mas, afinal, o que é que tu queres ser quando fores grande?

– mas, afinal, o que é que tu queres ser quando fores grande?

– quero ser feliz.

– deixa-te disso. estou a falar a sério. quero saber.

– mas é isso mesmo: ser feliz.

– isso é resposta de miúda de 16 anos ou de celebridade para revista cor de rosa. dá-me uma resposta decente. sê objetiva. e concreta! usa verbos operatórios.

– quero não sentir dor ao inspirar nem culpa ao expirar.

– e no que é que isso se traduz? de que é que precisas para lá chegares? quais são os pré-requisitos?

– preciso de deixar de estar aqui. preciso de me pôr a caminho. preciso de decidir quem quero ser quando for grande.

e se eu fosse mais…?

e se eu fosse mais alta? e se eu fosse mais magra? …mais esguia? …mais morena?
e se eu tivesse a pele mais lisa? …e o nariz mais pequeno? …e os olhos maiores? …e o cabelo mais forte?

e se fosse mais afinada? …mais rápida? …mais flexível? …mais enérgica?

e se eu fosse mais disciplinada? …mais paciente? …mais zen? …mais capaz de encontrar o meu centro? …mais focada?

e se eu fosse menos preguiçosa? e se eu fosse menos comodista? …e menos ansiosa? …e menos impulsiva? …e menos teimosa?

e se eu fosse mais? e se eu fosse mais mais? …e menos menos? …e mais melhor? …e se eu…? …e se…?

e se eu não fosse parva?

james blake, o raio do miúdo!

sei que estou completamente viciada no ‘retrograde’, contudo não sei o que escrever sobre este miúdo (ainda para mais que o google acabou de me comunicar que tem 1,96m… há aqui muito para processar…).

sei que me surpreende com tudo. não só com cada música nova que oiço (e não estou a dizer que gosto de tudo o que faz!), mas com o que acontece (sim, acontecem coisas) depois de certas palavras, certas notas, certos silêncios, certas hesitações…

tudo é pensado e tudo acontece ao correr da pena.

é desconcertante.

é desconcertante que tudo isto venha de uma criança nascida no final da década de 80.

é desconcertante que seja capaz de recitar joni mitchell como se fosse co-autor da letra. pior: como se fosse capaz de escrever a música para ela.

é desconcertante a forma como enche uma música com alter-egos (ou heterónimos?) da sua própria voz e é desconcertante que essas vozes sejam tão esquizofrenicamente compatíveis com o nosso ouvido.

é desconcertante que as notas a contratempo sejam tão facilmente retrovertidas pelo complicómetro humano e se traduzam em emoções profundamente à flor da pele. quer na expectativa de contratempos, quer na sequência nos nossos contratempos.

note-se: não percebo nada de música. mas o raio do miúdo deixa bem claro que não preciso de perceber nada de música para deixar que me hipnotize e me transporte para outros estados sensoriais ou me permita dançar ao som do que está por detrás dos meus estados emocionais.

“Suddenly I’m hit
(…)
So show me where you fit
So show me where you fit”

só sei que é desconcertante, o raio do miúdo!

“chorar lava a alma” diz o povo

“chora. chora tudo o que tiveres que chorar. chorar lava a alma.”

e lava. lava mesmo. e até tira nódoas, mesmo sem glutões (acho eu que não tem. e como não fazem anúncios a lágrimas, vou continuar sem grandes certezas…).

eu sou uma chorona, sou das que choram por dá cá aquela palha. portanto, acho que podemos assumir (sim, nós todos) que sei do que falo.
sei que não controlo quando é que choro ou deixo de chorar (o que, para uma control freak, pode ser matéria para umas quantas sessões de psicoterapia).
sei que a par das lágrimas, desce-me pela face uma voz trémula e digna de um castrati.
sei que o corpo acompanha, tudo devidamente coreografado, com as mãos a tremer e o estômago em rebuliço.
sei que, quando o choro é mais inconveniente ou fico de orgulho ferido por não conseguir controlá-lo, fico corada, mas de raiva.

também sei que chorar por dá cá aquela palha faz parte de mim, do meu sistema de defesa, do meu sistema de contra-ataque, do meu sistema de sobrevivência, enfim, do meu sistema elétrico… tal como as gargalhadas sonoras (e igualmente impróprias), tal como as piadas descontextualizadas (e que só fazem sentido dentro da minha cabeça), tal como os abraços a quem não os pediu e fica sem saber o que fazer com eles…

chorar lava a minha alma, essa coisa tão translúcida e de forma indefinida como as lágrimas.
é bom lavar a alma, é bom retirar-lhe os elementos que alteram a sua qualidade.
é bom lavar a alma e, de seguida, pô-la a secar e, se possível, até a corar.
no meu caso, nem é preciso passá-la a ferro, mas isso já depende da composição de cada alma.

e, depois de lavada, a alma volta à sua forma anterior, de novo fresquinha e, tal como as nossas calças de ganga preferidas, pronta para ser combinada com tacões ou com sapatilhas.
e tal como a ganga, a alma lavada fica mais justa e mais próxima da pele, no entanto, quanto mais é usada e lavada, mais se adequa às nossas formas, mais facilmente regista as nossas curvas, os nossos jeitos, a nossa história.

tal como os nossas calças de ganga preferidas, depois de lavada, a alma está mais justa (a lembrar “estou aqui, estou contigo”) mas moldável (“vamos para onde precisares de ir, e se quiseres sentar-te no chão, conta comigo”).

chorar lava a alma. liberta-a do que lhe altera a qualidade e torna-a mais nossa.

e, das duas uma, ou é o povo que é sensato e sabedor… ou é a control freak à procura de desculpas.
seja como for, e por via das dúvidas, é melhor não usar rímel nas pestanas de baixo.