groselha e alvarinho

sol de fim de tarde. temperatura de meio dia. zingarelho modernaço que cospe água de marca e em forma de spray fresco.

estado de espírito de fim de dia quente que antecede fim de semana que promete calor. batido de groselha aguado versus copo de vinho mal servido.

conversa fácil e descomprometida. “e então?” status update. “e agora?” mindset brainstorming. risos. easy listening. easy sharing.

areia. mar. tacões. óculos de sol. sol de fim de tarde.

narrativa na primeira pessoa

pôr um ponto final. iniciar um novo capítulo.
à primeira vista, parecem sinónimos.
mas não são. não são mesmo.
basta pensar que, num caso, o enfoque está no passado. no outro, no futuro.
um pressupõe um estado. o outro indicia um processo.
um cria uma quebra, um corte. o outro abre horizontes.
um não deixa margem para “e depois?”. o outro exige um “e agora?”.

podemos pôr um ponto final naquilo que queremos deixar para trás.
devemos pôr um ponto final naquilo que não queremos ter pela frente.
podemos dizer a plenos pulmões e com toda a assertividade “e ponto final!”.
devemos saber quando a nossa cabeça, o nosso corpo, a nossa alma, a nossa sanidade nos pedem um ponto final. e devemos ser capazes de os/nos respeitarmos e não deixar que esse firme ponto final se transforme em lânguidas reticências.

ninguém pode decidir iniciar um novo capítulo e simplesmente fazê-lo.
devemos estar disponíveis para iniciarmos novos capítulos e preparados para o processo, para a transição, para o que possa haver do outro lado da página.
mas ninguém pode decidir “é agora. vou iniciar um novo capítulo!”.
no início de um novo capítulo podemos ser agentes mas somos sempre apenas uma das variáveis.

nos novos capítulos, tudo pode acontecer. também pode acabar por não acontecer nada. andar em círculos também é uma possibilidade.
não sabemos. não se sabe.

um dia, acordamos (de um sono ou de outro estado qualquer) e damos por nós a estrear um capítulo novo. mas desengane-se que pensar que um “beam me up, scotty!” é suficiente; também não existem portais.
o processo que permite iniciar um novo capítulo é uma viagem. e somos nós que a fazemos.
umas vezes de sapatilhas, outras de stilettos. há até quem a faça descalço.

é uma viagem. mas daquelas em que vamos ocupados, seja a ler, a ouvir música, a conversar, a ver a chuva cair, a falar sozinhos, a chorar ou até a pesar figos.
às vezes, só damos pela viagem quando nos apercebemos de que já passámos a nossa paragem e nos esquecemos de sair.
e é quando nos apercebemos da viagem que nos apercebemos de que iniciámos um novo capítulo.
ou é um flash ou é um momento em que o tempo simplesmente pára — não há meio termo.

e, aí, voltamos a prestar atenção à prosa. o que aconteceu à personagem principal? é uma personagem plana ou evoluiu? mudou a focalização do narrador? mantém-se a ação principal ou precisamos de apelar à analepse para perceber em que ponto as narrativas se encaixaram e de que forma é que foi feito um update à catalogação das personagens secundárias?
e lá vamos nós, munindo-nos de apps de análise caracterização indireta e tags de localização psicológica, tentar perceber que pontos finais pontuaram o capítulo anterior e que reticências se alongaram para o capítulo novinho em folha. e começa a caça aos pontos de exclamação que se escondem por detrás de interrogações e dúvidas.

ninguém pode decidir iniciar um novo capítulo e simplesmente fazê-lo.

mas é tão importante sermos capazes de pôr os pontos finais que a nossa cabeça, o nosso corpo, a nossa alma, a nossa sanidade nos pedem… caso contrário, nunca estaremos disponíveis para o que possa haver do outro lado da página.

tsunami

e eis que o epicentro e o hipocentro se confundem e, entre coração e estômago, as ondas sísmicas vão e vêm, cruzam-se, entrelaçam-se, sobrepõem-se, exponenciam-se. é um crescendo tão súbito que parece que sempre esteve lá e nós é que estávamos distraídos. e tudo é tsunami. e é devastador (ou não seria um tsunami). e a água salgada descontrolada e controladora a misturar-se com a base e a ceder à força implacável da gravidade.

ainda bem que não uso rímel nas pestanas de baixo.

eles andem aí mas nós não temos medo

monstros. monstros por todo o lado. são os zombies, os vampiros e as múmias. mais os ogres, as bruxas e os frankenteins… e ainda os lobisomens. e as medusas… (não nos podemos esquecer das medusas!)

mas nós não temos medo. aliás, nós gostamos deles, quer sejam pegajosos ou fofinhos. quer sejam peças de lego, ilustrações de livros ou o desenho que fizemos há 5 minutos. quer sejam heróis, vilões ou anti-heróis. quer sejam corajosos ou tenham medo de humanos, ou até uns dos outros. quer sejam sanguinários ou vegetarianos.

sim, gostamos deles. e, por regra, não temos medo. não temos medo porque sabemos que não são reais. bem, não é bem assim: dos reais temos medo. mas sabemos que os reais não existem no nosso planeta. nem nos livros nem no cinema. muito menos lá em casa. os reais, os tais monstros de que temos medo (mas são mesmo só esses!), vivem noutro planeta, numa gruta muito escura. e nunca saem de lá. por isso é que podemos dizer, com segurança, que não temos medo de monstros.

mas, pelo sim, pelo não, vamos treinando a construção de prisões de legos. “porque eu sou um gigante invisível e preciso de ter um sítio para prender as coisas que os gigantes invisíveis precisam de prender.”

alma gémea

uma alma gémea é alguém que tem credibilidade para nos dizer “tens que ver esta série” e autoridade emocional para nos fazer cumprir essa missão.
a alma gémea sabe como resumir o enredo inicial para focar aquilo que conta, tudo o que conta e apenas o que conta.
a alma gémea sabe o que é que nos faz rir, o que nos emociona, o que nos vicia, mas, acima de tudo, o que nos faz sentir em casa quando só precisamos que a televisão nos forneça o acompanhamento certo para o chá de cidreira ou para o gelado de cheesecake.
e a alma gémea tem, invariavelmente, razão nas recomendações que faz e sabe que tem razão e sabe que ter razão é a razão pela qual tem mesmo que fazer recomendações deste tipo.
“ando há tempos para ter dizer que tens que…” e é tão simples, direto e concreto quanto isso. e tão assertivo como qualquer “tens que tomar conta de ti” ou “essa blusa não é uma boa ideia”.

a alma gémea sabe coisas sobre nós. e sabe-as porque as sente através da nossa capacidade de descrever o que sentimos. e sabe a importância que têm para nós porque sabe ler o que é importante para nós, principalmente quando não estamos a elaborar sobre a importância de coisas mais ou menos importantes.

a alma gémea sabe coisas e sente coisas, não porque somos iguais, mas porque sabe que somos diferentes e conhece essas diferenças com um grau de proximidade e familiaridade que, embora não sinta as coisas da mesma forma que nós, lhe permite sentir como nos sentimos quando sentimos aquilo que sentimos da forma como sentimos aquilo que nos faz sentir coisas.

e é simples. e direto. e concreto. e muito muito real.

e qualquer “nem tenho tido tempo para te ligar” só salienta a presença, nunca a ausência.

acreditar pode ser uma forma de sobrevivência

acreditar que as pessoas merecem que acreditemos nelas.
acreditar que é acreditando que as fazemos crescer. acreditar que vão perceber que há quem esteja a acreditar nelas. acreditar que vão achar que acreditar é importante e que não vão querer deixar ficar mal quem arrisca acreditando.

acreditar em intenções.
acreditar que, mesmo quando os meios parecem duvidosos mas os propósitos não, os propósitos são o combustível e simultaneamente a meta. acreditar que esses propósitos são reais e não apenas argumentos ocos e efémeros para atirar quando e a quem for necessário. acreditar que não há razão para não acreditar e que acreditando vamos ajudar a construir.

acreditar que há sempre saída.
acreditar que, por muito que o horizonte esteja escondido por detrás de um nevoeiro cerrado, ele continua a existir e é amplo e soalheiro. acreditar que por detrás do nevoeiro não existe um Adamastor mas sim um fenómeno geográfico que marca a passagem para outro oceano. acreditar que temos o leme necessário para rumar ao horizonte que mais nos convém ou, pelo menos, aquele que nos parece ser o mais adequado.

acreditar que acreditar não é coisa de gente parva e sem noção da realidade.
acreditar que acreditar é coisa de gente corajosa e persistente.
acreditar que acreditar é um combustível.
acreditar que acreditar é essencial para manusear o leme que nos permite chegar a outros oceanos.
acreditar que acreditar não é coisa de gente parva mas sim de gente persistente na sua esperança.

a mãe da minha mãe, a minha mãe e a mãe do meu filho

a mãe da minha mãe teria hoje 82 anos. fazia um pudim de ovos como nunca haverá igual. estava sempre a contar com a gargalhada que qualquer piada do genro iria provocar. na praia besuntava-me com nivea. deixava-me ouvir os discos da amália e fazer a árvore de natal. sempre gostou de me ver de minissaia (por muito curta que fosse) e achou piada aos 3 furos que fiz em cada orelha. via no bisneto a continuação do zeca dela. ria-se alto e fazia anos no mesmo dia que eu.

a minha mãe nasceu a meio do século XX. foi levada da terra onde nasceu para a terra dela, onde cresceu dentro de vestidos rodados e descalça sempre que podia. era a menina do papá dela até passar ser a do meu. obrigava-me a desenhar vezes sem conta os patos que ilustravam as cópias, tinham que ficar “perfeitinhos”. era chamada à escola para ouvir dizer que eu desestabilizava a aula e virava a turma do avesso. ensinou-me a fazer croché, a bordar e a fazer a minha roupa. gosta de dançar e de ouvir george michael (e foi com as “meninas” vê-lo ao vivo). é a melhor avó do mundo e uma sogra fora de série. faz um bacalhau com banana que, por vezes, me faz pensar que se calhar deus existe. queixa-se que eu não lhe ligo. e acha piada quando alguém vê fotografias dela em miúda e pensa que sou eu.

a mãe do meu filho nasceu no ano da revolução que juntou as forças armadas com o apelo estético das flores vermelhas. tem a proverbial “personalidade forte” e lida mal com autoridade. cresceu com a sorte de ter uma companheira para sair da sala pela janela, dançar até cair para o lado e completar frases como “alcibíades, alcibíades,…”. não tem pachorra para cozinhar por obrigação mas adora fazer arroz de atum para partilhar com gente querida. come chocolate como se não houvesse amanhã. procura ser leal, coerente e transparente e tem um grande talento para fazer inimigos. cada vez mais vai criando anticorpos que rejeitam relacionamentos ocos e faz questão de celebrar cumplicidades, risos e proximidades improváveis. é uma mamã-das-que-gostam-do-wolverine (em oposição a mamãs-que-gostam-do-mickey), completamente apaixonada pelo seu príncipe do caos. acha que a música alimenta a alma e mantém a sanidade do corpo. e dança. dança muito. e pode ser ao som de ala dos namorados ou marilyn manson. adora caveiras e é devota a saramago, goscinny e mark sandman. ao que parece, está a desenhar a sua história na pele. ah! e acredita que adamantium é que é!

you see everything, and you’re still here

tu vês tudo. sempre viste. olhaste para mim e viste-me.

viste a alma anarca quando à minha volta só viam a miúda que ia dançar para cima das colunas. viste e quiseste ver mais. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. viste-me e ouviste-me. e quiseste saber. e nem tiveste que perguntar. bastou estares lá. bastou não teres pressa nem agenda. bastou não te incomodares com as interpretações de quem se entendia com direito a interpretar coisas.

entretanto, tropeçámos na vida. passaram anos, décadas quase (pelo menos, é o que diz o calendário e não a minha alma anarca). e mais um tropeção e voltámos a estar frente a frente. e voltaste a perguntar por mim. e eu estava de quatro e – tive mais noção disso quando te reencontrei – perdida de mim. e viste-me novamente. e olhaste para mim e não me deixaste fugir lá para o sítio para onde eu ia quando é mais fácil sorrir e continuar a andar. e ouviste-me. e obrigaste-me a ouvir-me. sim, obrigaste-me. porque tens autoridade para me obrigares a estas coisas, mas, acima de tudo, porque tens toda a credibilidade para me dizeres que me estou a perder de mim. e a diferença que faz ter-te a jeito para me dizeres essas coisas!

e, meu querido Optimus Prime, a confiança para me atirar ao black russian é a mesma. e é o que revelas quando revelas os momentos que capturas, os momentos em que o sorriso é fácil, incontornável e absolutamente transparente, momentos em que estou em casa, momentos em que me aninho num abraço de qualidade indescritível.

tu vês-me. vês a minha luz, vês o que reflito, vês o que me alimenta. mas também vês o que de mais escuro existe em mim, o que me faz aninhar, o que me faz ter vontade de semear caos na tentativa de fazer implodir perniciosas ideias de ordem.

e sempre que o mundo gira ao contrário, e sempre que preciso de desconstruir para construir, e sempre que preciso de olhar para mim na terceira pessoa…

… you see everything, you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I’m ashamed
there’s not anything to which you can’t relate
and you’re still here

(Alanis Morissette)

http://www.youtube.com/watch?v=C6kLbDHu0yc

“não se pode ter muitos amigos”

“não se pode ter muitos amigos.”, diz o inspirador MEC.

assumindo que se trata de um “poder” de capacidade e não de possibilidade, não podia estar mais de acordo.

neste contexto, o da amizade, o de deixar que entrem na nossa vida e sejam criadores intelectuais de estados de espírito e de emoções, o poder-capacidade é mais um superpoder, enquanto que o poder-possibilidade procura estabelecer um equilíbrio (ou desequilíbrio) de poderes.

os superpoderes são supercapacidades que permitem fazer coisas. ou capacidades que permitem fazer supercoisas. e a capacidade de deixar que alguém entre na nossa vida — deixar mesmo, no sentido de dar o flanco; e entrar mesmo, no sentido de passar a ocupar parte do espaço interior — é uma supercapacidade, é um superpoder.

quando, para além disso, existe ainda a capacidade de dar a chave (ou o cartão, ou o código — isto porque somos modernos e tecnológicos) para que a outra pessoa entre e saia consoante a sua vontade ou necessidade, aí já estamos a falar de ter uma supercapacidade de fazer uma supercoisa. um superpoder ao quadrado. é mesmo coisa para super-heróis.

mas, como o universo é dado a essa coisa da procura do equilíbrio, da simbiose de opostos e da simetria de forças e números, para cada super-herói existe um arqui-inimigo, um super-vilão. se bem que, por alguma razão, os vilões raramente sejam apelidados de super, não deixam de ter superpoderes, supercapacidades para destruir o que foi construído por outros ou, pior ainda, ter capacidades para transformar uma coisa boa numa coisa super-má ou numa supercoisa má.

e, na amizade, o poder-possibilidade, o que procura estabelecer um determinado equilíbrio de poderes, é artificial. não constrói, mascara. não cria laços, cria dependências. não dá liberdade, define áreas de ação e funções a desempenhar.

na amizade, o poder-capacidade de criar laços é um superpoder ao quadrado. o seu arqui-inimigo é o poder-possibilidade de criar dependências que estabelecem relações de poder.

de facto, não se pode ter muitos amigos. não se pode, não se consegue: até os superpoderes — mesmo que ao quadrado — têm limites. temos que saber aplicá-los com cuidado. temos que assegurar que somos supercapazes de sermos os nossos próprios super-heróis e não nos tornarmos os nossos próprios arqui-inimigos, daqueles que soltam uma gargalhada sempre que usam o seu poder-possibilidade para criar uma nova dependência da rede de poder.

redondo

“preocupas-te demais. não precisas de saber já para onde vou nem por onde eu vou. são destinos por definir (não tens a ilusão de que vou só para um sítio, pois não?). são estradas ainda por traçar.” e sorri. fico atenta: quero ver se vem aí uma daquelas gargalhadas que normalmente não tenho oportunidade de ver nascer mas apenas já a florir. fica-se pelo sorriso. é um sorriso firme que acaba por fazer um fade out para uma expressão neutra porém redonda. “está tudo bem. eu estou bem. e, quando deixares de te preocupar tanto, vais ser capaz de perceber que tu também estás bem. e se eu estou bem e tu estás bem, nós estamos bem.” e espreguiça-se. lânguido. e redondo. e eu não consigo tirar os meus olhos dos dele. redondos. apoiados pelas bochechas redondas. e, durante alguns segundos, não me preocupo. e sinto-me preenchida por ondas redondas como as que se formam e propagam quando cai uma pedra num lago calmo. “mas não há pedra, pois não?” ele sabe que não, que não há pedra. sabe que só há ondas. ondas redondas que brotam de um epicentro e trotam até à margem. e um arrepio. não sei se ele sabe do arrepio… não deve saber. o arrepio acontece quando a última onda atinge a margem, quando o redondo que toma conta de mim não tem alternativa senão ultrapassar os meus limites. e desaparece. quando a última onda passa a barreira da pele e se evapora. “acho que essa coisa do arrepio não é para mim, eu não tenho limites. eu tenho o superpoder de ter uma pele tão flexível que me permite expandir sempre que quero. e tão inteligente que sabe bem como filtrar o que a atravessa. em ambos os sentidos. é mesmo assim: eu tenho o superpoder de não ter limites.” e faz todo o sentido. ele tem superpoderes. e eu preocupo-me demais. talvez porque sou a primeira testemunha desses superpoderes mas sem a capacidade perceber como é possível ser tão redondo e simultaneamente não ter limites. sim, ele tem superpoderes. é isso: ele tem superpoderes. fico novamente presa nas feições redondas. com esperança de um novo sorriso (e mais ondas). mas não acontece. em vez disso, suspira, puxa o edredão e vira-se para o outro lado. só me resta dar-lhe um beijo na testa e outro nos caracóis, dizer-lhe que é a minha pessoa preferida e pedir-lhe que durma bem e sonhe com dinossauros felizes. encosto a porta e sinto novamente o arrepio sem pedra.