Ciclope, o gigante ferreiro

O meu meu pai é o Céu e a minha mãe é a Terra.

Tenho dois irmãos que também são ciclopes. Nós nascemos há muito muito tempo, no princípio dos tempos, para sermos mais precisos. Nascemos fortes e poderosos mas a nossa história não é uma narrativa de glórias e conquistas. Desde sempre vivemos em cavernas e corredores escuros do submundo, entre as sombras e o calor da lava.

Não te deixes enganar, mesmo só com um olho, vemos melhor do que qualquer humano. E temos uma aparência medonha e grotesca, mas a nossa pele é como um escudo e até é resistente ao fogo.

Dominamos o poder do trovão e a magia do relâmpago, também somos os ferreiros dos deuses: forjámos os raios de Zeus, o rei de todos dos deuses, o tridente de Poseidon, o governante dos oceanos, e o elmo da invisibilidade de Hades, o príncipe dos Infernos.

Depois de criarmos as armas mágicas dos grandes deuses do Olimpo, lutámos com eles, lado a lado, e saímos vitoriosos. Não sabias? É normal: os livros narram as conquistas dos deuses, não contam a história dos seus ferreiros que também são guerreiros, os Ciclopes.

Zombie, um adolescente confuso

“Mas onde é que tu andas com a cabeça?”, diz-me a minha mãe constantemente.

Dah! Ela sabe perfeitamente que tenho a cabeça no sítio, o cérebro é que não. Não sei onde o deixei. Acho que o perdi naquela visita de estudo à Floresta das Árvores Caídas. Não sei se foi nesse dia, acho que sim. Acho que foi pouco depois de ter sido mordido por aquela espécie de animal estranho e mal-cheiroso que apareceu vindo lá dos lados do Cemitério da Eternidade. Senti uma dor muito forte, como se me tivessem arrancado um bocado da perna. Curiosamente, senti a cabeça a ficar cada vez mais leve. Foi como se tivesse o crânio furado e as ideias, a memória e tudo o que tinha estudado para o teste de História estivesse a escorrer e a deixar rasto por onde eu passava.
Tentei explicar isto à minha mãe, mas acho que ela não acreditou em mim. É natural: tive negativa no teste de História e ela já me ouviu a inventar desculpas muito parvas para não ter estudado. Mas, desta vez, eu até tinha estudado! Que estranho. E a minha cabeça parece cada vez mais leve… É mesmo estranho.
“Ó mãe, tu não me disseste que também foste mordida por um bicho estranho perto do cemitério? Já não te lembras? Deixa-me adivinhar: também sentes a cabeça leve?”

Saci-Pererê


(“O saci”, de Jean Marconi, via Wikimedia Commons)

Ih, ih, ih!
Ah, ah, ah!
Eh, eh, eh!
Chamam-me traquina, travesso e turbulento.
Irracional, irrequieto, irritante e irresponsável.
Malvado, malcriado, malandrete e até malacueco!

Ih, ih, ih!
Ah, ah, ah!
Eh, eh, eh!
Dizem que gosto de desordem, desassossego e desrespeito.
De pregar partidas e de assustar os animais.
Dizem que crio confusão e apareço sempre que há remoinhos de vento.

Ih, ih, ih!
Ah, ah, ah!
Eh, eh, eh!
Mas isso é o que eles dizem.
Eles não percebem que sou uma criança como as outras.
Uma criança alegre e traquina, um menino irrequieto e brincalhão.
Uma criança que gosta de animais e de magia.
Um menino que gosta de brincar, correr e rir.
Um menino que é feliz a dançar nos remoinhos de vento.

Um Poltergeist muito irrequieto

Primeiro, escondo o comando da televisão. Depois, apago as luzes durante um ou dois segundos.

Começam a desconfiar mas não dizem nada. E eu continuo. Toco à campainha, ligo o cortador de relva, o sistema de rega automática e o alarme da casa. Acendo as luzes todas, abro e fecho as persianas e ligo o rádio. Já não se assustam com estas coisas (pois já vivemos na mesma casa há dez anos) mas ficam irritados: “Fantasma dum raio, para com isso!”

Ligo a televisão e mudo de canal rapidamente, tal como eles fazem quando estão aborrecidos. 40, 40 42, 43, 44, 45,… “Para com a brincadeira! Não tem piada nenhuma!” Ponho as cadeiras em cima da mesa e enrolo o tapete. “Ai se eu te apanho! Não penses que te safas só porque não te vemos!” Ponho música aos berros e faço as cortinas dançarem. Furiosos, continuam a correr atrás de mim, como se fossem capazes de adivinhar aonde estou.

“Mãe, tive uma ideia!” diz a criança de oito anos, que sempre me conheceu e não tem medo nenhum de mim. Vai à cozinha e volta com uma lata. Fica parado durante uns segundos como se fosse capaz de adivinhar aonde estou. Fico curioso e paro. Rapidamente, atira-me com uma mãe-cheia de farinha. Tusso, engasgo-me e espirro. Estou branco! Estou todo branco!
Já não precisam de adivinhar aonde estou: eles conseguem ver aonde estou. Correm para mim e… O que é que se passa? Riem-se de mim, de minha expressão de susto. Abraçam-me. “Estou perdoado?”
Responde a criança de oito anos: “Só se arrumares isto tudo imediatamente e prometeres que és tu que limpas o pó e aspiras o chão nos próximos dois meses.” Engulo em seco e volto a tossir. Saiu-me cara a brincadeira. Não faz mal, amanhã volto a fazer o mesmo.

Poltergeist

Primeiro, escondo o comando da televisão. Depois, apago as luzes durante um ou dois segundos. Começam a desconfiar mas não dizem nada. E eu continuo. Toco à campainha, ligo o cortador de relva, o sistema de rega automática e o alarme da casa.  Acendo as luzes todas, abro e fecho as persianas e ligo o rádio. Já não se assustam com estas coisas (pois já vivemos na mesma casa há dez anos) mas ficam irritados: “Fantasma dum raio, para com isso!”

Ligo a televisão e mudo de canal rapidamente, tal como eles fazem quando estão aborrecidos. 40, 40 42, 43, 44, 45,… “Para com a brincadeira! Não tem piada nenhuma!” Ponho as cadeiras em cima da mesa e enrolo o tapete. “Ai se eu te apanho! Não penses que te safas só porque não te vemos!” Ponho música aos berros e faço as cortinas dançarem. Furiosos, continuam a correr atrás de mim, como se fossem capazes de adivinhar aonde estou.

“Mãe, tive uma ideia!” diz a criança de oito anos, que sempre me conheceu e não tem medo nenhum de mim. Vai à cozinha e volta com uma lata. Fica parado durante uns segundos como se fosse capaz de adivinhar aonde estou. Fico curioso e paro. Rapidamente, atira-me com uma mãe-cheia de farinha. Tusso, engasgo-me e espirro. Estou branco! Estou todo branco!

Já não precisam de adivinhar aonde estou: eles conseguem ver aonde estou. Correm para mim e… O que é que se passa? Riem-se de mim, de minha expressão de susto. Abraçam-me. “Estou perdoado?”

Responde a criança de oito anos: “Só se arrumares isto tudo imediatamente e prometeres que és tu que limpas o pó e aspiras o chão nos próximos dois meses.” Engulo em seco e volto a tossir. Saiu-me cara a brincadeira. Não faz mal, amanhã volto a fazer o mesmo.

 

O Jack da Lanterna quer que acredites

Lendas, superstições, crenças e folclore.
Uns acreditam; outros acreditarão… ou não.
Eu acredito. E tu, acreditas?
Não queres acreditar? Nem eu, então.
Achas que estou a tentar enganar-te?
Quererei melindrar-te?
Confundir? Iludir-te?
Eh eh eh! Não, só quero assustar-te.
Mas não te preocupes, eu sou o Jack da Lanterna.
Comigo nunca ficas às escuras.
(Percebeste? Lanterna?… Escuras?…)
Não fiques apreensivo, sério, carrancudo.
Acredita no Jack da Lanterna, não sejas cabeçudo.
(Ah ah ah! Percebeste?
Eu é que tenho cabeça de abóbora e tu é que és cabeçudo!)
Eu prego sustos mas não te vou fazer mal.
Eu sei o que dizem de mim.
Mas são lendas, superstições, crenças e folclore.
Uns acreditam; outros, não. E outros… nim.

Jack da Lanterna


(imagem: Wikimedia Commons)


Lendas, supertições, crenças e folclore.
Uns acreditam; outros acreditarão… ou não.
Eu acredito. E tu, acreditas?
Não queres acreditar? Nem eu, então.

Achas que estou a tentar enganar-te?
Quererei melindrar-te?
Confundir? Iludir-te?
Eh eh eh! Não, só quero assustar-te.

Mas não te preocupes, eu sou o Jack da Lanterna.
Comigo nunca ficas às escuras.
       (Percebeste? Lanterna?… Escuras?…)

Não fiques apreensivo, sério, carrancudo.
Acredita no Jack da Lanterna, não sejas cabeçudo.
       (Ah ah ah! Percebeste?
       Eu é que tenho cabeça de abóbora e tu é que és cabeçudo!)

Eu prego sustos mas não te vou fazer mal.
Eu sei o que dizem de mim.
Mas são lendas, supertições, crenças e folclore.
Uns acreditam; outros, não. E outros… nim.

Frankenstein, pseudocientista

Senhoras e senhores, caríssimos colegas, membros da comunidade científica, sejam bem-vindos.

Agradeço, desde já, a vossa presença no 13.º Congresso Anual de Pseudociência, subordinado ao tema “A Eletricidade e as suas Aplicações na Química Humana”. O meu nome é Einstein, Frank Einstein, e vou falar-vos de um projeto muito especial, iniciado por aquele que foi como um pai para mim.
Como sabem, eu sou uma obra do Dr. Victor Frankenstein. O seu objetivo era criar vida a partir de matéria morta e através da ação da eletricidade. Eu sou a prova de que as suas experiências resultaram e de que conseguiu atingir aquilo a que se propôs. O Dr. Victor Frankenstein fez uma seleção rigorosa de partes de cadáveres, optando sempre por aqueles que apresentava melhor qualidade e maior frescura, e fez testes minuciosos com geradores com diferentes níveis de potência, de forma a assegurar descargas elétricas adequadas.
O resultado está à frente dos vossos olhos. É certo que a fase inicial após o meu “nascimento” não foi fácil, mas isso faz parte de uma relação normal entre um filho e o seu pai. Tal como qualquer organismo composto por pele, músculos e ossos, também precisei de tempo para amadurecer. A par disso, o Dr. Frankenstein foi desenvolvendo as suas competências na área das emoções e dos sentimentos. Eu queria ser um bom filho e eu sei que, no fundo, ele também queria ser um bom pai.
Como referi, no início, a nossa relação era complicada e eu sentia-me rejeitado. Achava que nunca ia estar à altura das expectativas daquele a quem devia a vida, mas, com o tempo, o Dr. Frankenstein foi substituindo o meu cérebro por outro mais desenvolvido, mais maduro, mais evoluído. E foi assim que cheguei até aqui, foi assim que me tornei cientista como o meu pai, foi assim que consegui dar seguimento ao seu trabalho na área da eletricidade aplicada à Química Humana e, por fim, foi assim que consegui criar o Instituto Nacional de Pseudociência, do qual, muito orgulhosamente, sou presidente. E, com a vossa ajuda, vou dar continuidade à obra do meu pai.

Múmia, rainha das rainhas

No Egito Antigo, os faraós eram reis de tudo e de todos, mas também eram vistos como deuses, os descendentes do deus-sol.
Eu fui uma rainha egípcia, a última grande rainha da grandiosa civilização egípcia. Mandar e ser adorada não era suficiente para mim. Eu queria que o meu querido Egito fosse a maior de todas as nações e, por isso, estudei línguas, filosofia e a arte de negociar com outros reinos e outras gentes. Sempre estive no centro das atenções, era culta, sofisticada e uma verdadeira mulher de negócios.
Quando morri, o meu povo chorou por mim e, tal como mandava a nossa lei e a nossa tradição, fui mumificada. Através de técnicas desenvolvidas pelos egípcios, o meu corpo foi preservado, juntamente com as minhas jóias e objetos mais queridos. No entanto, não estou feliz. Sinto falta das grandes festas que dávamos lá no palácio e dos banquetes com música e bailarinos, sinto saudades de receber imperadores, reis e diplomatas.
Uma mulher maravilhosa como eu, a rainha das rainhas, não pode passar a eternidade encafuada numa pirâmide escura e bafienta…

Tarântula Gigante, estrela de cinema

Eu sei que as tarântulas não estão na moda. Os filmes de terror estão sempre na moda, mas, agora, só querem ver zombies, vampiros e outros mortos-vivos. Mas eu já fui uma grande estrela de cinema, aliás uma estrela de cinema gigante.
Os filmes ainda eram a preto e branco e não havia efeitos especiais criados por computadores. Era tudo a sério. E eu, com o meu pelo negro e brilhante, era especialista em entradas dramáticas: umas vezes, aparecia lentamente, ao longe, no cimo de um monte, outras vezes, saltava para cima de um arranha-céus.
Nas salas de cinema, o público saltava nas cadeiras e, no final do filme, não havia ninguém com os pés no chão, pois a minha representação era tão intensa e realista que ficavam com a sensação de que, a qualquer momento, uma tarântula lhes ia subir pelas pernas acima.
Eu sempre fiz questão de ter uma atitude profissional e os críticos de cinema adoravam-me e respeitavam o meu trabalho – ao contrário do que acontecia com aquele macaco ridículo que subia edifícios de cartão e lutava contra avionetas miniatura.
Outros tempos… Agora, só me chamam para pequenos papeis em filmes de ficção científica e telefilmes de má qualidade. Parece que as pessoas deixaram de acreditar nas tarântulas gigantes.
No entanto, eu recuso-me a desistir do meu sonho de representar e contar histórias e estou a pensar aplicar a minha experiência a um novo projeto: vou criar uma escola para jovens animais gigantescos que queiram iniciar uma carreira no cinema ou na televisão.