Eu não fui sempre assim. Eu tinha família e amigos. Trabalhava num banco e jogava futebol duas vezes por semana. Às vezes, tomamos as coisas como certas e somos apanhados desprevenidos. Nunca pensei que me pudesse acontecer isto a mim. A mim? Ainda me custa a acreditar…
Não sei se consigo explicar como tudo se passou. Sei que, certo dia, dei por mim em apuros, sem ter o que comer e sem saber como ia sair daquela situação. Dizem que o verdadeiro caráter das pessoas se revela nos momentos mais difíceis. Não sei se é verdade e custa-me a acreditar que… que o filho que a minha mãe criou com tanto carinho… que o menino que dizia sempre “obrigado” e “se faz favor”… que o homem que era um cavalheiro e um pai dedicado… que um ser humano de carne e osso se transformasse num monstro.
E é isso que sou agora: um monstro. Um monstro cruel e sanguinário. Um monstro que deixou para trás toda a sua humanidade. Não consigo evitar, é mais forte do que eu. Não foi uma transformação instantânea, foi mais como uma metamorfose. Em pouco tempo, o meu corpo humano transformou-se num organismo podre e nojento, o meu sangue transformou-se numa espécie de lama viscosa.
Agora sou um monstro, um ser horrível que vive para caçar e caça para viver. Dizem que o verdadeiro caráter das pessoas se revela nos momentos difíceis. Será verdade?
