e hoje quiseste adormecer na minha cama

7:30 e já estavas acordado.
às 8, decidiste que já tinhas feito a tua parte nesta coisa de me deixares dormir mais um bocado ao domingo de manhã. e vieste acordar-me: “feliz dia da mãe! levanta-te que tenho fome. temos que tomar o pequeno almoço.”
mais uma vez, ocorreu-me que devia deixar-te comida numa taça como se faz com os gatos e os cães. voltei a encafuar essa ideia na gaveta “a experimentar” e exigi um abraço.
“achas que me vou levantar e dar-te de comer sem ter primeiro um xi dos bons?”
deste-me um mono-xi (só com um braço) e anunciaste em tom sério: “tenho que ter cuidado a dar xis porque tenho um dente quase quase a sair e ele pode sangrar.”

…. … …

a caminho do restaurante, o dente saiu.
obviamente, querias que, mesmo a conduzir à chuva, me virasse para trás para ver que fixe que estavas com uma mega garagem resultante da falta de três incisivos.
obviamente, eu também queria ver a mega garagem, mas achei por bem continuar concentrada na estrada molhada. e contentei-me a ouvir o teu novo talento: fazer o som do vento graças à ausência de 75% dos incisivos superiores.

… … …

estacionámos. saíste do carro com o dente na palma da mão aberta para mo mostrares. “já viste bem que fixe? e nem sequer sangrou.”
avisei logo: “isso é para deitar fora, certo?” (cá em casa não há pachorra para fada dos dentes)
“claro”, respondeste, “vou por aqui na terra junto a esta árvore pequenina. assim, o meu adn que está no dente vai para as raízes e, depois, nascem Ds quando a árvore crescer.”
e remataste com o teu olhar “tu dizes que gostas do meu sentido de humor, portanto atura-me”.

… … …

à noite, na hora de vestir o pijama, vieste ter ao meu quarto. “quero sentar-me no teu colo e dar-te um xi porque ainda é dia da mãe e hoje dei-te pouco mimo”.
abraçámo-nos. cheiravas tanto a ti que só me apetecia dar-te beijos. “acho que é hoje que vou comer-te esta bochecha. apetece-me.”
encolheste-te com cócegas. quando voltaste a ficar sério, olhaste-me nos olhos, fizeste um daqueles sorrisos que não cabem na tua cara e aconchegaste-te novamente num abraço apertado.
“sabes, mamã, às vezes, nestes momentos, fico confuso.”
“confuso? como assim?”
“fico confuso porque quero dizer-te que gosto de ti e quero dizer outras coisas mas procuro as palavras e não as encontro.”
“não te preocupes: tu abraças-me e eu percebo tudo.”

… … …

“hoje posso adormecer contigo?”
“queres adormecer comigo na cama do cafuné (na cama de baixo do beliche)?”
“não. quero adormecer contigo na tua cama.”
“mas tu nunca queres dormir na minha cama.”
“hoje quero.”
e assim foi.
a certa altura, levei uma joelhada e encolhi-me. apercebeste-te e tentaste abraçar-me, mas o resultado foi um estaladão no meu pescoço – o son(h)o é quem mais ordena.

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