(“Estou a ver-te…”)
Houve um tempo em que os mapas do mundo só tinham a Europa, o Norte de África e uma parte da Ásia. Era assim porque, na verdade, ninguém sabia o que existia para além desses territórios. Imaginava-se que existiriam monstros terríveis, criaturas medonhas, terras bravias e mares tempestuosos com ondas capazes de engolir qualquer navio.
Mas esse tempo acabou, e acabou porque houve gente com coragem para enfrentar os mares tempestuosos, gente decidida a matar monstros e a amansar outras criaturas. Essa gente acabou por descobrir que era possível navegar por ondas mais benéficas e acabou por compreender que, sim, as havia criaturas desconhecidas mas eram apenas espécies novas, adaptadas a habitats também eles novos e desconhecidos. Pelo menos, foi o que eles pensaram…
(“Estou a ver-te…”)
Bravos e destemidos, os descobridores exploraram todo o continente africano e os conquistadores dominaram o continente americano. Cortaram mato, criaram cidades e mataram índios. Achavam-se os maiores e, no início, não deram por mim.
(“Estou a ver-te…”)
Eu pertencia a uma das tais espécies novas e facilmente me adaptava ao clima e ao solo dos locais onde as minhas sementes caiam levadas pelo vento. O meu tronco era baixo mas os meu ramos muito compridos. Achavam-me exótica e não se apercebiam dos meus olhos, pensavam que eram folhas exóticas.
“Estou a ver-te…” era a última coisa que ouviam quando eu os apertava com os meus braços longos e fortes como tentáculos. “Estou a ver-te…” era a última coisa que ouviam antes de eu os comer.
