eu, herege, me confesso: não sou fã de sophia…

… mas, volta e meia, ela cruza-se no meu caminho e, por alguma razão, decide dizer-me coisas.
(por regra, não são daquelas razões que a minha razão desconhece. são das outras, das razões que surgem de acasos mas nada têm a ver com acasos. são daquelas razões de quem fala só porque tem a certeza que tem razão.)

e diz-me coisas sobre coisas que os olhos humanos veem quando acreditam que é legítimo aspirar ao divino. diz-me coisas que ela sabe porque sentiu e viu e sonhou, coisas que ela sabe que eu preciso de saber porque preciso de sentir e ver e sonhar.

e hoje voltou a dizer-me coisas. coisas sobre o que eu sinto e o que eu vejo e o que eu sonho. coisas que me lembram que acreditar que aspirar ao divino é a coisa mais legitimamente humana que posso fazer.

Data

Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 

Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Livro Sexto’

e disse-me coisas que, para ela, têm mais de 50 anos, enquanto que, para mim, não podiam ser mais atuais.

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