lembro-me da primeira vez que ouvi dizer que o coração não dói (devia ter uns sete ou oito anos).
lembro-me de achar que estavam a gozar comigo (parecia coisa de extraterrestre).
lembro-me de, depois de perceber que era a sério, tentar encaixar aquilo nas gavetas onde tinha guardado o que tinha aprendido sobre o sistema circulatório (na minha cabeça, o desenho do livro e o desenho que eu tinha decalcado com papel vegetal e pintado com lápis de cor).
lembro-me de, mais tarde, quando nas aulas de ciências voltei a dar o sistema circulatório, ter perguntado à professora se era verdade que o coração não dói (ainda na esperança de uma resposta que me fosse mais conveniente).
há dias, o príncipe do caos disse-me “mamã, sabias que o cérebro não dói?” (e mais qualquer coisa sobre cortar o crânio com uma motosserra).
“sim, sabia”, respondi.
senti-me uma mentirosa. uma mentirosa surpresa com a inutilidade da verdade. o coração dói, o cérebro também.
o coração dói com as coisas que o cérebro lhe faz, da mesma forma que o cérebro dói com as coisas que o coração deixa que lhe façam.
“mas isso agora não interessa nada”, diria a outra senhora.
Muito bommmm!!! Adorei! Bjs