no princípio, era o fogo.
já não era uma pseudo-evidência de ação divina, é certo, contudo ainda se revestia de um não-sei-quê de inexplicável. talvez por se tratar de uma fotografia, ainda por cima digital, que transmitia calor ou, mais precisamente, que transmitia quentinho. digital quentinho… curioso…
– posso fazer o que me apetecer?
– podes. é precisamente para isso que vai deixar de ser minha e passar a ser nossa.
e assim foi. bem, foi mais ou menos assim. na verdade, açambarquei-a. fiz questão de ler um “tua” no “nossa”, embora não tenha perdido de vista o “nossa” que queria que resultasse do processamento do “tua”. sim, porque só fazia sentido se tivesse o que devolver. num pingue-pongue de significados, leituras, interpretações. polvilhados com o talento e a criatividade de gente camaleónica.
das chamas quis que ficasse a forma anarca (a anarquia, esse leitmotiv). a ausência de cor foi, então, substituída pela soma de todas as cores, rgbcamente falando. depois, decantei a mistura e o resultado foi de zeros e uns, preto e branco, sim e não. em última análise, yin e yang.
o resultado manteve a essência do original: o afastamento de qualquer ideia de padrão e o realçar de uma forma com movimento explicitamente orgânico. isto com a transformação de um elemento noutro. do fogo ao ar. das chamas ao fumo. da fonte de calor ao vapor de água. da concentração de energia à dispersão de um eventual aroma.
sim, o resultado manteve a essência do original: a multiplicidade de leituras de uma ausência de padrão e a paz do movimento orgânico.
definitivamente, o resultado manteve a essência do original: o “teu” partilhado que passa a ser “meu” e que, mesmo depois de processado, continua a ser inequivocamente “nosso”.
(obrigada)

