2004. tudo era novo. havia sonhos, expectativas, cuidados a ter, muita insegurança. havia, acima de tudo, uma fé imensa no valor e o potencial do que seria esse filho. era quase uma espécie de messias: o seu principal propósito era fazer as pessoas melhores, mais felizes, mais mais.
e, como se isso não chegasse, essas pessoas que íamos ajudar a serem melhores, mais felizes, mais mais, essas pessoas eram crianças.
ouro sobre azul, portanto.
grande responsabilidade e grande privilégio. muito trabalho, muito estudo, muito trabalho em equipa-família.
a cada passo, sustínhamos a respiração.
a cada passo, celebrávamos, mesmo quando o resultado não era bom – a cada passo, celebrávamos, porque, a cada passo, aprendíamos.
aprendíamos a ensinar. aprendíamos a usar um meio novo – o digital – para ensinar que, para aprender, o sonho deve ser uma constante. aprendíamos a criar estratégias para ensinar que errando também se aprende e que o que não pode faltar é vontade e coragem para tentar.
tentar, experimentar, explorar, aprender, ser autónomo. aprender com autonomia e aprender a deixar os números, as letras, os ossos, os triângulos e as esdrúxulas entrar no país das maravilhas.
aprender sem precisar de ter um adulto por perto para ditar certos e errados, para impor conceitos artificiais de normalidade.
escusado será dizer que o resultado não esteve – nunca estaria! – à altura do sonho. o sonho era tudo. simplesmente tudo. o resultado não foi tudo, mas foi muito. e o orgulho também. muito. muito mesmo.
tudo isto passou-se antes de a minha alma de mãe decidir que estava na hora de encomendar o príncipe do caos. e até o príncipe do caos ter idade para aprender com “o meu filho mais velho” passaram-se anos. o mais velho saiu das mãos da equipa-família. foi preciso adequá-lo a novas “circunstâncias”. os sonhos messiânicos de quem o criou deixaram de ser relevantes, a família deixou de ser relevante. o projeto já não era um filho para quem o tinha nos braços, era um conjunto de tarefas, de post-its, de listas a precisar de vistos.
(…)
hoje (30.março.2015), o meu príncipe do caos está a brincar com “o mais velho”. não posso dizer que não esteja a divertir-se. está e tenho a certeza que vai querer repetir. e vai chatear-me muitas vezes para repetir (e eu vou deixar, claro.)
no entanto, não me falta vontade de chorar, porque de cada vez que a criança (caracterizada por muitos como “cognitivamente acima da média”) me pede ajuda porque não percebe o que deve fazer e eu reconheço imediatamente o que é que não teve honras de fazer parte da lista de tarefas (e existia no sonho da equipa-família).
o meu projeto-filho foi mutilado. e o meu filho-filho não vai ter oportunidade de usufruir do que foi criado a pensar em crianças como ele. o príncipe do caos só vai conhecer a versão lobotomizada.