detesto que me digam o que (não) devo vestir

detesto que me digam o que não devo vestir, seja o paternal “vais sair assim? onde está o resto da saia?” ou o venenoso “ela não usa saias, usa cintos” (ambos omnipresentes nos anos da faculdade).

detesto o que está por detrás de um “aqui toda a gente se veste como funcionários públicos e depois… depois apareces tu” (pela voz de alguém que também passara a fazer parte da família institucional mas que me conhecia de antes).

detesto o sentencioso “não sei como é que consegues andar com esses tacões todos os dias”. detesto ainda mais ter que reprimir o automatismo da réplica sarcástica “porque me fazem sofrer e eu nasci para sofrer” e substituí-la pelo sorriso politicamente correto a enquadrar “porque me dá prazer”.

detesto quando me exigem que tenha uma conversa séria com uma colega (“porque és superior hierárquica dela”) sobre a forma como se veste porque “não é suficientemente feminina”. detesto que, presa na cúmulo-nimbo de adversativas que se formou na minha cabeça, eu tenha pactuado.

detesto que me digam o que devo ou não devo vestir. ou calçar.
detesto que me digam qual é a cor de batom mais adequada para o meu tom de pele.
detesto que me digam o que devo pensar. ou não pensar.
detesto que me digam como devo rir. ou deixar que me faça sorrir.

detesto que me digam que música tenho que ouvir.
ou que música é um desperdício de tempo. do meu tempo.
detesto que me digam o que devo partilhar. e como devo partilhar.
detesto que me digam como devo sonhar.
com o que devo sonhar.
que sonhos são mais adequados para o meu tom de pele.
ou para alguém que usa tacões.

detesto que me digam quem devo ser.
ou quem devo parecer ser.
ou querer ser.

e, mesmo profundamente agnóstica, dou por mim acidentalmente cristã não querendo para os outros aquilo que não quero para mim (por muito que… ver alguém a usar sabrinas todos os dias me provoque dores de costas… by proxy)

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