“como é que eu explico isto ao meu filho?”

lembro-me perfeitamente de acordar no dia 9 de novembro de 2016, ler as notícias sobre as eleições nos EUA e pensar “como é que eu explico isto ao meu filho?”.

depois desse dia e depois dessas eleições já tive muitas vezes que tentar explicar ao meu filho muitas coisas que eu própria não percebo.

acho que continuo a ser bastante incompetente a explicar a origem do ódio e do medo que motiva ódio. a explicar porque é que há pessoas que acham que os outros têm que ser menos para que elas se sintam mais. a explicar porque é que há pessoas que têm tanta vontade de mandar nas outras, nos corpos das outras, nos afetos das outras.

também sou incompetente a tentar explicar porque é que o que se passa nos EUA é só uma montra para o que se passa no mundo, no retângulo tuga. a explicar porque é que a normalização do inormalizável se tornou tão real. a explicar porque é que isto não “é coisa dos malucos dos americanos”, é coisa de uma humanidade cada vez menos humana.

a minha criatura sabe bem que não é a minha incompetência que me inibe de tentar explicar-lhe coisas que eu não percebo. ele sabe que tanto falo com ele sobre kriptonite como sobre sabres de luz. sobre a liberdade dos dentes-de-leão e sobre as prisões feitas de espinhos de rosas. sobre o Super-Homem que há no Clark Kent e sobre o Logan que há no Wolverine.

eu é que tinha a veleidade de achar que o Mundo que eu tinha para oferecer ao príncipe do caos era mais… assim, tipo… mais melhor.

Lobisomem, eterno apaixonado

Bela lua cheia
só tu me vês como eu sou
só tu me permites ser quem sou

Quando te vejo
tudo muda
e eu mudo
transformo-me no animal que existe dentro de mim
transformo-me em mim
transformo-me naquilo que o meu coração realmente é

E corro pelos campos
embrenho-me nos bosques
e volto a ser parte da natureza

Bela lua cheia
só contigo volto a ser livre
bela lua cheia
só contigo volto a ser parte da natureza
só contigo volto a ser livre.

Quetzalcoatl, serpente emplumada

Chamem-se saudosista se quiserem. Não me importo.

Eu tenho princípios e valores. E eu tive o privilégio de conhecer os Maias e os Astecas. Eles, sim, eram povos avançados, povos civilizados. Para eles, eu era a “serpente emplumada” e adoravam-me como um a deus. Agora, são tantos aqueles que nem sequer sabem quem eu sou… Não vou amuar, mas confesso que me choca e que me sinto ofendido.
Eu era o deus preferido dos sacerdotes. Eu, o grande Quetzalcoatl. Eu era o deus do vento e da luz. Viam em mim o alimento do corpo e o alimento da mente.
Eu representava a Vida e a Terra.
Agora, olham para as imagens minhas nas paredes das pirâmides e dos templos e perguntam-se “Que dragão é este?”. Mas, não, eu não vou amuar. Eu sou o grande Quetzalcoatl. Eu sou a divina serpente emplumada.

Iara, a sereia do Amazonas

Era uma vez uma princesa índia. Ela pertencia a uma tribo nómada do povo tupi e crescia feliz e livre nas margens do rio Amazonas.

Era querida pelos outros índios, pelas árvores e até pelo sol. Mas os seus grandes amigos eram os animais do rio: ela contava-lhes histórias e eles brincavam com ela; ela cantava-lhes canções de embalar e eles contavam-lhe segredos do mundo aquático.
Era uma vez uma menina índia, livre e feliz. Essa menina tratava os animais do rio como se fossem seus irmãos, mas essa amizade saiu-lhe cara, pois desagradava a uma certa deusa. A deusa tinha muita inveja da menina de pele cor de caramelo e, um dia, vendo-a a cantar para um cardume de peixes prateados teve um ataque de fúria e transformou a pequena índia numa sereia. “Agora, vais passar a vida na água com os esses teus amigos e longe dos humanos. E quando um humano ouvir o teu canto, vai ficar enfeitiçado e acabará por morrer afogado ao teu lado. Nunca mais terás companheiros humanos!”.
Essa menina de pele cor de caramelo era eu, livre e feliz. Essa sereia amaldiçoada sou eu, condenada a viver sem companhia da sua espécie. Pretendentes não me faltam. Eles veem-me sentada numa rocha a pentear os meus belos e longos cabelos verdes. Enamoram-se da minha pele cor de caramelo, ficam encantados com a minha voz e vêm atrás de mim. Mas assim que entram na água, forma-se um violento remoinho, o seu sorriso desaparece e eles morrem afogados entre gritos e pedidos de ajuda.
Era uma vez, uma sereia amaldiçoada, de pele cor de caramelo e escamas prateadas. Uma sereia, triste e solitária, que percorre o rio na esperança de encontrar um companheiro.

Górgona em s-s-sofrimento

C-c-céus, que dor de cabeça! Que insuportável c-c-cefaleia. Indescritível s-s-sofrimento.
S-s-são as s-s-serpentes. As s-s-serpentes na minha cabeça: s-s-sibilam, s-s-sussurram, s-s-segredam.
Elas até s-s-são úteis quando quero transformar alguém em estátua de pedra. Mas não s-s-se calam. Todo o s-s-santo dia, s-s-só dizem disparates. S-s-sem parar para raciocinar, recitam palermices s-s-sem s-s-sentido.
S-s-sinceramente, já não s-s-sei que mais faça para que c-c-cessem com tamanha insanidade. S-s-será que consigo transformá-las em s-s-seixos?
Se calhar, s-s-só me resta tomar uma s-s-solução de ácido acetilsalicílico e ir fazer uma s-s-sesta.

Ya-te-veo, a árvore carnívora

(“Estou a ver-te…”)
Houve um tempo em que os mapas do mundo só tinham a Europa, o Norte de África e uma parte da Ásia. Era assim porque, na verdade, ninguém sabia o que existia para além desses territórios. Imaginava-se que existiriam monstros terríveis, criaturas medonhas, terras bravias e mares tempestuosos com ondas capazes de engolir qualquer navio.
Mas esse tempo acabou, e acabou porque houve gente com coragem para enfrentar os mares tempestuosos, gente decidida a matar monstros e a amansar outras criaturas. Essa gente acabou por descobrir que era possível navegar por ondas mais benéficas e acabou por compreender que, sim, as havia criaturas desconhecidas mas eram apenas espécies novas, adaptadas a habitats também eles novos e desconhecidos. Pelo menos, foi o que eles pensaram…
(“Estou a ver-te…”)
Bravos e destemidos, os descobridores exploraram todo o continente africano e os conquistadores dominaram o continente americano. Cortaram mato, criaram cidades e mataram índios. Achavam-se os maiores e, no início, não deram por mim.
(“Estou a ver-te…”)
Eu pertencia a uma das tais espécies novas e facilmente me adaptava ao clima e ao solo dos locais onde as minhas sementes caiam levadas pelo vento. O meu tronco era baixo mas os meu ramos muito compridos. Achavam-me exótica e não se apercebiam dos meus olhos, pensavam que eram folhas exóticas.
“Estou a ver-te…” era a última coisa que ouviam quando eu os apertava com os meus braços longos e fortes como tentáculos. “Estou a ver-te…” era a última coisa que ouviam antes de eu os comer.

Homem Invisível e incompreendido

– Está? Bom dia. Eu já tinha ligado ontem, minha senhora. Sim, tenho umas fotografias para vender e estou a contactar várias revistas para saber se têm interesse em comprá-las. Exato, é isso mesmo. São fotografias da mesma estrela de cinema que fez a vossa capa na edição anterior. Não, ninguém me viu. É impossível que me tenham visto. Absolutamente impossível. Claro que tenho a certeza, minha senhora. E tenho a certeza de que não estava lá mais nenhum colega meu, pois teria sido visto e apanhado pelos guarda-costas. Não, já lhe disse: é impossível que me tenham visto. Exatamente, são fotografias exclusivas. Preciso de saber que valores estão dispostos a pagar antes de enviar algumas provas. Eu compreendo, minha senhora, mas é assim que as outras revistas trabalham. E eu sou um profissional e não posso arriscar a colocar o meu trabalho nas vossas mãos sem garantias de que o valorizam. Não, minha senhora, não é negociável: preciso de saber valores de antemão. Desculpe? Como? Importa-se de repetir? Não estava a contar com uma oferta tão baixa. Não, não estou interessado. Não, minha senhora, por esse valor nem pensar. Sou um profissional e já trabalho com a vossa revista há mais de 5 anos. Não, minha senhora, já lhe disse que esse valor não me interessa. Trata-se de um trabalho profissional, que resulta de um investimento de muitas horas. Pelo valor que me está a oferecer, percebo que não estão interessados em fotografias exclusivas das férias de uma estrela como esta. Não, minha senhora, sendo assim, vou contactar a vossa concorrência. Pois, minha senhora, eu compreendo, mas, como deve calcular, não vou vender o meu trabalho como se eu fosse um paparazzo amador. Tenha uma boa tarde, minha senhora, e bom trabalho.
Parece impossível! Eu sou um profissional e tratam-me como se fosse fácil tirar fotografias a pessoas que não querem que lhes tirem fotografias…

Wendigo, um monstro que já foi humano

Eu não fui sempre assim. Eu tinha família e amigos. Trabalhava num banco e jogava futebol duas vezes por semana. Às vezes, tomamos as coisas como certas e somos apanhados desprevenidos. Nunca pensei que me pudesse acontecer isto a mim. A mim? Ainda me custa a acreditar…
Não sei se consigo explicar como tudo se passou. Sei que, certo dia, dei por mim em apuros, sem ter o que comer e sem saber como ia sair daquela situação. Dizem que o verdadeiro caráter das pessoas se revela nos momentos mais difíceis. Não sei se é verdade e custa-me a acreditar que… que o filho que a minha mãe criou com tanto carinho… que o menino que dizia sempre “obrigado” e “se faz favor”… que o homem que era um cavalheiro e um pai dedicado… que um ser humano de carne e osso se transformasse num monstro.
E é isso que sou agora: um monstro. Um monstro cruel e sanguinário. Um monstro que deixou para trás toda a sua humanidade. Não consigo evitar, é mais forte do que eu. Não foi uma transformação instantânea, foi mais como uma metamorfose. Em pouco tempo, o meu corpo humano transformou-se num organismo podre e nojento, o meu sangue transformou-se numa espécie de lama viscosa.
Agora sou um monstro, um ser horrível que vive para caçar e caça para viver. Dizem que o verdadeiro caráter das pessoas se revela nos momentos difíceis. Será verdade?

O Esqueleto bibliotecário

Aproximem-se, meninos e meninas. Não tenham medo! Sou um esqueleto com histórias para contar. Escolham um livro, um livro qualquer. Nem preciso de o abrir, sei as histórias todas de cor e salteado.
Eu era bibliotecário e, como podem ver, morri e acabei por ficar apenas ossos. Agora, sou um esqueleto que vive na biblioteca. É um sítio maravilhoso, aprende-se muito e sonha-se mais ainda. Como tenho muito tempo livre, já conheço os livros todos de trás para a frente.
Não se deixem enganar pelo facto de eu não ter pele nem músculos nem cérebro: tenho as histórias todas entranhadas nos ossos. Quando era vivo, tinha um corpo humano completo, com os sistemas todos e o sangue a correr e cabelo a crescer. Mas não tinha tanto tempo livre. Não tinha tempo para ler os livros todos.
Aproximem-se, meninos e meninas. Não tenham medo! Sou “apenas” um esqueleto, mas tenho tantas, tantas histórias para contar…

A receita da Bruxa

Asas de morcego, garras de jacaré, baba de lesma, patas de centopeia e, por fim, o ingrediente secreto, uma pitada de pó de carvão.
Junta-se tudo numa panela de ferro, tritura-se com a varinha mágica e mexe-se durante alguns minutos, em lume brando, até começar a ferver.

Depois, com muito cuidado, passa-se o caldo para uma tigela e deixa-se arrefecer. Para obter melhores resultados e uma textura mais rica, deixar destapado, ao relento, numa noite de lua cheia.
Esta é uma receita muito antiga que a minha avó ensinou à minha mãe e que a minha mãe me ensinou a mim.
É um dos segredos mais bem guardados pela minha família. E é graças a esta receita para máscara de beleza que gerações de mulheres conseguem manter intactas as suas olheiras roxas, os seus sinais pretos e a sua pele esverdeada.