li.
quando eu já não era assim tão miúda mas ainda era miúda, fiz mais furos nas orelhas do que aqueles que a minha mãe permitiu. a minha avô adorava ver-me com três pérolas em cada orelha.
quando eu ainda era suficientemente miúda para ter muito tempo disponível mas já não era tão miúda que não percebesse que nem sempre podia comprar a roupa que eu queria usar, a minha roupa preferida era a que era feita por mim. nessa altura, a minha avó decidiu que era eu que ia herdar a máquina de costura dela.
hoje, decidida a manter-me rodeada de quem reconhece o que da miúda que fui se mantém na mãe do meu miúdo, adormeço o príncipe do caos com cafuné, faço fatos de x-men em croché, sou devota de saramago e tenho um espaço reservado na minha sala para a máquina de costura da minha avó.
porque uns sim e outros não
PORQUE
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
~ Sophia de Mello Breyner Andresen
digo eu…
“if it’s our decisions that define who we are, than this is who i am”
parece (e é!) paleio de diálogo melodramático de último episódio de série sobre pessoas e sobre aquilo de que são capazes por aqueles a quem são leais. também sobre os limites que nos impomos na busca por aquilo que queremos. no fundo, sobre o preço de cada um. sim, porque todos temos um preço, certo?
e este é, sem dúvida, um aspeto em que é a ficção que imita a realidade, a arte que imita a vida.
digo eu…
preto no branco
hoje passaram-me umas dezenas largas de livros pelas mãos. literalmente. literalmente dezenas. literalmente pelas mãos.
livros para miúdos. livros para graúdos. livros para graúdos perdidos à procura dos miúdos que não chegaram a ser.
histórias doces. poemas agridoces. recordações em forma de crónicas. fugas para a frente embebidas em versificação clássica.
homero. um cheirinho a shakespeare. o meu pé de laranja lima. um saramago que me falta. um torga com bichos. um torga sem bichos. um o’neill com ar de desafio. lorca digno de encadernação especial e ainda protegido por plástico.
ilustração inspiradora. ilustração tipo-estado-novo. ilustração a merecer um fósforo acesso.
mia couto e a terra vermelha. a anne frank sentada junto à secretária e a sorrir para a foto. uma sophia esculpida pela objetiva de cutileiro. as cantigas de escárnio e mal dizer revisitadas por natália correia. o desassossego do fernando recolhido e organizado pelo bernardo. páginas e páginas de um régio insistentemente esgotado quando o procuro.
e, no canto da mesa, o vonnegut a olhar de soslaio. nitidamente ciumento.
pudera!
no olho do furacão
era noite escura mas ainda em tons terra e quente dentro do casaco grosso. os restos da festa rolavam pelo chão e aninhavam-se pelos cantos, como os cães a darem voltas sobre si mesmos antes de dormir.
eu voltava a casa. sozinha, estranha mas confortavelmente sozinha. não estava certa de estar a fazer o caminho que me levaria até ao local onde tinha estacionado o carro ou à porta de onde tinha saído horas antes ainda de batom nos lábios e sem roupas a cheirar a tabaco.
dei por mim a passar no meio de um grupo de miúdos (não sei se eram realmente miúdos; hoje em dia qualquer pessoa com menos de 30 anos parece-me um miúdo), também eles eles davam voltas sobre si mesmos no regresso a casa. sem alternativa, atravessei a nuvem que formavam. pararam e, como se um (sonho dentro do) sonho se tratasse, formaram círculos concêntricos. e eu era o centro. olhavam para mim como se me conhecessem; melhor: como se estivessem à minha procura. com esse mesmo olhar e declarada porém calorosamente impediam-me a passagem e forçavam-me a baixar-me, a sentar-me no chão. sentei-me e, no segundo seguinte, estava rodeada por quinze ou vinte dos tais miúdos, sentados, aninhados, deitados, encostados e apoiados uns nos outros.
uma rapariga sentou-se junto a mim, como se tentasse ter a perpetiva mais próxima da minha que lhe era possível. tinha uma nuvem de cabelo escuro e fofo, apanhado em 4 ou 5 puxos espalhados pela cabeça de forma naturalmente aleatória. os seus olhos cor de chocolate ganhavam enquadramento atrás dos óculos de armações pretas e de dimensões exageradas. com o braço esquerdo, abraçou-me a cinta e, com a mão direita, apontou para um rapaz ainda mais miúdo do que a generalidade daqueles miúdos. estava sentado, de braço no ar e de sorriso nos lábios como um aluno que sabe a resposta à pergunta que a professora fez. a rapariga dos olhos cor de chocolate apontava para ele e dizia “aquele é o … … … (é triste mas é verdade: até nos sonhos sou má com nomes) e foi ele que nos disse que hoje devíamos vir por aqui. ele queria muito conhecer-te.”
eu estava competamente paralizada e saber o que fazer era irrelevante e desnecessário. comecei a relaxar e a tentar deixar-me levar.
levantou-se outra mão. a minha narradora explicou: “a maria (talvez seja preferível inventar nomes do que chamar-lhes espaços em branco) diz que lhe fazes lembrar o colo da avó.”
outra mão: “a joana diz que não percebe porque é que estamos todos parados à tua volta. também diz que já não tem frio.” várias mãos no ar: “eles também já não têm frio.”
à medida que a mão direita da rapariga do cabelo de nuvem mudava de direção, o seu alvo anterior aconchegava-se no amigo mais próximo e adormecia.
mais uma mão no ar: “o miguel diz que te preocupas demasiado e que vai correr tudo bem. diz que podes confiar porque ele sabe.” o miguel adormeceu.
as mãos erguiam-se, uma a uma; a rapariga passava a mensagem. umas vezes, sobre eles, outras vezes, sobre mim. o que é que se estava a passar? quem eram aquelas pessoas?
ergueram-se duas mãos paralelas: “os gémeos querem que saibas que, mesmo quando estão juntos, também têm momentos em que se sentem incompletos. chamam-lhe saudades. não um do outro mas do que existe dentro de cada um deles e não é comum aos dois. dizem também que tinham saudades tuas e que, neste momento, se sentem completos.”
fomos ficando cada vez mais sozinhas, eu e a minha guia, até que éramos as únicas acordadas. eu tinha uma rapariga que dormia com a cabeça no meu colo (e ela tinha a irmã deitada junto a ela) e um miúdo enroscado no meu braço esquerdo e a usar o meu ombro como almofada. finalmente, fui capaz de falar: “quem são vocês? porquê eu?”
“não sabíamos que andávamos à procura. nem sabíamos que era a ti que procurávamos. estávamos cansados e precisávamos de encontrar um sítio sossegado para dormir.” a minha confusão e incredulidade estavam à flor da pele. “parece-te estranho? é normal: o que, para uns, é um furacão, para outros, é o olho do furacão. o único sítio onde é possível descansar.”
já todos dormiam. fui embora. fui dormir… acho eu.
“Às vezes”, Nuno Júdice
Às vezes
Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.
lista de caca (i.e., onde o seth godin e a banda sonora do natural born killers se cruzam)
<introito>
1. hoje, o universo — esse parvalhão — achou que tinha coisas a dizer-me e, tal como vem a ser a ser hábito, optou por fazê-lo por interposta pessoa, mais precisamente pela pena qwerty do seth godin.
no recado em causa, o xor godin fala da potencial qualidade dos posts que nunca chegou a escrever face à qualidade efetiva dos posts que chegam a ver a luz do dia, isto tudo como metáfora para a (não) realização dos nossos sonhos. e o que eu gosto de metáforas! (e o universo — parvalhão mas um parvalhão atento — sabe bem disso.)
(aqui eu devia escrever qualquer coisa sobre os posts que também não chego a escrever e blá-blá-blá e ronhó-nhó-nhó… mas eu não quero insultar a inteligência de ninguém, portanto fico-me pelo parênteses.)
The thing is, an unwritten post is no post at all. It’s merely a little bit of gossamer on wings of hope. Doesn’t count.
2. ando a ouvir velharias no carro (não, não vou relatar o que quer que seja sobre a crueldade que me limitou a seleção musical). entre essas velharias um leitmotiv que não revisitava há uns anitos: a banda sonora do natural born killers. e blá-blá-blá e não sei o quê sobre a minha fase grunge há 20 e pico anos e sobre as miúdas de 18/20 anos deste século não saberem usar camisas de xadrez e cabelo pela cinta… e eis que as L7 entram em cena.
When I get mad and I get pissed
I grab my pen and I write out a list
</introito>
coração
lembro-me da primeira vez que ouvi dizer que o coração não dói (devia ter uns sete ou oito anos).
lembro-me de achar que estavam a gozar comigo (parecia coisa de extraterrestre).
lembro-me de, depois de perceber que era a sério, tentar encaixar aquilo nas gavetas onde tinha guardado o que tinha aprendido sobre o sistema circulatório (na minha cabeça, o desenho do livro e o desenho que eu tinha decalcado com papel vegetal e pintado com lápis de cor).
lembro-me de, mais tarde, quando nas aulas de ciências voltei a dar o sistema circulatório, ter perguntado à professora se era verdade que o coração não dói (ainda na esperança de uma resposta que me fosse mais conveniente).
há dias, o príncipe do caos disse-me “mamã, sabias que o cérebro não dói?” (e mais qualquer coisa sobre cortar o crânio com uma motosserra).
“sim, sabia”, respondi.
senti-me uma mentirosa. uma mentirosa surpresa com a inutilidade da verdade. o coração dói, o cérebro também.
o coração dói com as coisas que o cérebro lhe faz, da mesma forma que o cérebro dói com as coisas que o coração deixa que lhe façam.
“mas isso agora não interessa nada”, diria a outra senhora.
