algo(s) que não me sacode(m)

(antes de mais, adoro momentos de “gramática, mas tu mandas em quê?”. é que “eu formo os plurais que me apetecer formar e a menina mete-se na sua vidinha”.)

coisas que não me sacodem:
futebol.
vermelho e verde.
marmanjos de calções a jogarem à bola.
marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.
o meu feed do facebook carregadinho de odes aos marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.
a ideia de que o vermelho e o verde justificam os marmanjos de calções a ganharem balúrdios a jogar à bola.

(sim, prefiro ter conversas com a gramática sobre os pontapés que decido aplicar à senhora.
será que, se me vestir de vermelho e verde – calções, claro – e argumentar que a gramática é redonda, consigo que alguém me pague balúrdios?)

diáfano, meu caro watson!

não está claro nem escuro. é mais como se estivesse a ver tudo através de um véu, através de algo que poderia ser descrito como diáfano. sim, diáfano é uma boa palavra. sugere leveza, algo que é, de alguma forma, permeável à luz. quase que implica uma alteração de estado. de solidamente dobrado e arrumado numa gaveta à fluidez da ausência de forma a que o esvoaçar obriga.

pois, não está claro nem escuro, e os contornos não são fidedignos. ora são esbatidos pela assertividade da luz, ora são redesenhados pelas inseguranças da brisa.
é o diáfano a criar a dúvida. continuam a ser as sombras da caverna? ou são os olhos que ainda não se habituaram à claridade do exterior?
ainda há uma terceira hipótese: será o cérebro? será que o córtex visual ainda não desenvolveu o código necessário para processar a imagem com rigor? …e com significado?

gente será certamente

eu gosto de gente que escala paredes.
eu gosto de gente que, perante uma subida particularmente íngreme e sem bases de apoio, pensa “quero ver o que está lá em cima”.

eu gosto de gente que multiplica flores por nuvens para explicar que vai haver sempre passarinhos a chilrear.
eu gosto de gente que, mediante pontos de interrogação, reduz o carácter quântico das coisas à sua expressão mínima e desenha formas geométricas orgânicas que transformam os tais sinais de pontuação nos sorrisos de quem se apercebe que hoje sabe mais do que sabia ontem.

eu gosto de gente que gosta de gomas.
eu gosto de gente que receita coisas doces como forma de clarificar ideias e aplacar estados de espírito em tons de vermelho.

eu gosto de gente que dança a sorrir e de olhos fechados.
eu gosto de gente que é permeável a estados de espírito calorosos e inspiradores de sonhos mais ou menos bucólicos.

eu gosto de gente que gosta de galochas.
eu gosto de gente que percebe que saltar em poças de água da chuva é terapêutico e que calçado de borracha vermelha permite tirar fotografias à alma.

eu gosto de gente de raciocínio rápido e que resolve problemas como quem come piza de nutella.
eu gosto de gente com quem é fácil construir e divertido sonhar.

eu gosto de gente que se delicia com as perguntas desarmantes de seres de olhos redondos e horizontes em construção.
eu gosto de gente que celebra o ser diferente e simultaneamente batalha pela aceitação da diferença como standard.

eu gosto de gente que me faz pensar “como é bom ter por perto gente que me faz pensar”.

a voz que lê o que me rodeia

«Quando leio, há uma voz que lê dentro de mim. (…) A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas não é minha. Não é a voz dos meus pensamentos. A voz que ouço quando leio existe dentro de mim, mas é exterior a mim. É diferente de mim. (…)
Não foram poucas as vezes que a voz que ouço quando leio me fascinou com as palavras que disse. Muitas vezes as suas pausas acenderam imagens no meu interior, nos lugares escuros que transporto dentro de mim e não conheço. Muitas vezes essa voz iluminou lugares dentro de mim: túneis que não conhecia. Muitas vezes vejo essa voz avançar por eles com uma tocha. Eu sei que a voz que ouço quando leio não tem medo. (…) Fico a ouvi-la durante horas e tento não esquecer nada porque quero aprender a perder-me menos vezes de mim próprio.»

(‘A voz que ouço quando leio’, “Abraço” de José Luís Peixoto)

dentro de mim, há uma voz que lê o que me rodeia. o que vejo, o que oiço, o que me aquece e o que me arrepia. essa voz é recetor e emissor ao mesmo tempo, pois recebe todos esses estímulos, processa-os e produz a sua  própria mensagem. umas vezes, fala-me com palavras concretas e coerentes, criando algum tipo de narrativa. outras vezes, o seu discurso deixa-me perdida numa montanha russa de afasia e tourette.

a voz que lê o que me rodeia gosta de metáforas, de legendar imagens com palavras de outras pessoas e de situar tudo com uma banda sonora. digo “gosta de” porque sei que a faz sorrir, mas, na verdade, é mais correto dizer “precisa de” ou “tem que”. palavras e apenas palavras não chegam. as palavras são bidimensionais e o que a voz que lê o que me rodeia tem para dizer requer uma multiplicidade de dimensões. e subdimensões. não se trata de complexidade mas de pormenor. daí a renda de bilros com as metáforas que ligam ideias e expandem o horizonte, com as palavras de outros que trazem novos narradores e focalizações diferentes da minha, com a música que… bem… a música que faz voar e sonhar e querer e sorrir e dançar.

a voz que lê o que me rodeia é maternal q.b.. diz-me diretamente aquilo que preciso de ouvir, mas preocupa-se comigo e tenta preparar-me para a dissonância cognitiva que sabe que ela própria vai provocar.

a voz que lê o que me rodeia irrita-se quando eu não lhe dou importância, quando tento convencer-me de que a leitura que ela faz é mais negativa do que a realidade ou quando, por razões com maior ou menor razão de ser, a acuso de estar a ver as coisas com lentes cor de rosa.
quando volto atrás para lhe dar razão, a voz que lê o que me rodeia sorri e não perde a oportunidade para me lembrar que tenho mais razões para confiar nela do que para não confiar.

um castelo

– constrói-me um castelo.
– sim.
– tem que ser sólido e resistente.
– sim. será sólido e resistente.
– e com muralhas altas e fortes que nos protejam em tempo de guerra.
– sim. ficaremos protegidos, será o nosso porto de abrigo.
– estou a contar contigo.
– eu sei.

… … …

– o que é isto?
– é o teu castelo.
– não, este não é o castelo que eu te mandei construir.
– não é sólido e resistente?
– é. mas eu perco-me nos corredores e tem muitas salas que eu não sei para que servem e outras que eu simplesmente desconheço.
– as muralhas não são suficientemente altas e fortes para nos protegerem?
– são. no entanto, as pessoas que cá vivem fazem-me vénias mas é para ti que sorriem. este castelo é teu, e não foi isso que eu te disse para fazeres. eu disse-te para construíres o meu castelo.

o castelo foi destruído.

– ainda tens as muralhas. são altas e fortes. e as pessoas que lá vivem podem ajudar-te a construir o castelo que tu queres.

as muralhas foram destruídas.

ficaram as árvores que tinham sido plantadas dentro das muralhas e a envolver o castelo. eram altas e fortes e protegiam os pássaros na guerra contra o vento frio do inverno.

com os pés bem assentes no teto

pestanejo e é como se estivesse a abrir os olhos ao acordar. como se o pestanejar fosse o necessário para ser teletransportada para uma realidade alternativa, mas daquelas dos sonhos, daquelas em que estamos permanentemente à espera de voltar à realidade das coisas reais.

pestanejo.
pestanejo e ao abrir os olhos está tudo de pernas para o ar. e esse tudo é tão tudo, e o de pernas para o ar é tão real que duvido. duvido que esteja tudo de pernas para o ar. duvido que seja o tudo que está de pernas para o ar e não eu que estou de pernas para o ar. olho para os meus pés e vejo-os pousados no teto mas sinto-os firmes no chão. ponho a mão na cabeça para sentir o cabelo, e também ele está sossegado, pousado na cabeça. se o meu cabelo não está de pernas para o ar, eu não estou de pernas para o ar. se eu não estou de pernas para o ar, os meus pés estão firmes num teto que devia ser o chão. o chão é que está de pernas para o ar. tudo está de pernas para o ar.

pestanejo.
abro os olhos.
ela olha para mim e pisca-me o olho.
abro os olhos e vejo-a inteira, redonda, brilhante. cheia e brilhante num teto escuro.
ela olha para mim e, brilhante, sorri e pisca-me o olho. “sim, estou cá em cima. e, não, não estás de pernas para o ar. não és tu que estás de pernas para o ar.”

deixa-me.tirar-te.fotografias

para com isso! deixa-me tirar-te fotografias.
és um ranhoso. és mesmo ranhoso.
podia dizer-te que um dia vais querer fotografias tuas aos 5 anos e não vais ter nenhuma de jeito, mas esse argumento é tão foleiro como tu és ranhoso.

eu quero tirar-te fotografias.
eu quero colecionar os teus sorrisos todos.
eu quero colocar em pausa o teu ar de desafio para que continue a desconcertar-me mesmo depois de virares costas e ires brincar com os monstros do ben 10.
eu quero capturar frames épicas da tua magnífica naturalidade, quer seja a olhar pela janela ou a subir árvores.

para de ser ranhoso e deixa-me tirar-te as fotografias que eu quero tirar.

às vezes

às vezes, acontecem coisas que só podem acontecer às vezes. talvez pudessem acontecer mais vezes, mas não acontecem mais vezes. só às vezes. talvez por definição. talvez por hesitação. talvez sem qualquer razão.

às vezes, são coisas grandes ou amplas ou profundas. e trazem sorrisos grandes ou amplos ou profundos. outras vezes, são coisas mais pequenas e os sorrisos podem até não ser tão grandes ou amplos mas podem até ser mais profundos.

às vezes, as pessoas encontram-se, cruzam-se. outras vezes, as pessoas reencontram-se e entrecruzam-se. umas vezes, ficam; outras vezes, seguem.

às vezes, as coisas que acontecem só às vezes representam quebras ou cortes com o estado das coisas. outras vezes, as coisas que acontecem só às vezes têm o dom de transformar as próprias coisas, as tais que definem o estado das coisas. às vezes, as coisas que acontecem só às vezes criam novos padrões para aquilo que existe para além desses momentos. não se trata de alterar um continuum, mas sim de alterar cores e sabores que, consequentemente, alteram a forma como o continuum ou o tal estado das coisas ou a própria vida são escritos.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que, saídas sabe-se lá de onde, trazem portas para varandas ou jardins, que colocam em causa o que sabemos sobre as cores do arco-íris, que acrescentam nuances ao olhar que está do outro lado do espelho.

às vezes, são as coisas que acontecem só às vezes que despertam novas verdades, novos horizontes, novas formas de estar em sintonia com o que nos define.
ali, entre o macro e o micro.